Recolher, aprofundar e divulgar o lado criativo dos artistas e dos criadores do Sul é um dos objectivos do «Aliança Cultural», um espaço para produzir "cultura e identidade".
A partir das 18 horas, de segunda a sexta-feira, a zona do «salão de chá» e a esplanada das traseiras do Café Aliança, em Faro, funcionam desde Julho como um espaço de dinamização e divulgação cultural. A ideia, por um lado, é recuperar o significado histórico do Aliança enquanto café, mas o projecto também passa por criar um espaço de encontro entre artistas, intelectuais, criadores diversos e o público em geral.
"O Aliança pode ser um ponto de encontro e um pólo de dinamização cultural, como foi no passado um ponto de encontro dos comerciantes e produtores agrícolas. Havia aqui uma «bolsa» da alfarroba, agora poderemos ter, por exemplo, uma «bolsa»dos produtos biológicos, ou da nova agricultura natural, além de um pólo de dinamização e apoio à criatividade local", refere José Bívar, o principal impulsionador desta iniciativa.
O objectivo passa por trazer de volta ao Aliança uma determinada "elite cultural e intelectual", mas não só. "Como dizia Balzac, os cafés são o Senado do povo: é importante a troca de informação entre as pessoas, para se reconhecer muitos valores escondidos, de quem escreve ou pinta e não teve oportunidade de se manifestar - toda essa cultura, na sua maioria urbana, têm de ser levantada. O meu trabalho aqui é o de recolher e aprofundar o lado criativo dos artistas, dos criadores do Sul", diz José Bívar. De acordo com o responsável, "o Aliança é o sítio indicado, porque faz a interface entre os vários nichos da população, entre pessoas motivadas de formas muito diferentes. Gosto de trabalhar com toda a gente, no sentido de não particularizar, de não trabalhar apenas para um público de intelectuais".
Os operários e as classes com menos meios para se exprimirem são, muitas vezes, segundo José Bívar, "quem tem mais interesse em dizer coisas. A recolha dessa cultura é importante para a renovação social e cultural e deve ser apoiada de uma forma autónoma e independente - um café promove isso. É um ponto de encontro, um local liberal, não selectivo, onde toda a gente entra: recebe todos os pontos de vista, fá-los interagir e dessa discussão pode nascer uma qualquer luz e estímulo", sustenta.
Para José Bívar, "a alma de Faro somos nós, os farenses, quem cá está, quem produz cultura e identidade. E não temos de o fazer apenas nos teatros municipais ou nas bibliotecas". "Em ponte", conforme foi referido, no espaço do «Aliança Cultural», o nome pelo qual é designada esta iniciativa, também poderão ser promovidas acções de divulgação de um determinado tipo de agricultura, de uma arte ou tradição, mas para já têm-se realizado debates e tertúlias, serões de poesia e apresentações de livros. Recentemente, foi lançada no Aliança a «Sulscrito», uma revista dos novos poetas de Faro. A publicação reúne os poetas do Círculo Literário do Algarve, "porventura, o grupo mais forte e coeso desde a «Poesia 61», onde já estão, praticamente, todos os poetas da região com um certo conceito de actualidade e modernidade", considera José Bívar.
Na área das artes plásticas, acrescenta, "podemos facultar às pessoas documentação, ou pô-las em contacto com filmes sobre eventos contemporâneos. Antigamente, para estar em contacto com essas realidades era preciso ir lá, agora podemos trazer isso às pessoas com um simples computador e um projector". Foi o caso da inauguração da «Documenta» de Kassel, uma das maiores exposições de arte contemporânea da Europa, transmitida em vídeo pela "enviada do «Aliança Cultural» na Alemanha", uma artista estrangeira radicada no Algarve.
"Todos os dias acontecem aqui coisas, no mínimo são passagens de documentários, ou filmes, ligados às diferentes temáticas de cada dia - literatura, artes plásticas, filosofia, onde se inclui a problemática do ambiente e do urbanismo, entre outras questões civilizacionais", acrescenta. Às terças-feiras o Aliança dá lugar ao «Café Memória» e às sextas-feiras o espaço funciona como ponto de encontro de todos os artistas, num ambiente de café-concerto, com espectáculos musicais e de teatro, saraus de poesia, entre outras manifestações artísticas.
De acordo com José Bivar, o «Aliança Cultural» está "em ponte com a Brasileira, em Lisboa, e o Magestic, no Porto, por isso este projecto poderá ter uma projecção, não só regional, mas também nacional: existem três capitais importantes no País: Faro, Lisboa e Porto. Faro representa o Sul, tem essa responsabilidade - a de fazer, concentrar e expandir a cultura do Sul", conclui.
Rodrigo Burnay
