Na terra de Fidel, os blogs tem vida negra: "Eu achei que não sairia viva"
Quem vê a cubana Yoani Sánchez, conhecida blogueira por driblar a censura, automaticamente se contrai só de pensar no sofrimento a que o seu corpo frágil, de apenas 49 quilos, foi submetido enquanto era espancada por três brutamontes dentro de um carro. Na tarde da sexta-feira passada, Yoani estava a caminho de uma quase impossível manifestação de protesto em Havana quando foi atacada por agentes da polícia política. Sofreu ameaças e espancamentos antes de ser jogada na calçada de um bairro pobre e longínquo do centro da cidade. Yoani escreve há dois anos sobre as dificuldades de viver na ilha de Fidel. no blog Generación Y - www.desdecuba.com/generaciony - e é autora do livro "De Cuba, com Carinho" (editado em português pela Contexto). Vive sob vigilância, mas nunca havia sido fisicamente atacada. Numa mesagem, ela descreve o ocorrido e com a habitual coragem, manda um recado ao "general" – Raúl Castro. De muletas, sequela do espancamento que a imobilizou em casa, pediu a uma amiga que levasse o relato em uma pen drive até um ponto de acesso à internet para enviá-lo por e-mail.

De muletas, Yoani Sánchez, em casa, depois de ser agredida: "Durante vinte minutos, nos espancaram sem parar"
"Não era uma sexta-feira qualquer. As comemorações do vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim estavam na ordem do dia, e um grupo de jovens artistas cubanos planeava uma passeata contra a violência naquele dia. A tarde era cinza numa cidade onde quase sempre brilha um sol inclemente, e que nos faz caminhar colados às paredes para beneficiarmos da sombra. Estavam comigo Claudia Cadelo e Orlando Luís Pardo, dois autores de blogs que recebem milhares de visitas em cada semana. Enquanto andávamos, contei a eles sobre uma desconhecida que, dias antes, havia se aproximado de mim, e perguntado: "Você não tem medo?", em referência, claro, ao facto de que digo livremente as minhas opiniões num país onde o governo detém o monopólio da verdade. Meus amigos sorriram quando narrei a eles a resposta que dei à transeunte angustiada: 'Meu maior temor é ter de viver com medo'. Não imaginava maquele momento que em poucos minutos eu viveria o terror de um sequestro e veria o rosto da impunidade policial na sua forma mais dura.
Eu caminhava pela Avenida dos Presidentes, em Havana, com a intenção de participar na demonstração pacifista convocada pelos jovens. À altura da Rua 29, a uns 300 metros de onde estavam os manifestantes, um carro da marca Geely, de fabrico chinês, cor preta e placa amarela, de uso privado, parou diante de nós. Três homens em trajes civis mandaram-nos entrar no automóvel. Não se identificaram nem mostraram um mandado de prisão. Eu recusei-me a obedecer. Disse que, como não tinham ordem judicial, seria um sequestro. Depois de uma breve discussão, um deles chamou alguém pelo celular, pedindo orientações. Imediatamente, os três começaram a tratar-nos com violência para que entrássemos no carro. Enquanto nos empurravam, os homens do automóvel negro usaram o celular outra vez e uma viatura da polícia aproximou-se. Pensei que os policias nos salvariam. Pedi ajuda a eles, explicando que estávamos sendo atacados por supostos sequestradores. Os homens que estavam à paisana então deram ordens aos policiais para levar Claudia Cadelo e outra amiga que estava conosco. Eles obedeceram e ignoraram o pedido de ajuda que eu e Orlando fazíamos. As pessoas que observavam a cena foram impedidas de prestar ajuda, com uma frase que resumia todo o fundo ideológico da cena: 'Ninguém se meta. Eles são contra-revolucionários'. Fazendo uso de toda a força física e de um evidente conhecimento de artes marciais para nos dominar, obrigaram-nos a entrar no carro. Comigo empregaram especial violência, enfiando-me de cabeça para baixo e mantendo-me imobilizada com um joelho sobre o peito.
Dentro do veículo e durante cerca vinte minutos, os sequestradores nos espancararam sem parar. Frases de mau presságio saíam da boca daqueles três profissionais da intimidação e da violência: 'Yoani, isto é o teu fim', 'Não vais escrever nem fazer mais palhaçadas', ou 'Acabou a brincadeira'.
Achei então que não sairia dali viva. Tentei escapar pela porta, mas não havia maçaneta para abrir. A certa altura, o carro parou. Eu já tinha perdido a noção do tempo. Do lado de fora, caía a noite. Finalmente, depois de um verdadeiro massacre, ambos fomos jogados em plena via pública, longe do lugar onde se realizava a passeata contra a violência.
Por causa dos golpes desferidos por esses profissionais da repressão, estou com a face esquerda inflamada. Tenho contusões na cabeça, nas pernas, nos glúteos e nos braços, além de uma forte dor na coluna, que me obriga a caminhar com muletas. Fiz uma consulta médica, mas não quiseram redigir um exame de corpo de delito sobre os maus-tratos físicos. A médica teve de me atender na presença de um funcionário que estava ali apenas para me vigiar. Uma radiografia mostrou que não havia traumas internos, apesar dos sinais exteriores das pancadas. Recebi apenas algumas recomendações para a minha recuperação.
Eu já me sinto fisicamente melhor e desde sexta-feira tenho uma ideia constante. As autoridades cubanas acabam de compreender que, para silenciar uma blogueira, não podem usar os mesmos métodos com os quais conseguiram calar tantos jornalistas. Ninguém pode despedir os impertinentes da web nem lhes prometer umas semanas na Praia de Varadero ou presenteá-los com um Lada da ex-RDA. Muito menos podem ser cooptados com uma viagem para o Leste Europeu. Para calar um blogueiro, é preciso eliminá-lo ou intimidá-lo. Essa equação já começou a ser entendida pelo estado, pelo partido e pelo general. E a liberdade um dia triunfará."
