Liberdade e o Direito de Expressão

Neste blog praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão, próprios de Sociedades Avançadas !
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quinta-feira, 1 de março de 2012

Bilhete Postal

Com papas e bolos...


O futuro de Portugal está no pastel de nata, e o líder do PS já percebeu isso. Para quê os doces algarvios, se as amêndoas amargas já vêm da Grécia?


António José Seguro parece andar a querer saltar da carroça da austeridade, já que - finalmente, que o líder do PS percebeu que uma coisa é ter assinado o memorando da troika, outra é ajudar a direita mais conservadora a destruir o modelo económico e social do país.
O mesmo Seguro que tem vindo a demarcar-se do mais troikista do que a Troika não deixou de aceitar o convite do Álvaro para provar um dos pastéis de nata da nova multinacional portuguesa, a Sociedade Lusa de Negócios dos Pastéis de Nata.
Parece que Seguro ficou agradado (até se fez acompanhar do deputado algarvio Miguel, angolano de nascimento...) e até perguntou ao Álvaro se Cavaco Silva já comprou algumas acções da SLNPN.
Ao que parece Seguro gosta de investir pelo seguro, e prefere seguir as apostas do velho professor de economia...
                                                                                
                                                           
                                                          

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Bilhete Postal

O valor dos (in)Génios
                                                                                                             
Somos tratados pelo Governo e comunicação social como se fossemos atávicos adolescentes.
                              
Passos Coelho foi uma excelente escolha do povo livre para nos conduzir à vitória neste agudizar das crises europeia e mundial. É que o nosso primeiro-ministro tem esta característica extraordinária: surge permanentemente anestesiado. Mesmo quando se obriga a parecer choroso, ou porque está a dizer a quem votou nele que fará exactamente o contrário do que prometeu ou porque partilha convicto o seu ideal de um Portugal ainda mais pobre, no fundo daquela carcaça encontra-se um bloco granítico imune a qualquer transe afectivo. E esse amoralismo pragmático inane adequa-se na perfeição a um projecto governativo politicamente desmiolado, onde a contabilidade se erige como critério absoluto e predatório. O facto de Relvas, esse monumento à vulgaridade, ser o seu braço-direito só vem confirmar o diagnóstico: eis um homem invulgarmente invulgar.
Imagine-se o que aconteceria se no Governo anterior viesse um secretário de Estado anunciar uma medida para de seguida ser categoricamente desmentido por um ministro. Foi o que aconteceu com o anúncio, e posterior negação, da revisão das tabelas salariais da função pública. Mas não é a primeira vez, a coisa parece estar a tornar-se um hábito neste Governo. Há dias foi o ministro da Economia a desdizer-se a ele próprio quando veio dizer que o encerramento do metro às 23h00, afinal, não fazia sentido. Se acontecessem semelhantes trapalhadas no Governo anterior as acusações de desnorte, incompetência, etc. e tal seriam imediatas. A oposição exigiria explicações e muito provavelmente não faltariam pedidos de demissão dos governantes. Já para não dizer que Sócrates seria acusado de manipular e de usar a comunicação social, coitadinha, para nos enganar. Agora parece normal o Governo dizer uma coisa num dia e desdizê-la com toda a calma no seguinte. Somos tratados pelo Governo e comunicação social como se fossemos atávicos adolescentes, ou melhor, como tivéssemos todos cinco anos e ninguém reclama. Não admira que o Governo seja tão elogiado pelos senhores da Troika, que, aliás, parecem ter entrado também neste divertido jogo ao sugerirem os cortes nos vencimentos do sector privado para de seguida o Governo os desmentir. São uns génios estes nossos governantes.
Por outro lado, chamado a promulgar, a enviar para o TC ou a vetar politicamente o diploma batoteiro que transfere as competências dos Governos Civis e dos Governadores Civis, Cavaco como que não vê o big picture e por isso promulga aquela fraude sem deixar de se mostrar preocupado com um dos preceitos do decreto: o que diz respeito à execução da declaração de estado de emergência no país. Viu ali uma contradição e tivemos mensagem.
Quando lhe chegar às mãos o OE que apelidou de iníquo, ele e só ele que pode dar a oportunidade ao TC de preventivamente se pronunciar sobre o mesmo, que fará? Sai promulgação com mensagem?
Fiquem os deputados com o encargo de pedirem a fiscalização sucessiva, portanto de um OE já em execução, caso em que o TC estará muito menos disposto a fechar os olhos ao anúncio público e internacional de uma execução em curso.
O tempo a passar e Pilatos sempre a reaparecer.
Carlos Ferreira
                                                                                                 
                                                                                            
                                                                                                                                                             

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Bilhete Postal

Perguntas sem resposta...
                                                                                                     
Custa a acreditar, mas parece que o Governo aproveitou a cimeira no Paraguai para vender computadores Magalhães. Mas ao contrário de Sócrates, que implementou o programa e-escolinha e que acreditava nos seus benefícios, Passos suspendeu-o.
A direita nunca lhe reconheceu qualquer mérito, muito pelo contrário. Portanto, que raio de argumentos terão usado para os venderem aos mexicanos? Não são bons para nós, mas são bons para os outros? Onde está a seriedade?
E a empresa que os produz e exporta, e que era acusada de todo o tipo de trafulhices envolvendo o anterior Governo, já merece ser promovida nas cimeiras em que o actual Governo participa? Onde está a coerência?
Perguntas que ficam sem resposta porque a comunicação social, vá lá saber-se porquê, deixou de se interessar pelo assunto. Tal como não está muito interessada em dar-nos notícias sobre a visita de três dias de Paulo Portas à Venezuela.
Será que houve eleições neste País e nós não soubemos de nada? Não era este País que era governado por um ditador com quem as pessoas sérias da direita jamais fariam qualquer tipo de negócio?
Carlos Ferreira
                                                                                             
                                                                               
                                                                                     

domingo, 30 de outubro de 2011

Crónica de Domingo

Contradições propositadas dirigidas ao povo alegadamente iletrado
                                                                                                                
Passos passeia de contradição em contradição, porque não sabia do que estava a falar em campanha.
                                         
Passos Coelho (e os membros do seu Governo por si) sabem que é difícil convencer as pessoas de que há qualquer racionalidade num conjunto de medidas (OE) que são um salto para o abismo mas, também, e sobretudo, a concretização do sonho ideológico de espatifar o Estado. Passos Coelho travou uma guerra sem regras. É um político amoral.
“Chocado” com o PECIV, que continha medidas de austeridade, mas com conta, peso e medida, e um programa de apoio ao crescimento da economia, gritou “nem mais um imposto” e abraçou-se à extrema-esquerda para fazer melhor. Durante a campanha, disse o que todos ouvimos, mas, neste momento, o que mais impressiona recordar é a crítica feita a Sócrates, por parte dos analistas atentos, no debate com PC, a respeito da descida da TSU. Aquele Passos tinha explicado tão bem, mas tão bem, como baixar a TSU sem as consequências disparatadas apontadas pelo então PM em gestão.
Impressiona ainda, para efeitos desta certeza de que estamos perante um político amoral, recordar Passos Coelho clamar que dele nunca ouviriam dizer não conhecer a situação “actual”. Ele conheci-a, sabia como dar a volta à crise que era culpa de Sócrates (a crise internacional parava em Espanha), sabia ao detalhe onde cortar a despesa, sabia que não aumentaria impostos, sabia que nunca tocaria nos subsídios de natal e de férias. Era, enfim, um sábio. Só pensando nos funcionários públicos, que sofrerão uma estucada quatro vezes superior ao exigido pelo memorando da TROIKA, Passos (ou os seus) já disse que essa gente ganha mais do que os trabalhadores privados.
É uma tirada simplória, irrealista e ofensiva. Depois, disse que a medida era provisória. Depois disse que talvez no futuro os subsídios desses sanguessugas talvez venham a ser distribuídos pelos 12 meses (Pode ser que assim “aprendam” a gerir o dinheiro que ganham, esses despesistas?). É isto. Passos passeia de contradição em contradição, porque não sabia do que estava a falar em campanha. É todo ele uma contradição, fala de um OE a partir de “desvios” descobertos – “que ninguém diga que eu não conheço a situação actual” -, mentindo, e de boca fechada, quando lhe mostram as contas certinhas.
Independentemente de juízos de inconstitucionalidade que algumas das medidas desta direita possam sofrer, Passos Coelho só deixará de ser um político amoral quando disser claramente que este OE é assim porque ele quer e não porque descobriu buracos já desmentidos; Passos Coelho só deixará de ser um político amoral quando assumir que este OE encerra uma via política que tem um cunho ideológico evidente.
Se o fizer, direi que o que já sabia foi verbalizado e não atirado ao passado ou aos tugas que viveram que nem uns malucos durante anos e anos “acima das suas possibilidades”. O plano de destruição do Estado como o conhecemos, começando pela culpabilização dos funcionários públicos, é trágico. Mas seria bom que o responsável pelo plano assumisse a sua paternidade.
Carlos Ferreira
                                                                     
                                                                                       
                                                                         

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Bilhete Postal

Não há dinheiro, não há palhaços
                                                                                                  
Acontece que o tempo dos egoísmos acabou e, voltem a votar como votarem, os madeirenses podem começar a preparar-se, porque a festa acabou e ainda bem. Esperemos que o governo de Pedro Passos Coelho dê mostras da sua integridade ainda não beliscada.
                                                     
Chegou o Outono, o calor ainda se tem feito sentir, mas - não tarda - os dias começarão a arrefecer a sério, e a crise a ter um mais forte sabor dramático. O clima em Portugal é ameno, não nos podemos queixar das intempéries que sofrem os europeus do Norte. Mas como a construção por cá é em geral de muito má qualidade, acabamos por tiritar mais de frio do que os nórdicos ou os ingleses, que têm habitações termicamente bem concebidas, caixilharias duplas, bom isolamento e boa construção civil. Para nos defendermos do frio e não obrigarmos os nossos filhos a andar de sobretudo dentro de casa, resta-nos pois ligar o aquecimento. Mas com o preço proibitivo que a electricidade atingiu, ainda agravado com o aumento do IVA em mais 17% desde o passado dia 1, conseguir ter a casa quente e confortável no Inverno vai ser um luxo a que só os ricos se podem dar.
É claro que depois as consequências estão aí: as gripes generalizadas, as doenças pulmonares crónicas nos mais pobres, as crianças sem condições de estudo em suas casas e, claro, os prejuízos que daí decorrem em custos com saúde pública e educação. Como em tudo o resto, somos um país mal administrado, que poupa no aquecimento das casas para depois gastar em saúde... é no mínimo, uma terra muito mal gerida. Triste Portugal que chegou à estranha condição de ser um dos países mais quentes da Europa, mas aquele onde mais se sofre com o frio.
Na política, provavelmente, as novidades vão sendo cada vez piores, e nada de substancial irá mudar na região madeirense, porque o eleitorado em Portugal nunca penaliza quem apresenta obra, independentemente dos métodos utilizados para o conseguir. Sobre isto não vale a pena ninguém admirar-se ou escandalizar-se, porque os exemplos proliferam pelo país, com situações bastante mais graves do que a da Madeira. Basta pensarmos em Oeiras ou em Felgueiras. O que a História demonstra é que o português é muito egoísta na hora do voto. Só pensa, sobretudo, em si próprio e nos seus benefícios pessoais e não valoriza a comunidade nem mais nada.
Acontece que o tempo dos egoísmos acabou e, voltem a votar como votarem, os madeirenses podem começar a preparar-se, porque a festa acabou e ainda bem. Esperemos que o governo de Pedro Passos Coelho dê mostras da sua integridade ainda não beliscada. É a última esperança, porque nenhum português compreende porque hão-de os madeirenses pagar cigarros mais baratos do que os continentais de Trás os Montes ou do Algarve. Agora, a realidade impõe-se ao regabofe de "jardinesco": não há dinheiro, não há palhaços. A não ser que o "tio" Alberto João passe a pintar a cara!
                                                                                               
Carlos Ferreira
                                                                                                           
                                                                                                                                       

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Bilhete Postal

Pedir para poupar... o quê ?
                                                                                                               


Melhor seria que os políticos se preocupassem em gastar bem o dinheiro que nos levam, em vez de tentarem dizer-nos a nós como devemos gastar o que nos resta.

O Presidente da República inaugurou uma moda que parece estar a fazer escola entre alguns políticos: a de pedirem aos portugueses para poupar. É um pouco estranho que sejam os agentes do estado a pedirem-nos para economizar. Em primeiro lugar, porque já não basta o estado levar-nos em impostos metade do dinheiro que ganhamos, e ainda os seus agentes têm a lata de nos vir dizer o que fazer à outra metade que nos resta. Para além do mais, este tipo de pedidos é inútil, contraproducente ou melhor: perverso.
Porque afinal estão a pedir para poupar a quem? É que pedir às pessoas que ganham 600 ou 700 euros, para guardar algum dinheiro, chega a ser insultuoso e o resultado é obviamente nulo. Sendo assim, então quem é que poderá poupar? A classe média. Mas se a classe média (já de si muito reduzida) começar a poupar a sério, fecharão ainda mais restaurantes, o comércio definhará ainda mais. Pelo que este pedido representaria a diminuição abrupta do consumo, o arrefecimento da economia e uma ainda maior recessão, ou seja, um suicídio para a actividade económica.
Quem pode poupar realmente bastante, são precisamente aqueles que nos pedem para o fazer, por eles: o Presidente da República, o Governo, os ministros, a Assembleia da República e... por aí fora. Esses sim, podem verdadeiramente poupar, economizar, porque têm muito por onde o fazer. Agora sós? Por isso, melhor seria que os políticos se preocupassem em gastar bem o dinheiro que nos levam, em vez de tentarem dizer-nos a nós como devemos gastar o pouco que nos resta. Até porque convém lembrar que deve ser o povo a decidir como o estado gasta o dinheiro, e não o contrário.
Carlos Ferreira







sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Bilhete Postal


Ser pragmático nem sempre é bom

Não são as reformas pragmáticas, centristas e sem grandes guerras ideológicas que resolvem tudo. Não resolvem. Faltam ideias. E um Orçamento debatido que oriente o país.

Há um problema nas cedências. São paliativos rápidos para grandes problemas, mas o efeito, muitas vezes, não compensa a cura. Tudo vem a propósito dos professores e dos funcionários do Estado, dos aumentos para 2010, do Orçamento e das negociatas implícitas. Numa semana, o governo disse duas coisas: 1) que vai haver progressão automática para os professores; 2) que os aumentos para os funcionários do Estado serão limitados à inflação - ou seja, nunca ultrapassarão os 0,7%. No primeiro, o Estado cede: admite mais despesa para resolver um impasse. No segundo, o Estado corta: congela salários para segurar a despesa. No primeiro, o governo entrou num erro: ao abrir a porta das progressões automáticas aos professores, esqueceu-se que a tinha fechado ao resto dos funcionários públicos. Logicamente, os sindicatos refilaram. Argumentaram que todos são iguais e que os privilégios de uns são o prejuízo dos outros. Mais: gritaram que, enquanto contribuintes, não têm de pagar pelos direitos que não têm, expondo três problemas.Em 2009, o Estado gastou 22,9 mil milhões de euros em despesas com pessoal. 13% do PIB. Quanto é que gastou agora com os professores? Ninguém sabe, ninguém diz. Mas é certo que o Estado não ficou nem mais eficiente, nem mais curto, nem menos gastador. O problema é económico mas também político. A força de uma minoria mantém-se enquanto durar a sua capacidade negocial.
Nas últimas semanas, os sucessivos recuos do governo - na saúde, na justiça, na educação - passaram a imagem de que tudo pode ser reaberto, todas as reformas podem voltar atrás. Na verdade podem - a maioria deu lugar a uma minoria - mas nem tudo é discussão útil. Ler que um país está em "morte lenta" - como disse ontem a agência Moody's - não é simpático. Perceber que o rumo desse mesmo país navega num mar de cedências e acordos também não. Nas últimas semanas, a abertura do PS para negociar este Orçamento mostra uma virtude - o pragmatismo - e um defeito - a indefinição ideológica. O PS foi maioria quando aliou a economia de mercado às preocupações sociais. Passou a minoria quando puxou pelo social para reequilibrar uma economia em crise. Pelo meio perdeu, de certa forma, o pé. O Orçamento de hoje é negociado à direita como o casamento gay foi negociado à esquerda. Qual é o rumo? Para onde vai o país? Quais são as apostas? Quais são os cortes? Quanto dura este pacto? Quando dura o regime?
De fora, ninguém percebe. A percepção de uma minoria refém de acordos é tão complicada como a visão de uma maioria autoritária nas reformas. Sejamos claros: a estabilidade deste novo bloco central é tão frágil como os líderes. Há a ilusão, como escrevia há dias o economista Nuno Garoupa, de que são as reformas pragmáticas, centristas, modernas e sem grandes batalhas ideológicas que resolvem tudo. Não resolvem. Faltam ideias. De esquerda e direita. Assumidas e radicais para melhorar o debate e obrigar a opções. Mais vale isso que uma paz podre. Até porque, quando houver oportunidade - quando Ferreira Leite sair, quando o PS fraquejar - o país voltará ao mesmo. E haverá novas visões, novos conflitos, novas indecisões centristas para os mesmos - e velhos - problemas. O país precisa de um pacto, de um rumo. Mas também precisa que esse consenso seja suficientemente debatido para durar.
Miguel Pacheco

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Bilhete Postal

Os novos pobres

A crise quando chega toca a todos, e eu já não sei se hei-de ter pena dos milhares de homens e mulheres que, por esse país, fora, todos os dias ficam sem emprego se dos infelizes gestores do BCP que, por iniciativa de alguns accionistas, poderão vir a ter o seu ganha-pão drasticamente reduzido em 50%, ou mesmo a ver extintos os por assim dizer postos de trabalho.
A triste notícia vem no DN: o presidente do Conselho Geral e de Supervisão daquele banco arrisca-se a deixar de cobrar 90.000 euros por cada reunião a que se digna estar presente e passar a receber só 45.000; por sua vez, o vice-presidente, que ganha 290.000 anuais, poderá ter que contentar-se com 145.000; e os nove vogais verão o seu salário de miséria (150.000 euros, fora as alcavalas) reduzido a 25% do do presidente.
Ou seja, o BCP prepara-se para gerar 11 novos pobres, atirando ainda para o desemprego com um número indeterminado de membros do seu distinto Conselho Superior.
Aconselha a prudência que o Banco Alimentar contra a Fome comece a reforçar os "stocks" de caviar e Veuve Clicquot, pois esta gente está habituada a comer bem.



quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Bilhete Postal

Abrupta-me

"Depois de te ler, confesso, não dormi. Pensei. Com dificuldade, mas adormeci e acordei. Fui à rua. Encontrei um senhor que me ofereceu um café e disse: “liberta-te do passado e do futuro, mas fica atento ao instante que passa, só ele é real, tudo o resto é fantasia”. Disse-me também: “quando vieste ao mundo choraste enquanto os outros sorriram. Saibas tu viver de modo que quando te fores embora sejas tu a sorrir e os outros a chorar”. Estou no limite.

Ontem à noite bati com a cabeça na parede do meu quarto. Era o prenúncio da dor que hoje chegaria ao lêr-te. És a palavra sábia do viajante da mudança. Do vira-casacas em segunda mão. Um Peter Pan a voar, de muletas. Fiquei com uma dor lixada para fazer chichi, e apeteceu vestir-me de laranja. Como me sinto livre sem que ninguém faça ideia da "libertação" que tu representas.

Quero falar contigo e não posso. Intelectualmente não existes. Mas... E dizia-me o outro: porque lhe apareceste? E eu dizia dentro de mim: não há homem que me desatine. Deixei de sentir pena dos animais. Irracionais. Demagogos e filantropos. Passaste a ser o meu zoológico portátil. O alfinete que rompeu a membrana do olho. O sangue engasgou os meus sentidos. E o vómito apareceu mais forte por me sentir parte do teu país.

Conta-me mais coisas. Da palavra sábia mais dura de mastigar nasce com a verdade no teu olhar, brusca, abrupta, plena na sensibilidade de um universo que busca a estrela mais próxima, a mais fácil de apanhar.
Morres e renasces tantas vezes qual talibã de burca travestida e bigode à Lenine, mas o que queres mesmo é viver na sombra da vontade de ficar infinitamente conselheiro, barbacã em estado de graça onde nasce o passo repentino da mudança que não muda nada nem dança. Tudo muda e nada avança. Enrosco os dedos no gesto final de acerto, e dou um estalo: cá dentro rebento de contentamento porque encontrei quem afinal eu queria, nesta puta da nossa mania de dar importância àquilo que não tem.

Cada sorriso meu esconde hoje bem longe um bocejo de tédio, cada alegria uma maldição, todo o prazer a saciedade, e os melhores beijos não me deixam nos lábios senão o irrealizável desejo de uma volúpia mais alta. Fiquei extasiado ao ler-te. Abrupta-me... enquanto me re-vacino!"

Matéria Pública