Liberdade e o Direito de Expressão

Neste blog praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão, próprios de Sociedades Avançadas !
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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Na remota Yakutsk


“A cidade mais fria do mundo”

Leiam e comparem.
E dizemos nós que sentimos frio. Há ainda gente que protesta...
Vale a pena ler, pois é bem interessante, esta reportagem que Shaun Walker escreveu para o jornal britânico The Independent, publicada na Revista da Semana e ainda para o Neo Seganet Reporter

"A 5°C negativos o frio pode ser refrescante.
A 20°C negativos a humidade no nariz congela e fica difícil não tossir.
A 35°C negativos a pele exposta ao ar fica dormente e a necrose é já um risco.
E a menos 45°C até usar óculos fica complicado. O metal gruda-se no rosto e nas orelhas e rasga pedaços da pele quando se decide tirá-los.
Sei disso porque acabo de chegar a Yakutsk, lugar onde os amistosos nativos me alertaram para não usar óculos ao ar livre. Yakutsk e uma cidade remota na Sibéria Oriental (população: 200 mil habitantes), famosa por aparecer no clássico jogo de tabuleiro Risk (versão do War) e por deter a fama de ser a cidade mais fria da Terra. Em Janeiro a média da temperatura fica em torno de 40°C negativos. A névoa que cobre a cidade restringe a visibilidade a 10 metros. Os habitantes envergando pesados casacos de pele passam pela praça central, agora adornada por uma arvore de Natal congelada e uma estatua de Lenin.
Logo descobri que, ali, temperaturas na casa dos 40°C negativos são descritas como 'frio, mas não muito frio'. Sendo assim, antes de me aventurar pela primeira vez nas ruas de Yakutsk, encapotei-me com toda uma mala de roupas que trouxe.
Eis o que estou vestindo: um par de meias de algodão com um par de meias térmicas por cima; um par de botas; ceroulas térmicas; uma calça jeans; uma camiseta térmica; uma camiseta de mangas compridas; um sueter justo de caxemira; um abrigo desportivo; um casaco acolchoado de inverno com capuz; um par de luvas finas de lã (para que eu não exponha a pele quando tirar a luva externa para fazer fotos); um par de luvas de la; um cachecol de lã; e um boné, também revestido de lã.
Botas revestidas a pele de animais são o único calçado possível de se suportar nesta terra. Saindo do quarto como se fosse o boneco Michelin, e já suando por causa do sistema de aquecimento do hotel, estou decido e pronto para enfrentar Yakutsk. Caminho porta fora e... bem, não acho tão mau como isso. A pequena fresta do meu rosto que está exposta regista o ar frio, mas no geral a sensação é boa... até agradável. Desde que esteja vestido correctamente, penso eu, não é assim tão mau como se poderá de início imaginar.
Em poucos minutos, porém, o clima gélido passa a impor-se. A pele exposta começa a dar picadas e depois fica adormecida, o que aparentemente é perigoso, porque significa que o fluxo de sangue para o local parou. Então o frio penetra pela dupla camada de luvas e congela os meus dedos. O boné e o capuz tampouco são suficientes de suster os 43°C negativos e as minhas orelhas começam a pingar. Em seguida as pernas sucumbem. Finalmente vejo-me com dores agudas pelo corpo todo e tenho de voltar a um ambiente fechado. Olho para o relógio. Fiquei ao ar livre durante 13 minutos.
Yakutsk é a capital de Yakutia, a região da Sibéria que abrange mais de 2.6 milhões de quilómetros quadrados e onde vivem menos de 1 milhão de pessoas. A cidade fica a seis fusos horários de Moscovo, mas a viagem leva seis horas num precário avião Tupolev. A passagem custa pelo menos 700 Euros, ida e volta, uma enorme quantia num pais em que o salário médio é de 300 € por mes.
Não há linhas de combóio até Yakutsk. As outras opções são uma viagem de 1,600 mil quilómetros de barco subindo o rio Lena, nos poucos meses do ano em que ele não está gelado, ou então a 'Estrada dos Ossos', uma rodovia de 2 mil quilómetros construída por prisioneiros do Gulag (o antigo sistema penal dos soviéticos) onde milhares deles morreram e ficaram enterrados.
Em Yakutsk a maioria dos carros são de importação, japoneses de segunda mão, que aparentemente resistem melhor ao frio do que os veículos russos tradicionais. Ainda assim, os moradores costumam deixar o motor a funcionar se vão parar apenas por meia hora, e alguns deixam-no ligado até o dia inteiro, durante o expediente de trabalho, para garantir uma temperatura minimamente tolerável no regresso para casa. A fumaceira dos escapes contribui para a névoa que paira sobre a cidade.
A região foi inicialmente conquistada pelos russos em 1630. No século passado era usada como prisão aberta para dissidentes políticos. Anton Chekhov, na sua Jornada em 1890 pela Sibéria, pintou um quadro sombrio da vida dos prisioneiros que ali encontrou. 'Eles perderam todo o calor que já tiveram', escreveu. "As unicas coisas que lhes restam na vida são a vodka, vagabundas, mais vagabundas, e mais vodka... Já não são mais seres humanos, mas bestas selvagens.”
Lenin e Stalin foram dois dos presos políticos exilados em Yakutsk.
As aulas só são suspensas quando o termómetro cai abaixo de 55 graus Célsius. A região é rica em ouro e diamantes, razão pela qual os soviéticos decidiram transformar Yakutsk num importante centro regional, primeiro com o sistema de trabalho forçado do Gulag, depois colonizando a região com milhares de voluntários em busca de aventura, melhores salários e a chance de construir o socialismo no gelo.
A megaempresa Alrosa, responsável por 20% da oferta mundial de diamantes brutos, tem asua sede naquela região. Com o tempo, Yakutsk virou uma cidade de verdade, com hotéis, cinemas, uma ópera, universidades, entrega de pizza ao domicílio e até um jardim zoológico.
Apesar dos nativos manterem estoicamente os seus afazeres, e das crianças brincarem na neve da praça central, percebo que preciso de um táxi para poder continuar a minha aventura de exploração pela terra gelada. Os 13 minutos que passei ao ar livre deixaram-me sem fôlego, praguejando e cheio de dores, o meu rosto tão vermelho que parece que acabo de voltar de uma semana no Caribe. Caio para cima da cama no hotel, e preciso de meia hora para voltar a sentir o meu corpo. A parte mais desagradável começa 15 minutos depois, quando as pernas, de volta a temperatura habitual, sentem uma caibra quente sendo irradiada de dentro para fora, e todo o corpo começa a latejar.
Vou ao mercado, cheio de gente vendendo e comprando peixe, porcos e coração de cavalo, tudo congelado. “É claro que faz frio, mas você acostuma-se”, diz Nina, uma yakut que passa oito horas por dia de pé na sua banca de peixe. "Os seres humanos acostumam-se com qualquer coisa”, repete ela. Mas ainda assim o nível de resistência é difícil de compreender. Os operários continuam trabalhando na construção civil até aos 50°C negativos (abaixo disso o metal torna-se quebradiço) e as aulas só são suspensas quando o termómetro cai abaixo de menos 55°C (embora o jardim-de-infância feche com menos 50°C).
Quase sem exceção, as mulheres cobrem-se da cabeça aos pés com peles, muitas delas produzidas ali mesmo. Nesse clima a ética pouco importa. “Vi na televisão que na Europa existem lunáticos que dizem que nao é legal usar pele porque eles amam os animais”, diz Natasha, uma moradora de Yakutsk que veste um casaco de urso siberiano e um encantador chapéu de raposa ártica. “Deveriam vir para cá para ver se ainda se preocupavam tanto com os animais. Aqui precisamos de vestir peles se quisermos resistir ao frio”, diz ela.
Na luta pela sobrevivência entre o homem e os animais selvagens, no frio da Sibéria a vida tem valor relativo e depende da inteligência do ser humano perante o instinto do animal. Embora o mesmo já não se possa aplicar entre os humanos.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Floresta: Doença do pinheiro

Produtores em dificuldades para vender a madeira

Transporte descontrolado pode espalhar ainda mais a doença, com a madeira infectada a circular do Algarve ao Minho sem controlo sanitário

A doença do pinheiro que alastra pelo país, está provocar a desvalorização em cerca de 50 por cento no preço da madeira infectada e existem serrações que podem encerrar por falta de escoamento, garantem responsáveis do sector.
Dirigentes da Associação Florestal Caule e da Federação Nacional das Associações de Proprietários Florestais (FNAP) alertam para os problemas que vários concelhos do interior estão a sofrer com o problema e acusam o Ministério da Agricultura de falta de intervenção.
«Para termos uma ideia, um pinheiro seco, infectado pelo nemátodo, vale menos 50 por cento do que um verde», explicou Vasco Campos, responsável da Caule, acrescentando que o «excesso de oferta está também a fazer cair os preços».
No local, a Lusa verificou uma quantidade interminável de pinheiros secos que, de acordo com o director executivo da FNAP, Luís Alcobia, já «só servem para transformação em pasta ou resíduos de biomassa. A maioria da madeira de pinho era exportada para Espanha, mas desde há cerca de três meses isso não acontece por decisão do Ministério da Agricultura, levando a que as serrações estejam cheias de madeira excedentária que não conseguem escoar», frisa Luís Alcobia.

Doença já pode estar no Minho

Vasco Campos garante que o nemátodo já contaminou uma mancha florestal superior a 100 mil hectares, continuando a alastrar de forma alarmante sem que haja um plano para travar a situação, prevendo que, com o avançar do tempo, os preços da madeira de pinho «ainda baixem mais».
Além do impacto na economia local, que se está já a sentir junto dos produtores, temem-se graves efeitos na paisagem, no ambiente e no turismo da Beira Serra.
Alarmados com a situação, Vasco Campos e Luís Alcobia defendem que o Ministério da Agricultura deve atribuir apoios a 100 por cento para o abate das árvores infectadas e reflorestação das respectivas áreas com outras espécies.
A falta de controlo no transporte da madeira de pinho poderá originar novos focos de nemátodo, alerta o director executivo da FNAP. «O transporte não tem controlo, salvo inspecções pontuais, e a madeira infectada pode circular do Algarve ao Minho sem controlo sanitário», sustenta o responsável, que defende «um controlo sanitário mais apertado».
Fernando Alves, da Associação Portuguesa de Agricultura Florestal, Floresta e Desenvolvimento Rural, de Viana do Castelo, suspeita mesmo que o nemátodo já tenha chegado ao Minho, situação que poderá ser confirmada esta semana depois de realizadas análises a algumas amostras.

Doença fatal atinge todo o pinhal português

O nemátodo, doença que se transmite através de um insecto de árvore para árvore, espalhou-se pelos pinhais de todo o país. Apesar de estarem a ser aplicadas medidas de contenção, o foco, que nasceu em 1999 na península de Setúbal, alastrou ao país, refere o jornal Público.
Mais de 1600 amostras de pinheiro estão a ser analisadas em laboratórios estatais e de universidades. Dessas amostras, 26 deram positivo, 22 no centro e quatro no sul, mas as análises ainda estão a decorrer.
A generalização da doença por todo o país funciona também como um travão na especulação dos preços da madeira. Até agora os industriais compravam as madeiras dos locais afectados por um preço mais baixo sob a ameaça de que se não vendessem a esse preço iriam comprar a uma zona não afectada agora, com a generalização, isso já não acontece.
O Governo tomou medidas, aplaudidas pelos produtores, que consistem na colocação em prática de um plano de irradiação contínuo e não apenas em alturas críticas e na contemplação do problema pelo Plano de Desenvolvimento Rural. A Comissão Europeia, no entanto, e segundo noticia o Público, considera que ainda é pouco: «As medidas adoptadas até agora são inadequadas e não se pode continuar a evoluir o risco imediato da propagação do nemátodo para fora de Portugal». «As medidas comunitárias e nacionais não são inteiramente aplicadas», sublinha a Comissão Europeia.