Liberdade e o Direito de Expressão

Neste blog praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão, próprios de Sociedades Avançadas !
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sábado, 16 de abril de 2011

Memória

Quando a História se repete...


“O País perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos.
                             
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida.
                                       
Ninguém se respeita.
Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Já se não crê na honestidade dos homens públicos.
                                         
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
                                           
Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente.
O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso.
                                         
Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo!
Todo o viver espiritual, intelectual, parado.
O tédio invadiu as almas.
                                            
A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés.
A ruína económica cresce, cresce, cresce...
                                                
O comércio definha. A indústria enfraquece.
O salário diminui. A renda diminui.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo."
                                                   

Eça de Queirós
                                              
                                                  

                                          


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Passadeira de Abbey Road.




O governo britânico decretou a passadeira de Abbey Road património histórico nacional. A rua de Londres tornou-se famosa quando, em 1969, os The Beatles deram esse nome a um disco e foram fotografados por Iain Macmillan, a atravessar a passadeira para a capa do álbum.
Ainda nos dias de hoje, a passadeira contin...ua a atrair muitos fãs da banda, que posam para a fotografia a imitar os “fab four”. A imagem é um verdadeiro ícone pop: Kayne West também já lá fez a capa de um disco e até a família Simpson já atravessou a mítica passadeira junto aos estúdios londrinos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Efeméride

Fez ontem 92 anos que foi assassinado de Sidónio Pais
                                                                                                                 
Com uma arma escondida sob o seu capote alentejano, o maçom José Júlio da Costa conseguiu aproximar-se de Sidónio Pais, atingido-o com dois tiros. "Fico bem, salvem a Pátria" terão sido as últimas palavras de Sidónio.
                                            
"A sua figura insinuante, o seu garbo, a sua valentia serena, a simpatia que dele irradiava, tudo concorria poderosamente para o prestígio que desde logo exerceu no povo e em todos os que sinceramente queriam o bem do país (...) Tinham acabado as violências, as perseguições, o terror". As memórias são de Rita Ferreira Roquete, condessa de Mangualde por força do seu casamento com Fernando Albuquerque, e referem-se a Sidónio Pais.
Vasco Pulido Valente recorda-as numa obra que escreveu sobre Paiva Couceiro, para dar conta do apoio que o militar, que tomou o poder pela força, a 5 de Dezembro de 1917, recebeu dos monárquicos e de vastos sectores da sociedade portuguesa de então. Machado dos Santos, herói do 5 de Outubro, foi um dos apoiantes, ainda que sem fervor, de Sidónio e com ele muitos outros republicanos saturados de sete anos de regime instável e violento.
Nascido em Caminha, em 1872, Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais doutorou-se em Matemática, em Coimbra, onde foi professor, e apostou numa carreira militar. Simpatizante da causa republicana, integrou vários governos nos primeiros anos do novo regime, passando, a seguir, a embaixador em Berlim. Foi lá que viveu tempos difíceis, depois do início da I Guerra Mundial. Saiu da Alemanha, em 1916, quando este país declarou guerra a Portugal e, regressado, opôs-se fortemente à participação nacional no conflito, o que o fez adversário feroz de Afonso Costa.
Constituiu, então, uma Junta Militar Revolucionária para liderar um golpe de Estado. Chegado ao poder, instituiu uma ditadura que muitos apoiaram na esperança de ver terminada a instabilidade reinante. Diz Vasco Pulido Valente: "Para transformar uma insurreição num regime, Sidónio precisava de um partido. Mais exactamente, precisava de uma organização que o sustentasse, para além do fervor efémero produzido pela derrota da demagogia".
Assim, Sidónio Pais nunca deixou de estar sob contestação nem o ambiente da Lisboa política deixou de estar agitado. Veio, contudo, de longe - de Ourique, no Alentejo - o homem que, pela lei da bala, viria a pôr fim ao regime. E à vida do ditador.
José Júlio da Costa, maçon, combatente do 5 de Outubro que viu recusado o alistamento para o Corpo Expedicionário Português, liderava uma série de greves de trabalhadores rurais alentejanos e opunha-se ao regime. A 14 de Dezembro de 1918, chegou a Lisboa, jantou num restaurante no Chiado e desceu à estação do Rossio, onde se aguardava pela chegada do Presidente, que iria embarcar para o Porto. Com uma arma escondida sob o seu capote alentejano, Costa conseguiu aproximar-se de Sidónio Pais, atingido-o com dois tiros. "Fico bem, salvem a Pátria" terão sido as últimas palavras de Sidónio, que morreria horas depois, no Hospital de São José.
Apesar de José Júlio da Costa ter vivido mais 27 anos, nunca foi cabalmente esclarecido se agiu individualmente ou em concertação com a Maçonaria ou outro qualquer grupo. Costa morreu em 1946, no Hospital Miguel Bombarda, onde tinha sido internado.
                                                        

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dia de Todos os Santos

1755 - Terramoto de Lisboa
Os nove minutos que abalaram o mundo
                                                                                   
Terão morrido dez mil dos 250 mil habitantes da capital. Grande parte de uma das mais opulentas capitais da Europa está no chão. Dos 65 conventos de Lisboa, só cinco ficam em condições de dar abrigo aos
milhares de desalojados.
                                         
É dia 1 de Todos os Santos e a manhã de sábado, 1 de Novembro de 1755, surgiu límpida e amena, ainda a lembrar um longo Verão sem pinga de chuva. "Os ares da atmosfera estavão mui subtis e puros", registou um lisboeta. "Fazia um tempo sereno e o céu não tinha uma nuvem", descreveu um comerciante inglês.
A temperatura ronda os 18 graus. É dia de missas e o povo de Lisboa - muita da nobreza ainda goza o bom tempo fora da cidade - enche as igrejas. D. José passou a noite na Real Casa de Campo de Belém e conta ir aos Jerónimos. Pouco depois das nove e meia, "um  rugido surge das entranhas da terra", como o "som de carruagens conduzidas com violência". Um abalo sacode Lisboa por minuto e meio. Pouco depois, a terra volta a tremer com mais força durante mais de dois minutos. Os edifícios, muitos de três e quatro andares, começam a ruir com estrondo. A acalmia dura um minuto. Segue-se nova réplica, "que dura uma eternidade" - três minutos. O pico da crise sísmica teve três impulsos, demorou nove minutos e, sabe-se hoje, terá tido uma magnitude de 8,7 da escala de Richter.
Um inglês, residente numa casa de quatro pisos, descreve assim os primeiros momentos do abalo: "o movimento era tão violento que eu me mantinha de pé com dificuldade. Toda a casa rachava à minha volta, as telhas chocalhavam lá no cimo; as paredes despedaçavam-se por todos os lados. (...) ouvi aterrorizado a queda das casas à volta e os gritos e choros de pessoas vindos de todos os lados".
                                                                   
Danos incalculáveis
                                                                             
Grande parte de uma das mais opulentas capitais da Europa está no chão. Pouco resta da parte baixa, do Rossio ao Terreiro do Paço as muitas casas de três e quatro andares e os casebres dos bairros sobrepovoados que acompanhavam as colinas vieram por aí abaixo. Os símbolos também caem: o Palácio Real da Ribeira, com os seus armazéns de especiarias e a sua grande biblioteca, desabou em parte e, no Rossio, ruiu o da Inquisição - hoje lembrado na varanda de pedra retirada dos escombros que decora a sede do Grémio Lusitano, do outro lado da praça.
Dos 65 conventos de Lisboa, só cinco ficam em condições de dar abrigo aos milhares de desalojados. No Carmo ficam de pé os arcos góticos, mas as abóbadas despenham-se sobre os crentes que assistiam à missa. Mais de 30 palácios vêm abaixo, como o dos duques de Bragança, o maior de Lisboa (ao fundo da Rua António Maria Cardoso). Cai a Ópera do Tejo, perto da Ribeira das Naus, inaugurada apenas há sete meses. Caem prisões, como a do Tronco e do Limoeiro. Os seis hospitais da cidade estão no chão. No grandioso Hospital de Todos os Santos, no lado nascente do Rossio, dez acamados ficam sob os escombros. Das cerca de 20 mil casas de Lisboa, mais de duas mil foram destruídas e apenas três mil continuam habitáveis. As freguesias mais afectadas são S. Miguel, Sto. Estêvão, S. Paulo, S. Nicolau, Sta. Catarina, Mártires, Sacramento e Encarnação. Das 40 igrejas paroquiais (algumas de interiores riquíssimos, como a Patriarcal) 35 ficam destruídas.
Em Alcântara a terra fende-se, libertando "um vapor sulfuroso". Coisa admirável: o aqueduto, acabado sete anos antes, aguenta-se. O céu azul desapareceu sob a poeira escura dos aluimentos e a calma do dia santo sob os gritos dos sobreviventes. O resto é um monte de ruínas. Thomas Chase, outro britânico que sobreviveu, apesar do quarto andar em que se encontrava ter ruído, descreve o que vê ao sair à rua logo após os primeiros tremores: "as pessoas estavam todas em oração, cobertas de pó, e a luz aparecia como se tivesse estado um dia muito escuro". "Nesta aflição ouviam-se fervoríssimas confições em público de culpas cometidas", refere outro testemunho.
Outro comerciante, de origem francesa, Jácome Ratton, é quase cinematográfico quando descreve a surpresa com que, ao sair à rua, pôde observar as pessoas correndo ainda em camisa no interior das casas cujas paredes fronteiras desabaram. Nas ruas correm sobreviventes desvairados, fugindo dos desabamentos que se sucedem. E "nem havia distinção de sexo, idade, nascimento ou fortuna" (mercador Thomas Jacomb). Outros procuram nos escombros familiares aprisionados. Uma menina loura de três anos sobreviverá sete horas ferida sob os escombros. Procura-se segurança nos poucos largos e praças, no alto de Sta Catarina, na Cotovia (ao Príncipe Real), no Campo Grande.
Os que vão para as bandas do rio - uma multidão junta-se no Terreiro do Paço, onde se vêem "pessoas quase nuas" e padres ainda paramentados, e também no Largo de S. Paulo - são colhidos por uma onda enorme que por pouco afogava os vigias do Bugio.
Não se sabe ao certo, mas o sismo terá vitimado dez mil dos cerca de 250 mil habitantes de Lisboa, sobretudo gente das classes mais baixas dos bairros populosos - S. Nicolau, Sta Justa, Socorro, Santos, Encarnação, Alfama ou Castelo. Entre a comunidade britânica, a maior da cidade, registam-se 77 vítimas. Contam-se pelos dedos as figuras de grande destaque que sucumbiram aos abalos. O embaixador de Espanha, entalado sob escombros, é uma delas. Os prejuízos - escreve-se na História de Lisboa, de Dejanirah Couto - ultrapassarão 1.500 milhões de libras.
                                                                                            
Depois da terra, o mar
                                                                                   
Noventa minutos depois do terramoto, seriam umas 11h00, dá-se uma forte réplica e o Tejo, que estava na vazante, retira-se para o largo, ao ponto de se lhe ver o fundo, para logo voltar numa vaga enorme com "mais de 20 pés de altura" (seis metros), varrendo de lama e restos de embarcações as zonas baixas. "Enquanto a multidão estava reunida próximo da margem do rio, a água subiu a uma altura tal que ultrapassou a inundou a parte baixa da cidade... os barqueiros ao serem sacudidos dos barcos para terra pelo subido avanço da água, saltaram para a margem para se salvarem, sendo os seus barcos imediatamente levados pelo mar em retirada, que vazou e encheu, vazou e encheu, em quatro ou cinco minutos... Foi surpreendente observar vários navios grandes, que estavam em seco na Boavista, a desencalhar e a serem levados rio abaixo" (comandante de navio inglês). Segundo o embaixador dos Países Baixos em Lisboa, "no rio a maré subiu e desceu cinco ou seis vezes".
No Tejo apareceu "uma enorme massa de água a erguer-se como uma montanha" que arrastou muitos com ela. Alguns barcos fundeados, apanhados em redemoinhos, mergulham a pique no fundo. A zona de Belém foi das mais inundadas. O pároco da Cruz Quebrada regista que o mar "três vezes entrou pela terra dentro" e "com tanto ímpeto que botou abaixo as guardas da ponte".
                                                                                                                                                                                                                                              

Lisboa antes do terramoto de 1755 - uma foto da maquete do Museu da Cidade,, onde se vê : 1. O Terreiro do Paço - 2. O Paço (ou palàcio) real - 3. A Sé catedral - 4. Castelo São Jorge - 5. Rossio - 6. Chiado (que no século XVIII ainda não se chamava assim) - 7. São Vicente de Fora (que aguentou ao terramoto!!!) - 8. Alfama

Depois do mar, o fogo
                                                                                                
Horas depois dos abalos, outro véu encobre o céu azul. Os círios e as velas dos altares e os fogões das casas atearam fogos que lançam no ar rolos negros de fumo. Arde o palácio do marquês de Louriçal, arde a Igreja de S. Domingos, arde a Boa Hora. A brisa de Nordeste junta os fogos isolados. As cinzas volteiam no ar para se depositarem pelas ruas e praças. Os muitos vagabundos e marginais que rondavam as vielas, ou fugiram das cadeias, assustam com falsos alarmes os moradores que encontram, assaltam-lhes as casas danificadas e propagam os incêndio. Um francês desertor (da Guerra da Sucessão da Áustria) confessará mais tarde ter deitado fogo à riquíssima Casa da Índia. Um "mouro" da cadeia da Galé que ateara chamas em sete sítios. Mas o saque não dura muito. Seis novas forcas são erguidas em Lisboa e com elas "cessou com brevidade o escândalo de tantos roubos", regista em 1758 o arquivista da Torre do Tombo Moreira de Mendonça. Nesse Novembro, 34 suspeitos de pilhagem serão enforcados.
As casas de madeira, que tinham aguentado de pé, sucumbem às chamas. À tarde, a cidade é "um gigantesco braseiro". O incêndio lavra cinco dias e vê-se de Santarém. Chegara "o último dia do mundo", dirá Voltaire. Entontecidas pelo espanto e pelo fumo, assustadas pelos boatos - o terramoto ia repetir-se, o paiol do Castelo ia rebentar - milhares de pessoas em fuga entopem as saídas da cidade. Fogem para os arredores e para as quintas. De tarde, o centro de Lisboa fica deserto. Só um oficial adolescente, cujos soldados desertaram, se mantém no posto de guarda à Casa da Moeda.
O padre Manuel Portal, que em 1756 escreveu uma História da Ruína da Cidade de Lisboa, estava na Rua Nova do Almada quando se deu o desastre: "Fiquei enterrado, porém sem pedra nem pau me dar na cabeça. Nesta ruína estive enterrado até acabar o terramoto". É salvo por outros membros da sua congregação. Com uma perna ferida é levado em braços por dois homens. Dali até às portas de Santa Catarina (ao Camões) é só escombros. "Voltei ao Loreto, pelo impedimento que achei na travessa da Trindade pois estava derrubada a igreja... Cheguei a São Pedro de Alcântara não encontrando senão mortos e ruínas", descreve.
                                                                                                               
A vida continua
                                                                                                       
A cidade pasmou-se e horrorizou-se com a extensão do desastre, mas hoje considera-se que o número de vítimas foi pequeno para a magnitude do abalo. "Tivesse a consternação geral sido menor, não só muitas vidas como bens poderiam ter sido salvos", critica o comerciante britânico já citado, incomodado com o espectáculo de muita gente, entre cada abalo, "a atormentar os moribundos" com ladainhas e gritos de misericórdia. Só terão acalmado com a notícia de uma aparição da virgem na Penha de França "acenando um lenço branco ao povo".
Lisboa vai tornar-se um enorme acampamento, com tendas feitas de velas vindas da Ribeira das Naus ou os tapetes tirados das casas. Os padres rondarão as ruínas e à dor juntarão o medo, dizendo que o desastre foi castigo divino e exigindo penitências. Já tinham feito o mesmo em 1531. O futuro ser-lhes-á propício: nos seis meses seguintes serão sentidas mais 250 réplicas. Antes de ser queimado, o missionário Malagrida opunha-se mesmo à reconstrução de Lisboa, que Deus destruíra devido à brandura para com os hereges. Havia mesmo quem acusasse os que se tentavam recompor de "lutar contra o Céu". Para outros, como Cavaleiro (Francisco Xavier) de Oliveira, fora a beatice lusitana e a Inquisição a causa do castigo.
É "notável que um desastre desta dimensão não tenha resultado em fome generalizada ou epidemias", mesmo tendo em conta a cremação causada pelo incêndio de Lisboa, nota o geofísico João Duarte Fonseca na sua obra "1755 O Terramoto de Lisboa". No próprio dia 1 de Novembro dois vereadores foram mandados para o Terreiro do Paço e a Ribeira distribuir à população comida arrancada às ruínas, peixe do Tejo e mantimentos vindos do termo de Lisboa. "Para obstar à especulação foi determinado por edital aos comerciantes que mantinha actividade que os preços dos mantimentos deveriam ser os correntes no fim do mês de Outubro", refere.
O rei fica tão abalado que não voltará a Lisboa nos 20 anos seguintes. E nunca mais habitará casa de alvenaria, preferindo um palácio de madeira, na Ajuda. O primeiro ministro do rei, o Marquês de Pombal, determina: "Enterrem-se os mortos e cuide-se dos vivos!"

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A República que herdamos

Viva a Revolução!
O morto de Arroios é o almirante Reis.
                                                                                                                                 

Estamos a 5 de Outubro de 1910. A República é proclamada depois de os seus principais chefes terem sido mortos. O i conta-lhe como foi.
                                        
O almirante Reis está vivo e comanda as forças da Armada no quartel de marinheiros. Aqui, na redacção de "A Capital", o "diário republicano da noite", escrevemos isto ontem na primeira página, mas não era verdade. O corpo que apareceu na Azinhaga das Freiras, a Arroios, morto na madrugada de 4 de Outubro com um tiro de pistola na cabeça, era mesmo o do almirante Cândido do Reis. Assassínio ou suicídio? Daqui a cem anos a turba dos historiadores clericais fará vingar a tese do suicídio de um maçon triste e hipocondríaco, angustiado com a derrota iminente da revolução, porque lhe disseram estar tudo perdido e não percebeu os sinais dos navios.
Nós, jornalistas republicanos, ainda estamos convencidos que foi assassínio político, como político só pode ter sido o assassínio do eminente dr. Miguel Bombarda há dois dias, morto no seu gabinete no Hospital de Rilhafoles por um tenente do Estado-Maior, Aparício Rebelo, seu antigo doente. Em agonia, do hospital de alienados para o Hospital de São José, para onde foi transferido, o dr. Miguel Bombarda, chefe civil da revolução, passou os planos do golpe com uma serenidade assombrosa ao dr. Brito Camacho.
Hoje as lágrimas de felicidade misturam-se com o choro pela morte dos dois mártires desta revolução vitoriosa, o chefe civil dr. Miguel Bombarda e o chefe militar, almirante Reis. O funeral dos dois sairá amanhã dos Paços do Concelho onde será proclamada a República "pelo encarregado de negócios da Alemanha", zombará mais tarde nas suas memórias o derrotado Paiva Couceiro, o único a bater-se "com esforço viril" [José Relvas mais tarde dixit] em defesa da monarquia.
É verdade que o encarregado de negócios da Alemanha negociou ontem, 5 de Outubro de 1910, um armistício de uma hora com as forças combatentes na Rotunda para dar tempo a que as famílias estrangeiras abandonem Lisboa - e esse armistício apressará a proclamação da República.
"Já não há portugueses", tinha dito o almirante Reis quando abandonou os banhos de São Paulo na noite de dia 3, onde estava escondido o desanimado Directório do Partido Republicano. Mas os heróis da Rotunda, sob o comando do sr. Machado Santos, oficial da administração naval e membro da Alta Venda da Carbonária, vingam os seus chefes mortos, o admirável almirante Reis (a quem daqui a cem anos diagnosticariam depressão e afundariam em Prozac) e o dr. Miguel Bombarda (que ainda não dispunha de drogas suficientemente poderosas para lidar com os seus alienados).
Machado Santos proclamou ontem a República praticamente sozinho - em contacto permanente com António Maria da Silva, outro grande chefe da Carbonária. Mas o nome de Machado Santos não consta nem do governo provisório, liderado pelo "presidente sem pasta" Teófilo Braga. Os cargos que lhe ofereceram não os quis; os que queria - gostaria de ter chefiado uma espécie de guarda carbonária da República - não lhos deram. Daqui a mais ou menos um mês, no próximo 12 de Novembro de 1910, estará a fundar o jornal "O Intransigente", para combater o seu inimigo de estimação Afonso Costa - o jornal dos "verdadeiros carbonários combatendo o exclusivismo do governo provisório e os adesivos monárquicos". Será assassinado daqui a 11 anos, depois de ter alinhado com o sidonismo.
Não apressemos a história: hoje, 6 de Outubro, o nosso jornal "A Capital", diário republicano da noite, informará que "o governo deverá publicar ainda hoje um edital a convidar o clero a não vir à rua com os respectivos hábitos, isto com o fim de evitar que a sua aparição provoque na multidão um movimento de protesto. Nesse mesmo documento oficial, considerar-se-ão dissolvidos todos os "coios" de congregações religiosas, sejam elas de que natureza forem e intimando à saída do país no prazo de 24 horas todos os indivíduos que formam essas agremiações perniciosas e ilegalmente constituídas". Reina a ordem mais completa.
                                                                                         
Ler em: http://www.ionline.pt/conteudo/81774-o-morto-arroios-e-o-almirante-reis-viva-revolucao

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Fim da Monarquia

Ultimo Rei de Portugal

1º centenário do regicídio - 2008

O Dia do Regicídio

Viagem ao dia do regicídio

Filme inédito no centenário do Regicídio

Comemorações

100 Anos depois Portugal volta ao princípio
                                                                                                                         
Na janela da Câmara Municipal de Lisboa, José Relvas proclama a República, em 1910

A divida e o défice público também faziam parte da realidade do 5 de Outubro de 1910... Hoje, Cavaco apela à união patriótica para salvar a República.
                     
O discurso do 5 de Outubro do Presidente da República deverá ter uma boa dose de dramatização política, apelando aos diferentes partidos para que assumam as suas responsabilidades, quer estejam no governo quer estejam na oposição, face ao momento actual do país. Na intervenção de início da cerimónia oficial do Centenário da República, que tem lugar esta manhã na Praça do Município, em Lisboa, Cavaco Silva - provavelmente sem nunca pronunciar a palavra Orçamento - irá reforçar a necessidade premente da sua aprovação.
O futuro da República depende do futuro do país e, perante uma "situação insustentável" - profetizada por Cavaco Silva nas últimas intervenções - o Presidente irá apelar à união nacional, patriótica e à assunção de compromissos, isto de forma que sejamos nós, os portugueses, e não entidades externas a pôr o país no caminho certo. "O que nós temos é de fazer o trabalho que nos compete, cumprir os compromissos que assumimos por forma a reduzir as nossas necessidades de financiamento externo e não deixar problemas complicados para o futuro", disse Cavaco há duas semanas. "Ninguém virá a Portugal resolver os nossos problemas, somos nós que temos de os resolver", garantiu. Depois de apresentadas as novas medidas draconianas, a tónica do discurso do Presidente da República não terá mudado quanto à necessidade "de um esforço suplementar para concertar posições e gerar consensos", já referida por Cavaco Silva no discurso do 10 de Junho.
O extremar de posições, quer do governo quer da oposição, deixa Cavaco Silva numa situação difícil de gerir perante um executivo que ameaça com demissão e um PSD que promete não viabilizar um Orçamento do Estado que preveja aumento de impostos. O Presidente da República já se empenhou, sem resultados aparentes, para que Portugal não caia numa crise política, algo, disse Cavaco Silva, que "teria um efeito muito negativo nos mercados". Ao receber todos os partidos com assento parlamentar em Belém, o Presidente da República tentou ser uma ponte de consensos, mas tanto o governo como o principal partido da oposição saíram com uma lógica discursiva idêntica àquela com que entraram. No momento em que o governo pede novos sacrifícios aos portugueses, o Presidente da República irá apelar a uma partilha justa do esforço exigido a todos e não deixará de apontar a necessidade de reformas de fundo que levem, em última instância, a uma reforma e a um emagrecimento do Estado.
Os valores da República No discurso de hoje, Cavaco Silva deverá ainda alertar para o enfraquecimento dos valores republicanos e a necessidade de "regresso desses princípios". "Há que renovar, em todos os domínios da actividade, começando pela política, os princípios da autenticidade, da transparência na acção, do serviço empenhado à res publica", disse Cavaco num colóquio na Universidade de Coimbra no fim da semana passada. "O que está em causa não é a sobrevivência das repúblicas mas a necessidade de reinvenção dos valores", afirmou, tendo referido que "as repúblicas atravessam momentos maquiavélicos".
A ideia é partilhada pelo politólogo António Costa Pinto: "Existem muitas clivagens mas ninguém põe em causa a República." Da mesma opinião é o historiador Fernando Rosas: "O povo português está agarrado a um sentimento de republicanismo. Pode até não ser por grandes opções ideológicas mas por bom senso. O povo tem bom senso e sabe que não faz sentido alguém a brincar aos reis." Os "momentos maquiavélicos" que, segundo o Presidente da República, se estão a viver não são exclusivamente económicos, garante Paulo Tunhas: "É antes uma mescla de motivos económicos e políticos, que se determinam reciprocamente. Nesta influência recíproca, não convém inocentar o papel dos políticos e sobretudo de José Sócrates. Ele é obviamente determinante na crise."
O problema não está tanto na forma de governar como no facto de as pessoas se sentirem cada vez mais distantes de quem as governa, assistindo-se a uma "crise de representatividade", afirma Rosas. "O processo de globalização do capital tem levado a um crescente esvaziamento das democracias", diz o historiador, que explica que em momentos-chave, como o Orçamento do Estado, os governos se regem cada vez mais pelos valores impostos internacionalmente, o que leva a um "Parlamento esvaziado e a políticas de burocracia central não escrutinadas".
Recuar cem anos é também ver que os problemas às portas da revolução Republicana eram semelhantes aos actuais: o aumento da dívida e o défice. "Uma vingança dos deuses", diz Costa Pinto.


Ler mais em: http://www.ionline.pt/conteudo/81758-cavaco-apela--uniao-patriotica-salvar-republica

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

100 Anos de República

D. Manuel II, o último rei de Portugal
                                                                                                                             

«Era uma vez um príncipe que não pensava ser rei» mas que a tragédia levou ao trono e que a propaganda republicana fez um «fraco, mal preparado, beato e dominado pela mãe».
                             
«Não sei escrever história com veneno mas com tinta», disse D. Manuel a António Ferro, o jornalista que o entrevistou no exílio, para o Diário de Notícias, em 1930. No centenário da República parece-nos justo fazer história «com tinta» e recordar o último rei de Portugal e «um dos mais eruditos».
Pelas três horas da manhã do dia 15 de Novembro de 1889, nasceu Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio de Bragança Orléans Sabóia e Saxe-Coburgo-Gotha, duque de Beja. Na manhã seguinte, em Lisboa, uma salva de 21 tiros anunciou a boa nova à população, o governo chefiado por José Luciano de Castro decretou três dias de gala e iluminações. Por essa altura fica a saber-se da queda do regime imperial e da proclamação da República no Brasil.
No mesmo ano, no mesmo mês, o governo britânico dá o primeiro passo para um Ultimatum que chega em Janeiro de 1890 e que acabará por contribuir decisivamente para o aumento da agitação e propaganda republicanas. D. Manuel teve uma educação convencional e influenciada, é consensual, pela profunda religiosidade da mãe. Em Maio de 1899, D. Manuel faz a primeira comunhão e inicia uma prática religiosa assídua e piedosa que mantém até ao fim da vida.
Uma vida inevitavelmente marcado por um acontecimento, a morte do pai e do irmão diante dos seus olhos. Na primeira pessoa: «Chegámos ao Terreiro do Paço. Na estação estava muita gente da Corte e mesmo sem ser. Conversei primeiro com o Ministro de Guerra, Vasconcelos Porto, talvez o ministro de quem eu mais gostava no Ministério de João Franco. Disse-me que estava tudo bem. Esperámos muito tempo; finalmente chegou o barco em que vinham meus pais e o meu irmão. Abracei-os e viemos seguindo até à porta onde entrámos para a carruagem os quatro. No fundo a minha adorada Mãe dando a esquerda a meu pobre Pai. O meu chorado Irmão diante do meu Pai e eu diante da minha Mãe». E prossegue, «Quando de repente já na rua do Arsenal olhei para o meu queridíssimo irmão vi-O caído para o lado direito com uma ferida enorme na face esquerda de onde o sangue jorrava como de uma fonte! Tirei um lenço da algibeira para ver se lhe estancava o sangue: mas que podia eu fazer? O lenço ficou logo como uma esponja».
                                                                                                                         
Rei inesperado
                                                                             
Logo nessa noite, a 1 de Fevereiro de 1908, assinava o seu primeiro documento como rei, «Portugueses! Um abominável atentado veio oprimir com a maior amargura o meu coração de filho amantíssimo e de irmão extremoso e enlutar a Família Real...» Os tempos que se seguiram foram igualmente difíceis. A instabilidade governativa e a crise do regime foram a combinação explosiva que acabaria por rebentar nas mãos do jovem monarca, que uma vaga ideia de uma «monarquia nova» e uma «benévola expectativa» não foram suficientes, porque para se voltar ao tempo de Fontes... faltava um Fontes, e «aqueles a quem o rei decepcionava ameaçavam logo com revoluções».
Ainda que os republicamos se preocupassem com a divulgação das suas ideias - a acção divulgadora do Partido Republicano Português (PRP) fez-se através dos muitos jornais que dominava e na organização de grandes manifestações populares, comícios, festas, marchas de protesto, a verdade é que para a maioria ser republicano era estar contra a Monarquia, contra a Igreja e os Jesuítas e contra a corrupção política dos partidos tradicionais. A propaganda republicana sobe de tom nos jornais e na rua e dentro do PRP o sector revolucionário não se cansa de defender a luta armada para tomar o poder. E o ataque final ao regime, depois de algumas tentativas denunciadas, começa nos primeiros dias de Outubro. No dia 3, o Governo, e mais uma vez, é informado que se prepara um golpe. Teixeira de Sousa dá ordens para que as tropas da Guarnição de Lisboa permaneçam nos quartéis.
Duas notícias vieram precipitar os acontecimentos: o assassinato de Miguel Bombarda e a provável saída dos navios do Tejo - a acção dos marinheiros será decisiva no golpe. Os chefes e militares republicanos reuniram-se de emergência num terceiro andar do nº. 106, da Rua da Esperança. Cândido do Reis é peremptório: «A Revolução não será adiada»; por essa altura também Machado do Santos e alguns Carbonários, iniciavam, por sua conta e risco, a revolução. O rei jogava bridge no Paço das Necessidades quando se ouviu o primeiro tiro de canhão, dirigiu-se ao telefone, mas a linhas já estavam cortadas; D. Manuel ainda consegue comunicar com D. Amélia que está em Sintra, na Pena. Pouco depois chegam ao Paço as tropas para vêm defender o rei.
Na manhã do dia seguinte, cerca das nove horas, o primeiro-ministro pede ao Rei para que deixe as Necessidades e se refugie em Sintra ou Mafra, mas D. Manuel II recusa. «Vão vocês, se quiserem, eu fico. Desde que a Constituição não me marca outro papel, senão o de me deixar matar, cumpri-lo-ei». Ao meio-dia, o Palácio é bombardeado a partir dos cruzadores Adamastor e São Rafael. O Rei desce para o Jardim da Rainha e refugia-se numa pequena casa do parque. Passadas algumas horas, o monarca acaba por deixar o Paço, cedendo à pressão do governo que lhe pede para libertar as tropas que o defendiam e que são necessárias no Rossio e na Rotunda para combater os revoltosos; e aos apelos da mãe que não estava disposta a perder o filho que lhe resta. Pensa-se que terão sido os apelos de D. Amélia que dissuadiram o monarca de vestir o uniforme militar e a colocar-se à frente das tropas.
                                                                                          
O Rei deixa o poder
                                                                                    
O Rei sai das Necessidades pela duas da tarde, do dia 4. D. Manuel chega a Mafra sem problemas, mas aí descobre que não tem quem o proteja. Ao final da tarde chegam também a Mafra a rainha D. Amélia e a sogra, a Rainha D. Maria Pia.
Em Lisboa, no dia 5 de Outubro, um cessar-fogo inesperado provocado pelo encarregado de negócios alemão, precipita os acontecimentos e, na prática, denuncia as fragilidades militares das forças fiéis ao regime. Paiva Couceiro é, por esta altura, uma figura quase quixotesca. Machado do Santos desce da Rotunda ao Rossio, com uma turba de populares gritando «vivas à República!», e dirige-se ao quartel-general da Monarquia onde consegue a rendição. Pouco depois, a República é proclamada no edifício da Câmara Municipal.
Em Mafra, após uma notícia difícil e sem notícias, o monarca desperta para um país onde se espalham telegramas que anunciam um novo regime e uma nova bandeira. Sem alternativa, o rei parte de Mafra para a Ericeira onde já está fundeado o iate D. Amélia, que viera de Cascais onde recolheu infante D. Afonso.
A bordo, o Rei retirou-se para o camarote e numa folha com timbre do iate real escreveu ao presidente do Conselho do seu Governo: «(...) Tenho a convicção de ter sempre cumprido o meu dever de Rei em todas as circunstâncias e de ter posto o meu coração e a minha vida ao serviço do meu País. Espero que ele, convicto dos meus direitos e da minha dedicação, o saberá reconhecer! Viva Portugal! 5 de Outubro de 1910». A Carta demorou meses e meses para ser conhecida, e foi uma cópia. Inicialmente o Rei ainda pensou seguir para o Porto e aí reunir-se com os apoiantes do regime, mas perante a incerteza e aconselhado a salvar a família real, dirigiu-se para Gibraltar. A rainha D. Amélia soluçava e dizia, profética: «Do exílio não se volta!»
                                                                                                                                      
D. Manuel II, «o beneditino de Twickenham»
                                                                                                                                      
No exílio em Inglaterra, na casa de Fulwell Park, o rei dedica grande parte do seu tempo à sua paixão pelos livros e pela história. «D. Manuel fingia viver em Inglaterra mas que continuava, de facto, a ser rei na nossa maior possessão: na saudade», escreve António Ferro, que entrevistou o rei no exílio, em 1930. A entrevistada foi publicada no «Diário de Notícias» e colheu, em Portugal, reacções favoráveis e de apreço. Ferro, seria um dos portugueses que se deslocou a Twickenham, para o funeral do D. Manuel, dois anos depois, em Julho de 1932, quando um edema da glote sufoca o rei e lhe causa a morte, aos 42 anos.
No dia 5 de Outubro, a República chega ao país e o rei abandona, para exílio, nesse mesmo dia, a bordo do iate D. Amélia, e chega a Gibraltar no dia 7, onde fica até meados de Outubro. A 16 de Outubro, a Rainha D. Maria Pia decide regressar a Itália e o Rei e restante comitiva seguem a bordo do Victoria and Albert, navio da coroa britânica. Em Inglaterra, o rei passa a viver no Palácio de Woodnorton, propriedade do seu tio, o duque de Orleans, pretende ao trono francês, também ele no exílio. Nos primeiros tempos recebe a visita, a título particular dos monarcas ingleses Jorge V e a rainha Mary, frequenta religiosamente a igreja todos os domingos, leva uma vida social discreta mas de acordo com o seu estatuto, no entanto, o rei mantém-se apreensivo.
                                                                                                                                            
Problemas financeiros
                                                                                                                                         
A sua situação financeira do rei exilado é precária. O governo republicano decreta o banimento da família de Bragança até «ao quarto-grau», ramo miguelista incluído, e declara os palácios reais «como propriedade nacional pertencendo ao povo português». O Rei intercede para que a Casa de Bragança lhe seja devolvida. Mas em Portugal os bens são arrolados para pagarem as dívidas dos «adiantamentos» à casa real.
Em Janeiro de 1911, é concedida ao rei, pelo governo republicano, uma pensão mensal de 110 libras, com retroactivos a Outubro e Dezembro de 1910, também por essa altura lhe é entregue a Casa de Bragança e alguns bens do rei seguem para Inglaterra. Ainda com uma situação financeira débil, o rei opta por viver em Richmond, na casa Abercorn, uma casa de dois pisos, com uma grande sala circular na entrada e uma boa biblioteca. E nessa casa que D. Manuel vive, com a mãe, até ao casamento, rodeado por duas grandes paixões, a música ¿ Bach, Haendel, Beethoven ou Mozart, e os livros.
A primeira passagem de ano no exílio ainda acontece em Woodnorton. Nessa noite, D. Manuel recorda, saudoso: «A esta hora, faz hoje um ano estava eu no trono do Paço da Ajuda, e um rebanho de pessoas beijava-me as mãos com protestos de fidelidade e lealdade! Tudo muda, tudo passa». Em Richmond, a antigo monarca foi recebido com estima e simpatia. Winston Churchill, à época ministro do Interior, tornou-se um dos melhores amigos de D. Manuel, e apesar do que os separava, não deixou de considerar o ex-rei português como um rapaz encantador, muito inteligente, de fortes convicções e cheio de vida e espírito apesar da sua triste condição.
Ainda em casa do tio, o rei tem notícias das malogradas incursões no norte do país de Paiva Couceiro. O «Times» publica que o monarca está por detrás destas acções e que devia ser expulso do país. O rei faz publicar uma «Declaração» onde clarifica a sua posição. Em Abril de 1912, o rei a conselho do médico vai passar uns dias à Suiça, para descansar. No regresso a Inglaterra, D. Manuel visita o primo, o príncipe Guilherme de Hohenzollern, e conhece D. Augusta Vitória. «Minha prima, bonita, muito fina, muito elegante e agradável», escreve o numa carta ao marquês do Lavradio.
                                                                                                                         
O casamento
                                                                                                       
Casa-se a 4 de Setembro de 1913 com elegante e agradável prima, e arruma um caso da juventude com a actriz Gaby Deslys. Assistiram ao casamento os principais elementos da nobreza, representantes das principais casas reinantes e Eduardo, o príncipe de Gales, em representação do pai Jorge V. D. Manuel ofereceu à noiva «um soberbo diadema dos joalheiros Leitão» e D. Amélia um lindo colar antigo cheio de «muitas e comoventes recordações». O casal régio segue em lua-de-mel para Munique e daí continuaria para a Floresta Negra, mas D. Augusta Vitória fica doente e é internada numa clínica. De Munique, o casal regressa a Inglaterra a uma nova casa em Fulwell Park.
Uma casa construída no século XVII, uma mansão com bastantes quartos, seis salas de recepção, quatro casas de banho e uma extensa galeria bem iluminada, a divisão preferida da casa, para D. Manuel, era a biblioteca, dominada por um retrato de D. Carlos sobre a lareira. A vida social do casal era intensa, recendo visitas das mais destacadas figuras da sociedade britânica e da própria família real, e frequentando destacados membros da aristocracia. Aos domingos, frequentemente, almoçavam em Buckingham com o rei Jorge e a rainha Mary.
                                                                                                        
Forte actividade social
                                                                                                
Uma actividade social intensa mas os dias muito preenchidos. Levanta-se cedo, trabalha com a secretária-bibliotecária até à hora do almoço, Miss Margery Withers. Quando ela saía, pelas quatro da tarde, D. Manuel prosseguia o trabalho, por vezes, até as primeiras horas da madrugada. O resultado: um assinalável trabalho bibliográfico, literário e histórico. «Os livros são amigos silenciosos e fiéis junto dos quais se aprende a lição da vida», escreve D. Manuel. Nos anos que se seguiram à Grande Guerra a vida social do rei foi tornando-se mais calma e deixa-lhe mais tempo para se dedicar à sua colecção de livros, incunábulos e manuscritos antigos portugueses, também porque «não há nada que me distraia da minha paixão pela história. A nossa história é a nossa riqueza, o nosso maior território», diz D. Manuel na entrevista a António Ferro.
«A História de Portugal de Herculano é bastante boa, mas incompleta. A de Pinheiro Chagas é apenas uma excelente História da vulgarização, de feitio popular. A de Oliveira Martins, um admirável panfleto mas, por vezes, revoltante», prossegue o rei, que conclui: «Não sei escrever história com veneno mas com tinta». Nesta entrevista, António Ferro questiona-o: «Alguns monárquicos acusam-no de não querer ser rei, de querer ser, eternamente, um rei de exílio», ao que D. Manuel responde, «o rei, até quando não é rei, tem sempre as costas largas!» Porque D. Manuel nunca deixou de estar atento a tudo o que se passava no país e até a um eventual regresso, sublinhando que nunca poria em causa o seu juramento à Carta Constitucional e à religião católica.
                                                                                                                            
Trabalho bibliográfico
                                                                                          
Em 1922, no 2º. Congresso Nacional Católico, onde participa António de Oliveira Salazar, ficaria definitivamente estabelecida a independência política dos católicos, dos partidos e da Monarquia. Perdem os monarcas um velho aliado, uma contrariedade D. Manuel, que também nunca conseguir, apesar de tentados esforços, funcionar como elemento aglutinador da Causa Monárquica, onde diversas tendências se debatiam aguçadas pelas exigências de D. Miguel II e dos miguelistas. D. Manuel concentra-se no seu trabalho bibliográfico e histórico. O primeiro objectivo das suas investigações seria escrever uma monografia sobre o reinado de D. Manuel I, o Venturoso.
Há uma ligeira mudanças de planos e em 1929, sai o primeiro volume de Livros Antigos Portuguezes 1489-1600, da Bibliotheca de Sua Majestade Fidelíssima Descriptos por S.M. El-Rei D. Manuel em três Volumes. O primeiro volume dos Livros Antigos Portugueses, escrito em português e inglês, tem «além dos dois preciosos manuscritos, o de Bello Septensi por Mateus de Pisano e o Livro de Horas da Infanta Dona Isabel, Duquesa de Borgonha e filha de D. João I, cinco incunábalos e trinta e três livros impressos em Portugal até 1539».
Em 1932, a casa de Fulwell Park é assaltada. Quadros, objectos, jóias e documentos foram levados pelos ladrões. D. Manuel lamentou seriamente o roubo, numa carta ao marquês de Lavradio escreve: «É uma lástima! Quando já se perdeu muito como eu, infelizmente sente-se, ainda mais, uma perda como esta». Mas pouco tempo depois, nesse ano, é publicado o II volume dos Livros Antigos Portugueses, a doença, o trabalho e crescentes dificuldades financeiras deixam o Rei exausto. A 30 de Junho, o Rei entrega um exemplar do livro que acabara de sair à sua secretária e bibliotecária e assim Manuel, Rei uma das suas derradeiras assinaturas.
                                                                                                                                                     
A morte
                                                                                              
A 1 de Julho, D. Manuel foi a Wimbledon assistir a um jogo de ténis, à saída sente-se mal da garganta; de regresso a Fulwell Park sente-se pior, manda chamar o seu médico. Lord Dawson proíbe-o de sair de casa no dia seguinte. Não sai mas sente-se cada fez pior. Vai a Londres consultar um especialista que, depois de o observar, o mandou recolher à cama. D. Manuel voltou a casa, a situação é cada vez mais aflitiva, sufoca. Foi chamado um médico local que foi incapaz de fazer uma operação muito simples: abrir exteriormente a garganta, eu teria salvo o rei. D. Manuel pede um tubo de borracha e por gestos indica que lhe abram as janelas. Um edema da glote estrangulava-o. Morre a 2 de Julho de 1932. No dia seguinte os jornais portugueses anunciavam a morte de «D. Manuel de Bragança, ex-rei de Portugal» e referiam-se a ele em termos elogiosos.
As exéquias religiosas do rei têm lugar na Catedral de Westminster com a presença dos inúmeros amigos portugueses, reis e representantes das casas reais europeias, membros do governo britânico, embaixadores de Portugal, Brasil e França, Afonso XIII, ex-rei de Espanha, também no exílio e o Duque de Gloucester, também em representação do pai, Jorge V. A 10 de Julho, o governo português, numa nota, anuncia a iniciativa de transladar o corpo do «último rei de Portugal» para Portugal.
Os restos mortais de D. Manuel chegam a Lisboa a 3 de Agosto. Nas cerimónias oficiais estiveram presentes o presidente da República, general Óscar Carmona, o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, o presidente do Conselho Oliveira Salazar e inúmeras personalidades. Os restos mortais do «mais erudito de todos os reis portugueses» estão no Panteão dos Braganças, no Mosteiro de S. Vicente de Fora.

sábado, 2 de outubro de 2010

Fim de Semana

100 Anos da República
                                                                                                                        

Um autocarro chamado República... Machado Santos homenageado pela Marinha no dia 5 de outubro.
                             
Um autocarro da Carris percorreu hoje, pela primeira vez, o roteiro republicano de Lisboa, revelando os locais emblemáticos da revolução de há cem anos, desta vez com o grão mestre da maçonaria como cicerone. A viagem inaugural começou pouco depois das 10:00, com convidados e jornalistas, a quem foi mostrado o percurso que este autocarro irá percorrer durante todo o mês de outubro. Com o grão mestre do Grande Oriente Lusitano, o historiador António Reis, a servir de guia nesta viagem inaugural, os convidados começaram este roteiro republicano nos Paços do Concelho. Enquanto o tráfego matinal impedia que a viagem prosseguisse, António Reis explicou a importância dos Paços do Concelho, lembrando que aquela câmara já era republicana, antes da implantação deste regime, uma vez que desde 1908 que os republicanos tinham conquistado a maioria dos lugares.
Foi à varanda do edifício da atual Câmara Municipal de Lisboa (CML) que o republicano José Relvas proclamou a República e foi conhecida a composição do governo provisório. A caminho do Terreiro do Paço, que hoje apresenta exposições alusivas à República em vários edifícios, o autocarro passou pelo Hotel Europa, com António Reis a lembrar que ali instalado o "quartel-general" durante a revolução. Na Praça do Comércio, o cicerone lembrou a força que veio do rio, uma vez que foi nas cercarias desta praça que, a 04 de outubro, ancoraram os navios ocupados pelos marinheiros revolucionários. De passagem pela Estação do Rossio, foi sublinhado o papel deste espaço, dada a sua centralidade, e recordado que foi nesta estação que foi assassinado o presidente da República Sidónio Pais, em 1918. Junto à Rotunda (hoje praça Marquês de Pombal), o historiador destacou o papel do almirante Machado Santos e classificou mesmo de "crucial" o seu empenho.
A Rotunda foi "o cenário principal da revolução de 05 de outubro de 1910. A permanência corajosa de Machado Santos, contra todas as orientações estratégicas, não respeitando o voto dos oficiais de artilharia que ia no sentido do abandono do local, foi decisiva para a vitória republicana". O papel de Machado Santos volta a ser recordado nos pontos seguintes da viagem: os quartéis de Campolide e de Campo de Ourique. O Quartel de Campolide foi tomado pelo capitão Afonso Palla e alguns sargentos, antes da chegada de Machado Santos, e dele saíram várias baterias com destino à Rotunda. Em Campo de Ourique iniciou-se a revolução republicana, encontrando-se no local uma placa que lembra o local onde explodiu a primeira granada da revolução, disparada pelo Regimento de Artilharia 1.
A viagem prossegue, passando pelo Palácio das Necessidades, onde se encontrava o rei D. Manuel II, que deixou depois este edifício em direção ao exílio. Na Rua do Sacramento, em Alcântara, está o penúltimo ponto do roteiro que recorda a ação que impediu a saída do esquadrão da cavalaria da Guarda Municipal. Com uma duração de cerca de uma hora, o Autocarro do Centenário é uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa e da Carris, com o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República. A iniciativa inclui ainda visitas a duas exposições alusivas aos 100 anos da República.
                                                                                  
Machado Santos homenageado pela Marinha
                                                                                                  
A Armada Portuguesa vai homenagear o almirante Machado dos Santos, que comandou os revoltosos no dia 5 de outubro de 1910, junto à bandeira nacional no Parque Eduardo VII, em Lisboa, com a presença de familiares do "Herói da Rotunda". A bisneta de Machado dos Santos, Isabel Cisneiro, vai estar presente, "muito emocionada e com muito orgulho", porque é a primeira vez que o bisavô "é reconhecido e lhe é dada a devida importância", afirmou hoje a descendente, em declarações à agência Lusa. "Foi uma figura ignorada durante muito tempo, o regime de Salazar nunca o referiu nem lhe reconheceu a importância", lamentou Isabel Cisneiro, concluindo que é "com muita satisfação que a Marinha agora o reconhece e homenageia", 100 anos depois.
A cerimónia do dia 5 de Outubro terá uma evocação histórica, com execução dos toques de silêncio e homenagem aos mortos, e contará com a presença do chefe do Estado Maior da Armada, almirante Fernando Melo Gomes. Machado Santos "desempenhou um papel central no 5 de Outubro" mas para a família falta ainda esclarecer "A Noite Sangrenta" que levou ao assassinato de republicanos, incluindo do "Herói da Rotunda", em 1921.
Na noite de 19 de outubro de 1921 foram assassinados por um grupo de marinheiros: Machado Santos, o "Herói da Rotunda"; António Granjo, do Partido Republicano Liberal; Carlos da Maia, que chefiou a revolta da Marinha no dia 5 de outubro de 1910. Na Noite Sangrenta são ainda assassinados o comandante Freitas da Silva, secretário do ministro da Marinha, e o coronel Botelho de Vasconcelos, antigo apoiante de Sidónio Pais.