Grandes cidades são as mais afectadas, em Faro predominam os estrangeiros. Feito apelo à partilha contra o consumismo. “Não é preciso ajudar muito, é preciso serem muitos a ajudar”, explica Isabel Jonet, do Banco Alimentar. São pelo menos 2200 as pessoas que vivem sem tecto no nosso país. O número foi apurado pelo levantamento feito à luz da estratégia nacional para a integração de pessoas sem-abrigo criada em Março do ano passado. Do plano já são conhecidas algumas novidades. Como por exemplo, quem são e onde vivem os sem-abrigo. “Estamos a falar dos concelhos de Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Setúbal, Lisboa e Faro. São os concelhos que representam o maior risco, porque têm o maior número de sem-abrigo. Estamos a falar de cerca de 2200 pessoas, sobretudo homens, até aos quarenta e poucos anos de idade e com muito baixas qualificações,” explica Edmundo Martinho, presidente do Instituto de Segurança Social.
Martinho acrescenta que a condição de sem-abrigo surge por causa de doença mental, consumo de drogas ou em alguns casos, devido a desemprego. Há quem tenha rendimentos, mas que são insuficientes: “Do conjunto de pessoas identificadas só um baixo número, cerca de 20%, não tem quaisquer rendimentos. As pessoas têm rendimento, embora baixo, e normalmente de pensões.” A estratégia nacional para a integração dos sem-abrigo aposta na conjugação de esforços e na criação de núcleos locais de apoios, até porque a distribuição geográfica das pessoas sem tecto é diversa. Em Faro, por exemplo, a maior parte são estrangeiros. Cada sem-abrigo tem um plano personalizado que visa a integração na sociedade e o acesso a emprego. Para já está em marcha o projecto-piloto, Casas Primeiro, até final do ano, que já abrange 50 pessoas, na cidade de Lisboa.
"É preciso curar essa patologia da abundância", afirma o presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social.
É preciso renunciar ao consumismo e combater a “patologia da abundância”. O desafio foi lançado por D. Carlos Azevedo, no Encontro Nacional da Pastoral da Saúde, que terminou hoje, em Fátima. O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social está preocupado com o facto de, pelo menos, 40% das pessoas com problemas de saúde revelarem sinais de abundância e não de carência. “Isso é uma grande interrogação. Num momento em que é preciso a partilha, é preciso curar essa patologia da abundância através de uma vida austera, sóbria, onde essa opção seja profunda nas pessoas, para que não entrem no consumismo e possam ter uma atitude de partilha”, afirma o bispo auxiliar de Lisboa. “Se os fundos sociais de solidariedade , quer o nacional que foi agora criado pela Conferência Episcopal, quer os vários diocesanos, têm falta de meios, esses meios podem ser socorridos pela partilha e a partilha vem também de quem vê o que é necessário”, sublinha D. Carlos Azevedo.
Banco Alimentar chega aos Açores e ao Facebook
Começa amanhã mais uma campanha de recolha para o Banco Alimentar. A iniciativa deste ano conta com uma série de novidades. Mais voluntários, mais pontos de recolha, mais bancos de distribuição e, pela primeira vez, uma presença nas redes sociais. “Tivemos a ideia de criar uma página no Facebook onde os utilizadores podem trocar o seu Funny Money, que são os créditos do Facebook, por alimentos reais. Para isso basta transferirem esses créditos para uma conta do Banco Alimentar, e o Facebook converterá isso em donativos reais para o Banco Alimentar”, confirma a responsável da instituição, Isabel Jonet.
Esta é uma forma nova e imaginativa de contribuir para o objectivo final do Banco Alimentar, mas tem ainda a vantagem de fazer chegar a mensagem a mais pessoas: “É uma forma de mostrar aos mais novos que também podem ajudar os mais carenciados, não devem esperar que sejam só os pais, e é também uma maneira de nos integrarmos nas redes sociais, aproximando-as também do mundo real.” A dirigente e fundadora do Banco Alimentar evita fazer previsões sobre o sucesso desta vertente da campanha, mas tendo em conta o número alto de utilizadores do Facebook, as perspectivas são boas: “Nunca se fez uma campanha destas, por isso não podemos fazer qualquer previsão. O que sei é que há 2,800,000 portugueses com contas no Facebook, e portanto se pudermos chegar a estas pessoas ao menos ficam sensibilizadas”.
Instituição chega aos Açores
De resto a campanha decorre normalmente como nos outros anos, com voluntários nos supermercados a pedir aos clientes que, nas suas compras se lembrem de ajudar quem mais precisa. A principal novidade é que este ano haverá um novo Banco Alimentar, nos Açores. “Vamos ter à volta de 28 mil pessoas que querem dar o seu tempo durante este fim-de-semana. Temos voluntários nos supermercados, que ajudam a transportar, a separar, a pesar e a arrumar. Temos 18 bancos envolvidos, incluindo pela primeira vez a Ilha Terceira.” Desde a sua fundação as campanhas do Banco Alimentar não pararam de registar um crescimento tanto ao nível de donativos como de voluntários. Uma das chaves, segundo Isabel Jonet, foi o facto das pessoas terem percebido que se todos fizerem a sua parte, por pequena que seja, o resultado pode ser imenso: “Os portugueses perceberam que não é preciso dar muito, é preciso serem muitos a dar.” Infelizmente o que também tem aumentado é o número de pobres e de pessoa a precisar de ajuda.
Numa altura de crise mesmo as instituições que as ajudam começam a atingir o limite das suas capacidades. “Os números são impressionantes pela crueza que revelam. Neste momento, os 17 bancos em actividade estão a apoiar 1830 instituições que chegam a cerca de 280 mil pessoas. Mas essas pessoas, especialmente neste período tão difícil, muitas vezes não teriam outra alternativa para se alimentar, e as instituições são assim um porto de abrigo. Nesta altura muitas das instituições já atingiram o limite daquilo que podem ajudar, mas não desistem”, diz Isabel Jonet, lembrando que há no país “um milhão de idosos que vive com menos de 300 euros por mês”. Para estas pessoas, e tantas outras, o Banco Alimentar fornece uma ajuda preciosa e fundamental. Mas o problema de base é outro e tem de ser confrontado com novas políticas, considera a dirigente. “Estamos neste momento com um problema conjuntural, mas há um problema estrutural que tem de ser resolvido. Se não, todas as medidas são paliativas e acabamos por nunca ir à raiz do problema.”
Contra o desperdício alimentar… assinar, assinar
Já há, entretanto, várias instituições que recolhem alimentos onde sobra para ajudar quem precisa. Mais de 56500 pessoas já assinaram, até agora, a Petição Pública contra o Desperdício Alimentar. A ideia é mudar a lei para permitir que milhares de refeições que todos os dias sobram em restaurantes, cantinas e refeitórios possam ser aproveitadas e distribuídas por quem precisa. Agora que a petição já corre, a ASAE e a ARESP - a associação que representa os restaurantes - já se manifestaram disponíveis para criar uma rede de recolha. A Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica diz, mesmo, que a única coisa que a lei exige é que a comida seja transportada em viaturas com refrigeração.
“Ao encontro de um sorriso”. Com ou sem restrições legais há muito tempo que, por todo o país, várias instituições recolhem alimentos onde sobra para dar a quem não tem. É o caso da associação “Ao encontro de um sorriso”, da paróquia de Corroios, no concelho do Seixal. Três vezes por semana dezenas de voluntários desta associação recolhem e distribuem alimentos durante uma noite.
Em Faro, a "CASA", que presta apoio aos sem-abrigo, e onde chegam cada vez mais pedidos de ajuda. Entretanto, no próximo fim-de-semana, o Banco Alimentar contra a Fome promove mais uma campanha de recolha nos supermercados. Só na grande Lisboa, esta instituição distribui, todos os dias, 40 toneladas de alimentos. A ajuda não é dada directamente às pessoas, mas sim através das instituições que todos os dias vão buscar alimentos ao Banco Alimentar. É um trabalho que exige muita organização e que a jornalista Ângela Roque acompanhou um destes dias no armazém em Alcântara.
AMI regista record de pedidos de ajuda
Houve um acréscimo de 26% de novos casos de pobreza e aumentaram os sem-abrigo. Nos primeiros seis meses deste ano a AMI apoiou mais de 7 mil pessoas. Nunca na sua história a Assistência Médica Internacional registou tantos pedidos como neste ano. O número representa 75% do total registado durante todo o ano passado e a organização está, por isso, preocupada, como refere Ana Martins, directora da Acção Social. Das 7 mil pessoas que a AMI apoiou, mais de 2,400 representam novos casos de pobreza, o que corresponde também a um acréscimo de 26% em relação ao mesmo período de 2009. Houve ainda um aumento dos sem-abrigo. As equipas de rua apoiaram 113 pessoas, mais do dobro do ano passado. Quem pede são, sobretudo, pessoas desempregadas e com pouca formação. Os bens mais procurados são alimentação, roupa e medicamentos.