Vem aí o Natal mais pobres dos últimos anos
Portugueses preveem reduzir gastos em 6% no Natal face a 2009. Uma análise aos últimos cinco anos do estudo, incluindo anos de algum otimismo e anos de elevado pessimismo, mostra que "a banda de variação dos gastos nesta época em Portugal é reduzida".
Os consumidores portugueses preveem gastar 575 euros no próximo Natal, o que significa uma diminuição de seis por cento em relação ao ano passado, de acordo com um estudo da consultora Deloitte que será hoje apresentado. As dificuldades financeiras e medidas de austeridade adotadas pelo Governo levaram os portugueses a reduzir o orçamento dedicado às festas natalícias, mas essa redução é bastante inferior à média dos outros países europeus que também foram afetados por restrições orçamentais, nomeadamente a Grécia e a Irlanda. Nestes dois países e de acordo com o estudo Xmas Survey 2010, a diminuição das despesas com as festas de Natal é de 21 por cento na Grécia e 11 por cento na Irlanda. Segundo a Deloitte, a redução dos gastos em Portugal não é tão acentuada como noutros países, devido "à importância dada à quadra festiva no nosso país".
Apesar de Portugal ser "o país onde o pessimismo em relação à economia aumentou mais", o consumo nesta quadra festiva parece ter uma "maior emocionalidade ou uma menor racionalidade económica", explicou à Lusa Sérgio Oliveira, 'associate partner' da Deloitte. oscilando entre um valor mínimo de 550 euros e um máximo de 620 euros. Em Espanha, por exemplo, esta variação vai dos 650 aos 950 euros. Outra evidência da importância da quadra natalícia para os portugueses é que os gastos são bastante superiores aos que se verificam, por exemplo, na Alemanha (470 euros) ou na Holanda (410 euros), onde o nível de vida é superior. As consequências das medidas de austeridade económicas no consumo natalício serão notadas mais na forma de gastar do que no valor a gastar. Os consumidores nacionais pretendem, por exemplo, refrear o recurso ao crédito, tendo metade dos inquiridos referido que recorrerá menos ao crédito este ano, preferindo apostar em objetos mais baratos.Três em cada quatro portugueses mostram intenção de antecipar as compras de Natal para beneficiar de saldos e promoções, passando também a recorrer a produtos de "marca branca", sendo que quase metade dos inquiridos admitiu que pretende oferecer prendas compradas em grupo. Tal como em toda a Europa, os presentes que os consumidores portugueses preveem comprar (quatro em cada cinco) serão sobretudo utilitários, com destaque para os livros, os jogos educativos e o vestuário. Apenas um em cada 10 portugueses inquiridos admitiram que vão comprar presentes de Natal sem olhar para os preços, muito longe da fatia em Espanha: seis em cada 10. Mesmo depois de três anos de crise, os consumidores mantêm os hábitos de elevado consumo durante o Natal, embora tenham passado a focar-se nas prendas úteis e mais baratas, conclui a Deloitte.
Este ano, mais de metade dos europeus (63 por cento dos portugueses) estão mais determinados do que em 2009 a comprar presentes para menos pessoas e, assim, dedicar o seu orçamento de prendas para a família mais chegada, dando prioridade às crianças. O orçamento será canalizado mais para presentes do que para alimentação ou lazer, tendência que já era, aliás, seguida nos últimos anos. Em 2007, os portugueses destinavam metade do orçamento dedicado ao Natal, ou seja, 275 euros, para presentes, enquanto que este ano a percentagem sobe para dois terços, ou seja, 375 euros. O lazer diminui de 100 euros em 2007 para 50 este ano, penalizando sobretudo o setor da restauração. O estudo Xmas Survey é anual, tendo o de 2010 sido realizado em setembro através de questionários a cerca de 20 500 consumidores europeus.
Portugal "longe de atingir compromissos" de ajuda ao desenvolvimento - Gomes Cravinho
Portugal "está longe de atingir os compromissos de ajuda pública ao desenvolvimento", afirmou hoje o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação à Agência Lusa em Paris. João Gomes Cravinho participou durante o dia no exame à cooperação portuguesa feito no âmbito do Comité de Ajuda ao Desenvolvimento (CAD) da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE). "O resultado deste exame foi muito positivo mas claramente estamos longe de atingir os nossos compromissos de ajuda pública ao desenvolvimento", declarou João Gomes Cravinho no final do dia de questões e recomendações. O secretário de estado salientou que esse "ponto fraco" da cooperação portuguesa "tem de ser relativizado num exame onde Portugal passou muito bem".
Os 24 países que integram o CAD e os parceiros que examinaram Portugal, a Irlanda e a Finlândia, compreenderam que nos últimos dois anos a ajuda ao desenvolvimento não tenha aumentado, dado o cenário de crise e de contenção orçamental. "Em final de 2010, não estamos num contexto em que seja possível fazer grandes aumentos em ajuda ao desenvolvimento nem em qualquer outro setor do estado", explicou João Gomes Cravinho. "Já mais difícil de defender, na opinião dos examinadores, foi em 2007-08 não termos aumentado" o valor de ajuda pública ao desenvolvimento, referiu. Em resultado disso, o CAD deixou hoje uma recomendação "no sentido de que, logo que houver uma retoma económica, Portugal deve procurar aumentar a sua ajuda pública ao desenvolvimento, porque tem compromissos aos quais deve corresponder e a que outros estão a responder". João Gomes Cravinho explicou que "são compromissos comuns assumidos no âmbito das Nações Unidas e da União Europeia e têm a ver com a pertença de Portugal a essas instituições". O secretário de Estado referiu que, "no que toca à UE, há um calendário que foi estabelecido de 2006 a 2015 e Portugal apresenta um claro desvio em relação a esse calendário". Portugal "dedica neste momento 0,23 por cento de rendimento nacional integrado para a ajuda pública ao desenvolvimento, relativo a 2009. Ora, devíamos estar em 2010 nos 0,34 por cento. Não se prevê que em 2010 haja grande aumento".
O valor absoluto da ajuda portuguesa ao desenvolvimento é de cerca de 350 milhões de euros. "Para 2011, há outro problema que foi referido pelos examinadores. Temos um problema de montantes e problemas de orçamentação, da forma como o orçamento da cooperação é elaborado", acrescentou João Gomes Cravinho. "O orçamento da cooperação está dividido em várias fontes, afetado a vários ministérios, e ainda funciona de forma muito tradicional, com o resultado de que Portugal não tem demonstrado capacidade para planear a mais do que um ano de distância, porque não temos orçamentação plurianual nem mecanismos para defender um orçamento espartilhado por diferentes ministérios das vicissitudes que os afetam", afirmou o secretário de estado. Esse problema "já tinha sido identificado em 2006 mas a reforma do orçamento ultrapassa a cooperação, não pode ser feita sectorialmente", concluiu João Gomes Cravinho.




