O desenvolvimento agrícola
Técnicas seguras e amigas do ambiente para garantir a qualidade dos frutos e legumes após a colheita, vão estar em debate na UAlg Especialistas de 22 países vão reunir na UAlg, entre 14 e 16 de Janeiro de 2009, para discutir técnicas de ponta no domínio da determinação da qualidade de frutos e legumes na fase de pós-colheita. Em primeiro plano estará a análise de processos seguros para a saúde humana e para o ambiente, capazes de garantir um controlo de qualidade mais eficaz dos frutos e legumes que chegam ao consumidor final.
Mais de 80 especialistas vão rumar à UAlg no início do ano para participar nesta importante reunião financiada pela União Europeia ao abrigo do programa COST, que se destina a promover o intercâmbio entre centros de investigação de uma mesma área de trabalho - neste caso, o COST 924, que se refere ao campo da pós-colheita -, dinamizando assim a troca de experiências e conhecimento entre os investigadores da União Europeia.
“Fazer investigação após a colheita é tentar prolongar ao máximo a vida útil dos frutos e legumes sem que estes percam a qualidade. Não nos podemos esquecer que as frutas e legumes continuam a respirar, mesmo após a colheita, e que já não têm a protecção de quando estão na planta. Este processo origina a degradação do produto, que se expressa na, textura e odores indesejáveis, perda de sabor e qualidade nutricional e apodrecimentos”, explica a Dr.ª Carla Nunes, investigadora na área da pós-colheita no CDCTPV da UAlg e coordenadora da comissão organizadora e científica desta reunião.
Por outro lado, estes investigadores, maioritariamente agrónomos e biólogos, trabalham no desenvolvimento de alternativas seguras aos produtos químicos de síntese na pós-colheita e em métodos não destrutivos para avaliar as características dos alimentos após a colheita (como a acidez, o estado de maturação ou a qualidade nutricional).
“Não se pode destruir tudo o que vai para o circuito comercial para avaliar as características dos alimentos, o que aconteceria se apenas se recorresse a técnicas invasivas para determinar estes parâmetros. Por isso a Ciência tem evoluído bastante nesta área, no sentido de desenvolver técnicas não invasivas, como o recurso a infra-vermelhos, fluorescência, ressonância magnética ou raios-x, que permitem preservar a integridade de frutos e vegetais, oferecendo em simultâneo resultados mais fiáveis do que as técnicas invasivas”, continua a especialista.
A sessão de abertura da conferência internacional “COST 924 - Tecnologias seguras e amigas do ambiente no controlo de qualidade de frutos e legumes” terá lugar no dia 14 de Janeiro de 2009, às 09h00, no Auditório Verde da FERN da UAlg (Campus de Gambelas), sendo que ao longo dos três dias do evento terão lugar sete palestras-chave, asseguradas por especialistas dos Estados Unidos da América, Espanha, Itália, Bélgica, Grécia e Portugal (Prof.ª Cristina Oliveira, do Instituto Superior de Agronomia).
UAlg em sintonia com tendências dos mercados internacionais A fruta e legumes cortados e embalados, prontos para consumo, têm chegado com cada vez mais força às grandes superfícies comerciais, ganhando adeptos de dia para dia. A investigação de técnicas ambientalmente seguras para avaliar a qualidade destes produtos é uma área ainda incipiente em Portugal. A UAlg, durante o ano de 2009, vai dar inicio a investigação nesta área, ao começar a fazer testes com iluminação ultra-violeta (UV-C), água electrolizada, ozono e uso de microrganismos antagonistas para manter a qualidade nutricional e prevenir a contaminação microbiológica deste tipo de produtos.
“Na fruta cortada não é possível, por exemplo, usar produtos químicos para manter os parâmetros de qualidade como acontece na fruta inteira, sendo apenas possível o uso de cloro para desinfectar água de lavagem do produto, pelo que é necessário apostar em métodos preventivos e de substituição do cloro, como a aplicação de anti-oxidantes, água electrolizada, ou iluminação UV-C, no sentido de manter sob controlo as bactérias que se desenvolvem nestes ambientes específicos”, continua Carla Nunes, igualmente coordenadora do grupo de Patologia e Controlo Biológico em Pós-Colheita do CDCTPV e da Estação de I&D em Pós-colheita, inaugurada na UAlg em 2007.
Outra tendência importante dos mercados actuais prende-se com o limite, imposto por cada país actualmente, de resíduos permitidos sobre a fruta que entra no respectivo circuito comercial. Este comportamento generalizado dos mercados está a fazer com que os fungicidas saiam do circuito de produção, por serem demasiado tóxicos e devido ao desinvestimento das empresas produtoras.
“Neste momento há mercados a pedir resíduos zero, como a Rússia por exemplo, ou a impor limites muito próximos do zero, como o Reino Unido”, contextualiza a especialista, acrescentando: “Se antes esta era uma questão de saúde, estando a imposição de limites relacionada com a tentativa de minimizar o impacto na saúde humana, agora é uma questão económica e de marketing, que cada país ostenta como um carimbo de qualidade dos produtos que comercializa, produzidos dentro e fora das respectivas fronteiras.”
Em 2000, a UAlg foi pioneira em Portugal, ao trazer para território nacional um projecto europeu justamente no âmbito do controlo biológico das doenças em pós-colheita (em fruta não cortada). Aliás, confirma Carla Nunes, “temos um grupo de investigação consolidado no estudo da reacção de diversos microrganismos antagonistas, como bactérias e leveduras, e várias substâncias em desenvolvimento, alternativas aos actuais fungicidas”. Inclusive, “o nosso grupo já identificou uma espécie nova de microrganismo, assim como procedeu à descoberta da sua utilidade no âmbito do controlo biológico de fruta para consumo”, concretiza a investigadora.