
Hoje falar do 25 de Abril quase se torna irrelevante. O estado de miséria a que chegou este País, coloca-nos num beco sem saída, sem vontade de comemorar seja o que for. Fomos trágica e traiçoeiramente enganados, por gente sem escrúpulos de uma classe política oportunista e impreparada.
À medida que vai envelhecendo há tendência para olhar para as coisas e dizer que isto está pior. Na realidade, no que diz respeito a Portugal e ao Mundo, nunca esteve tão mau. Mas apesar de tudo continuo a ter uma visão razoavelmente optimista das coisas, e acho que se vive melhor hoje, apesar das muitas dificuldades que existem, do que se vivia há cinquenta anos. Creio que na história da humanidade nunca houve tantas condições para resolver as questões básicas de uma forma tão fácil e com tão pouco esforço físico e intelectual. O esforço que hoje é preciso fazer para dar provimento às necessidades básicas essenciais – que têm que ver com o agasalho, com a habitação, com a alimentação, com a saúde, com a educação – o esforço que hoje é preciso fazer para isso é mínimo, comparado com o que se tinha de fazer há cinquenta e tal anos. Por alguma razão o Bill Gates, hoje, é o homem mais rico do mundo. A acumulação primitiva do Bill Gates desmente todas as teorias marxistas! O Bill Gates vende sistemas de inteligência, e começou numa garagem de Los Angeles, na Califórnia. Nenhum de nós, hoje, comunica sem passar por ele, porque temos que ir ao Windows. Isso é o símbolo da facilidade com que hoje se produzem as coisas de que precisamos. O problema está na forma da repartição das riquezas, e de desequilíbrio entre as riquezas…
Por isso, o fosso entre ricos e pobres é maior, mas porque não tem havido coragem nem vontade para abrir, para acabar com as "fronteiras ideológicas". A Europa é um bom exemplo, porque tem sido talvez o mais sólido e mais consolidado espaço de bem-estar, liberdade e respeito pelos direitos fundamentais que existe no mundo – e eu conheço o mundo razoavelmente. Mas a Europa não pode fechar-se egoisticamente atrás de uma muralha que constrói para impedir o acesso dos outros. O que se passa no Estreito de Gibraltar é o exemplo do pior dos símbolos a esse nível: são as pessoas que vêm do Magreb e da Africa subsariana e que se fazem ao mar em barcos fragilíssimos, arriscando a vida e morrendo às dezenas, para tentarem chegar clandestinamente a este espaço de bem-estar onde nós vivíamos, e onde continuam a verificar-se movimentos chauvinistas, e alguns até racistas, que recusam a emigração, nomeadamente a que vem do Leste. É preciso que as pessoas tenham a coragem de ser audaciosas. Reparem no que se passou com a moeda europeia: cinco anos antes da criação do euro toda a gente dizia que era impossível, que era insensato, e que se tiravam aos governos nacionais instrumentos vitais de afirmação da nacionalidade. Mas depois quem beneficiava desses instrumentos era o senhor [George] Soros – que aliás é um tipo simpatiquíssimo e que escreveu um livro muito interessante [A Crise do Capitalismo Global, edição Temas e Debates, 1999] – que nas Ilhas Caimão, fazia ataques à libra inglesa, à peseta espanhola, e às vezes subsidiariamente ao escudo. E no entanto graças à coragem política da liderança europeia do [Jacques] Dellors criou-se uma moeda - o Euro - que acabou com isso tudo, e que conseguiu chegar em determinado momento a colocar em causa a supremacia dos mercados americanos através do dólar, que era o instrumento de financiamento do défice americano e a moeda de referência no mundo. O resultado disso, está hoje à vista.
Eu não sei se, de alguma maneira, não foi o facto de o Saddam Hussein ter sido o primeiro a cotar o petróleo em euros e não em dólares que deu origem à intervenção americana. Porque tipos como o Saddam Hussein há muitos naquela região do mundo, e eles só quiseram derrubar aquele – quando, por acaso, o Iraque até era das sociedades mais laicas. Não é que eu tenha a menor simpatia por um torcionário como o Saddam Hussein, mas torcionários ali - e por esse Mundo fora, há-os aos montões, e vão lá continuar. Portanto, eu acho que essa revolução que se fez com a criação do euro foi um símbolo muito importante. Porque às vezes são pequenas coisas que podem ser decididas ao nível das várias instâncias de concertação e de gestão internacional, como as Nações Unidas e a União Europeia. Por exemplo: acabar com o papel perverso dos off-shores, com esta lógica de economia de casino em que os mercados se transformaram e que é uma coisa que não tem nada a ver com a real criação de riqueza. Se acabarmos com os off-shores e se impuserem regras simples – e que são relativamente fáceis de impor como a taxa Tobin e outras – sobre as operações de especulação financeira, daríamos um salto tão grande como se deu com a criação da moeda única europeia.
Falta coragem, faltam lideranças capazes, falta audácia. Nós estamos todos muito cinzentões e muito conservadores. Ao nível da esquerda portuguesa, ao nível da esquerda europeia, há falta de gente irreverente e com vontade de dar um salto em frente. E, depois, há o papel perverso que têm os media. A verdade é que, com as televisões e também agora um pouco com a internet, nós vivemos no espectáculo permanente. Os tipos do Maio de 68, o Guy Débord e os situacionistas, que fizeram aquela análise da sociedade do espectáculo, estavam a milhões de anos-luz de prever que isto se transformava, de facto, num espectáculo permanente. Nós temos consciência de tudo o que se passou nos últimos vinte, trinta anos. Hoje, recordando o «processo revolucionário em curso», o famoso PREC, nessa altura houve três ou quatro momentos altos que passaram por um grande debate televisivo que ainda há pouco tempo foi transmitido na RTP Memória. O que era um debate televisivo nessa altura num país onde só havia dois canais de televisão? O que foi o impacto da primeira telenovela brasileira, que ainda passou a preto e branco, a Gabriela? E o que é isto hoje? No fundo, o dia-a-dia transformou-se numa sucessão de coisas efémeras que têm efeito mediático nesta sociedade de espectáculo tipo "Big Brother", mas que não passam disso mesmo, tornando o Povo alienado, apático, amorfo, acobardado, numa incapacidade tolerante de tornar a data que hoje passa, numa jornada de luta e raiva, enchendo as ruas do Pais como há 38 anos, porque pensam não haver solução pacífica nem democrática para a "demissão dessa cafila de gatunos" que nos atacaram.
A sucessão do efémero acabou por tornar-se uma coisa duradoura. O que é que resiste afinal? Com o que podemos contar? Nós estamos confrontados com um quotidiano onde o acessório se tornou de tal maneira omnipresente que acaba por tornar-se no essencial. E aí o tal papel perverso dos media, e nomeadamente da televisão que se faz a todas as horas em directo: hoje é inconcebível uma guerra sem que a televisão nos dê imediatamente as imagens do sangue. E quando não há uma câmara profissional, estamos logo nesse dia a receber as imagens dos amadores, como aconteceu no tsunami no Oriente, as cheias de New Orleans ou a Ponte de Entre Rios! A comunicação entre as pessoas, graças aos telemóveis – de que nós não abdicamos, mas que são «instrumentos de tortura» – tornou-se uma coisa inacreditável!
É essa a sociedade em que vivemos. Por isso, hoje falar do 25 de Abril quase se torna irrelevante. O estado de miséria a que chegou este País, coloca-nos num beco sem saída, sem vontade de comemorar seja o que for. Fomos trágica e traiçoeiramente enganados, sistemáticamente, por gente sem escrúpulos e por uma classe política impreparada, egocêntrica e desonesta. Por isso, esta data neste ano é vivida com luto e não merece ser comemorada, pelas diatribes cometidas pela politicagem reinante, enquanto não devolverem ao Povo a Paz, a Saúde, o Trabalho e o bem estar Social que os políticos desonestos lhe roubaram. Hoje, devia ser sim dia de Luta e Revolta contra a tirania do capitalismo selvagem que nos estão a impor.
Carlos Ferreira


