Breves resumos de sete livros editados para assinalar os 30 anos de Camarate. Se o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem considerar que o processo judicial foi mal conduzido, o caso Camarate poderá ser reaberto.Trinta anos após a morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, a efeméride tem sido ocasião para o lançamento de vários livros sobre aqueles dois protagonistas da vida política portuguesa e sobre a queda do avião em Camarate que ainda hoje é um dos mistérios por resolver da política portuguesa.
Escritos, em parte, por outros políticos, como Freitas do Amaral ou José Miguel Júdice, ou resultado de investigações académicas ou jornalistas, os livros têm sido ocasião para lembrar os dois governantes, mas também para mais uma vez discutir as circunstâncias das suas mortes. E o lançamento de um deles – o de Freitas – até foi a ocasião aproveitada para lançar a ideia da criação de uma nova comissão de inquérito parlamentar à tragédia de Camarate.
Camarate: um caso ainda em aberto
Diogo Freitas do Amaral, o número dois do Governo da AD, defende que Camarate foi um atentado, não contra Sá Carneiro, mas contra Amaro da Costa, e expõe a sua tese neste livro. Amaro da Costa era o ministro da Defesa e tinha levantado a questão do fundo de defesa militar do Ultramar. Este fundo funcionava como um autêntico “saco azul” para despesas militares durante a guerra colonial. Para Freitas, o motivo estaria relacionado com o fundo de defesa militar do Ultramar, cuja investigação defende. Neste livro, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros divulga a correspondência que trocou, em 1995, com o então procurador-geral da República, Cunha Rodrigues.
Histórias de uma vida interrompida – biografia de Adelino Amaro da Costa
Da autoria de Maria do Rosário Carneiro (irmã de Amaro da Costa) e da jornalista Célia Pedroso, com prefácio de Mário Soares, o livro conta a vida do ministro da Defesa da AD que morreu, tal como o então primeiro-ministro, no desastre de Camarate, em 1980.
Nesta biografia, destaca-se a vida política de Adelino Amaro da Costa. Mas Amaro da Costa, apesar de ser um político de excelência, não vivia apenas para a política. Por isso, neste livro também são apresentados dados da sua faceta mais humana, como o facto de gostar de sapateado, de tocar piano e de cantar ou de fazer imitações.
Biografia sobre Sá Carneiro
Esta nova biografia de Sá Carneiro, escrita pelo director da revista “Sábado”, Miguel Pinheiro, dá conta de algumas facetas inéditas da personalidade do antigo primeiro-ministro. Nas suas mais de 700 páginas, Miguel Pinheiro destaca, por exemplo, que Sá Carneiro era dado a premonições como a da sua própria morte: previa morrer novo e de forma violenta. Daí, a sua pressa de viver.
Ao longo de mais de 700 páginas, o autor, que teve acesso a documentos da família Sá Caneiro, dá conta de vários aspectos da vida do antigo primeiro-ministro, como é o caso um episódio que foi quase mantido em segredo sobre a depressão que o ex-primeiro-ministro sofreu no pós-11 de Março e que levou Sá Carneiro a ponderar desistir de tudo e ir viver para o Brasil.
O meu Sá Carneiro
José Miguel Júdice aderiu ao PSD um ano depois da morte de Sá Carneiro no que o próprio considera ter sido um “gesto simbólico” de continuidade do combate do antigo líder social-democrata com quem trabalhou durante dois anos. Um período lembrado num livro em que também reflecte sobre o pensamento político de Sá Carneiro e o seu legado.
Francisco Sá Carneiro – Solidão e Poder
Um ano depois da morte de Sá Carneiro, Maria João Avillez escreveu “Solidão e Poder”, um retrato humano e político do antigo primeiro-ministro que foi agora reeditado. Como escreve na nota prévia a esta reedição, Maria João Avillez não alterou nada no texto, embora diga que, provavelmente, não o voltaria a escrever da mesma forma.
A Transição impossível
“A ruptura de Francisco Sá Carneiro com Marcello Caetano” é o subtítulo deste livro que pôs nas livrarias a tese de mestrado de Joana Reis, jornalista da TVI, mestre em Ciência Política pela Universidade Católica. Centrado na chamada Primavera Marcelista - período entre 1969 e 1973, em que a Ala Liberal, que chegou a ser liderada por Sá Carneiro, teve lugar na Assembleia Nacional -, este livro tenta encontrar as razões e as explicações para o fracasso de uma transição em que muitos acreditaram durante esses anos, mas que se veio a revelar, de facto, impossível.
Por uma social-democracia portuguesa
Nesta efeméride, também as palavras do próprio Sá Carneiro tiveram direito a uma reedição. Entrevistas, discursos e artigos fazem parte desta obra que reflecte o pensamento de Sá Carneiro no primeiro ano após a Revolução de 25 de Abril e ajuda a compreender nascimento do PPD/PSD e a sua afirmação no início da democracia.
Reabertura do caso Camarate decidida no próximo ano
Em 2011, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem anuncia a decisão sobre a queixa contra o Estado português interposta pelos representantes das famílias das vítimas de Camarate. Se a queixa for aceite, o caso pode ser reaberto. Mais de três anos após a apresentação da queixa, o tribunal de Estrasburgo prepara-se para anunciar uma decisão que deverá ser divulgada ao longo do primeiro semestre do próximo ano, como confirmou à Renascença o conselheiro Ireneu Cabral Barreto, juiz do tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Se a queixa for admitida e se o Tribunal considerar que o processo judicial foi mal conduzido, o caso Camarate poderá ser reaberto. Passaram 30 anos sobre a tragédia de Camarate, que resultou na morte de Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa e demais passageiros que seguiam a bordo do Cessna que caiu a 4 de Dezembro.
