Gente do ramo
"É tempo de pensar que a burrice faz parte das doenças que não têm cura; por isso mesmo, produz efeitos em qualquer época, como se pode verificar com tanta facilidade no Portugal de hoje"Nos dias que vivemos é chegada a hora de parar para pensar. Há já bastante tempo, que pouco se ouve falar de
intelligentsia, em Portugal . Quem é que hoje em dia, ainda utiliza essa expressão, ou sabe da sua existência? Como é possível lembrar, a palavra foi tomada por empréstimo do russo, para designar a classe especial de gente que em geral vive nos degraus superiores da sociedade, e a quem se atribui a capacidade de pensar e decidir o que é melhor para todos, devido aos altos teores da sua instrução - nem sempre justificados, com preparo profissional e inteligência nata, traduzida numa boa qualidade de neurónios. Haverá, com certeza, boas razões para o conceito ter saído de moda e caído em desuso; os professores de sociologia podem explicar isso bem melhor do que um artigo destes.
É interessante notar, em todo caso, que no Portugal de ontem e de hoje, quando se pensa na produção de resultados práticos, a
intelligentsia sempre pareceu competir em desvantagem com o que poderia ser descrito como a sua outra face – a
burritsia. Porque se trata-se de uma classe em tudo idêntica à primeira. Os que fazem parte dela também estudam muito, raciocinam "em bloco", armam estratégias e, ao fim desses esforços todos, chegam sempre a uma conclusão errada - ou, entre todas as decisões possíveis, escolhem geralmente a pior.
Um dos grandes momentos da
burritsia nacional ocorreu quando os governos saídos do pós-PREC, entre os anos 70 e 80, descobriram que um dos piores problemas de Portugal, no seu modo de ver as coisas, era a existência de obsoletos caminhos de ferro. Passaram, então, a erradicar as ferrovias com a urgência de quem combate a raiva. Arrancaram carris do chão, fecharam estações e exterminaram linhas inteiras; ficaram só com os funcionários e a folha de pagamento. O resultado é que Portugal perdeu de trinta a quarenta anos no desenvolvimento da sua estrutura ferroviária, e hoje corre atrás de outros para recuperar uma parte, pelo menos, do atraso. Naturalmente, demora e custa caro. Para um exemplo só, a ferrovia Norte-Sul, que liga Porto ao Algarve, começou a ser delineada há 22 anos e só recentemente ficou parcelarmente concluída. Porém, até hoje não transportou nem metade daquilo que lhe seria exigível para a sua função de ligar o Norte ao Sul de Portugal, quer em passageiros (porque os bilhetes são caros) quer em veículos ou mercadorias, o que deveria ser um dos seus principais propósitos, e alguns trechos da sua parte sul nem sequer foram licitados para se dar como finalizada. Conclusão: numa altura em que o relógio do progresso aponta para o TGV da alta velocidade, em Portugal o que já existia feito antes não existe mais, e o que precisa de existir não está ainda pronto. Quando todos reconhecem ser as vias de comunicação o motor vital para o desenvolvimento de qualquer país. Que estranho é este país.
Os colossos do pensamento português também nos brindaram no passado recente com a extraordinária noção de que o país não teria futuro se não controlasse, do começo ao fim, todo o processo da produção - sem isso, Portugal ficaria na dependência de "potências estrangeiras", dizia-se. E se num dia qualquer a IBM, por exemplo, não quisesse vender um computador para a gente? A solução seria projectar e construir aqui dentro o nosso próprio parque digital, e para tanto os produtores nacionais teriam de ser protegidos da competição internacional com a "reserva de mercado". Num período em que o mundo começava a andar na direcção exactamente oposta, com a descoberta de que o importante não era juntar peças para montar um computador, mas sim ter as melhores ideias para tirar proveito do seu funcionamento, a
intelligentsia portuguêsa imaginava que conseguiria legislar sobre o pensamento humano e proibir a sua livre circulação de um lado para outro do planeta. Hoje parece engraçado que uma coisa dessas tenha sido levada a sério, mas aí está: o Portugal oficial passou anos acreditando que o computador era algo que tinha de ser controlado pelo governo, como a emissão de moeda ou o funcionamento dos semáforos nos cruzamentos de rua. E nasceu o Magalhães, de controvérsia monumental. Deveria, é claro, servir à segurança nacional e ser utilizado, pensando bem, apenas por engenheiros ou técnicos capacitados. Mas foi mais longe, e inundou algumas escolas, e encontram-se hoje a vender na Feira da Ladra em Lisboa e no Mercado de Carcavelos.
A burrice faz parte das doenças que não têm cura; por isso mesmo, produz efeitos em qualquer época, como se pode verificar com tanta facilidade no Portugal de hoje. Basta verificar com atenção como alguns dos “eleitos” nomeados pela
intelligentsia tentam mandar a todo o momento, areia para os olhos com acções de mera propaganda e demagogia para encher o olho do Zé Povinho. Por trás dela há o princípio básico de que o mundo se divide em gente "do ramo", a quem cabe decidir os grandes temas de interesse público, e os demais, a quem cabe pagar pelas consequências. Hoje, basta analisar-se a “classe” dos banqueiros que temos (comparativamente com a dos que tivemos). A agravante é que Portugal gosta de se considerar um país esperto, onde frequentemente a "malandragem" de colarinho branco é tida como uma forma superior de virtude. É o ideal para esconder os sintomas da moléstia. É, também, o caminho mais curto para o Zé Povinho acabar no papel do otário, como comprova todos os dias o noticiário político. Quem sai ganhando, e escapando sempre, é a tal de
espertetsia.
Quando o relógio do tempo atingir o limite, e os portugueses acordarem, tudo deverá ser demasiado tarde. Então, alguém que feche a porta, para que o vento não leve o resto, e se reconheça no mínimo que aqui viveram seres humanos sofridos, mas de outro ramo.
Carlos Ferreira
algarve_reporter@mail.telepac.pt