Dois anos chegam para reconstruir a Madeira?
Alberto João Jardim fala em prejuízos superiores a mil milhões de euros. Mas as feridas são bem mais profundas. Por toda a zona sul da ilha há retratos de dor que serão difíceis de sarar. Mas o presidente do Governo Regional da Madeira confessa que nas relações entre o Funchal e Lisboa «foi enterrado o machado de guerra»A destruição não atingiu só a Baixa do Funchal, as zonas altas da cidade ou a Ribeira Brava. Em vários pontos do sul da Madeira existem derrocadas, deslizamento de terras, vidas perdidas, negócios estragados, estradas desaparecidas e casas despedaçadas. Alberto João Jardim já definiu um prazo («recuperar a ilha em dois anos»), mas será possível?
Maria da Conceição nunca viu nada assim. A habitante do Jardim da Serra, no Estreito de Câmara de Lobos, foi umas das muitas centenas de pessoas que escaparam por um triz, não sendo arrastada para a morte no último sábado. Viu a terra passar-lhe à frente dos olhos, fazendo desaparecer a estrada: «Sempre vivi aqui, nunca tinha visto nada assim. Já houve derrocadas e muita chuva, mas nada assim». Tem mais de setenta anos de vida e anda sempre a pé, por veredas e caminhos esconsos. Agora nem isso existe.
Um pouco mais acima, a destruição total. Precipícios imensos, carros em cima das árvores, estradas esburacadas, desniveladas, como se pertencessem a um cenário de terramoto. O esforço das autoridades concentra-se no desimpedimento das vias rodoviárias, para evitar o isolamento das populações. Em muitos locais só se pode circular num sentido, mas os autocarros não passam.
Em Boca da Corrida, mais uma história trágica. Maria Lídia Jesus, 40 anos, tinha ido buscar pão para a mãe. Já não regressou. Foi arrastada pela lama e faleceu. É um dos 41 corpos recolhidos pelo Instituto de Medicina Legal. A mãe tentou salvá-la, mas não conseguiu e foi parar ao hospital. «Ainda não sabe que a filha morreu», confessam os vizinhos.
Caminhos quase impossíveis
Alberto João Jardim, em entrevista à RTP, apontou os dois anos como prazo para recuperar a ilha. Um ano e meio que lhe resta do mandato e algo mais, que será concluído por quem lhe suceder. Os prejuízos totais ascendem a «cerca de mil milhões e meio. É mais um orçamento anual».
Convencido de que a tragédia foi causada apenas pela existência de «um fenómeno meteorológico sem precedentes», defende a sua obra. «Quero construir de novo o que era do tempo anterior à autonomia, porque o que foi feito por mim está tudo em pé», confessou, aproveitando para defender as estruturas que canalizam as ribeiras. «Nada do tempo da autonomia foi abaixo e só o que era do tempo de Salazar e do rei D. Carlos foi abaixo. É isso que vai ser feito de novo, à minha maneira», assegurou o Presidente do Governo Regional.
Um dos maiores sinais da fiabilidade as estruturas de Jardim são os túneis. Nenhum cedeu e todos estão operacionais. A caminho do Curral das Freiras, a estrada está agora minimamente transitável, mas tem trajectos quase impossíveis. Bocados foram levados montanha abaixo e muitas pedras vão surgindo pelo caminho (para já não falar das que ameaçam cair).
O Curral é, apesar de tudo, um local tranquilo. Excluindo os problemas nas acessibilidades, quase tudo está normalizado. Os cafés e restaurantes reabriram, os primeiros turistas começaram a chegar e até o jornal já pode ser lido. «Aqui, estamos habituados a derrocadas e quedas de terra. Não é um problema de hoje», revela António, proprietário de um dos supermercados da localidade.
Lá no interior da ilha, onde ninguém conseguiu comunicar com o mundo durante mais de um dia, ainda não reabriram as escolas. Os meninos aguardam, vão brincando nas estradas, fazendo de conta que ajudam na recuperação da ilha. Na Seara Velha, depois de Curral das Freiras, a unidade de ensino especial escapou ilesa à fúrias das águas da ribeira, que passam a escassos metros. Na segunda-feira, as aulas devem regressar.
Ainda assim, o Sindicato dos Professores vai avisando: «O valor do regresso às rotinas, logo após uma catástrofe incomum, não deve sobrepor-se ao valor primeiro da segurança». Ritmos de recuperação que continuarão a marcar a vida de olha por muitos e muitos meses.
Jardim elogia: «Sócrates é uma surpresa para mim»
A tragédia serviu para enterrar o machado de guerra. A Madeira já não se queixa do continente e Alberto João Jardim tornou-se próximo de José Sócrates. A união de esforços para recuperar a ilha parece ter também colocado um marco na cronologia de relações entre os Governos da República e da região.
No programa «Grande Entrevista», da RTP, o presidente do Governo Regional da Madeira assumiu esse novo tempo. «Ainda hoje estive a conversar com ele. Sócrates é uma boa surpresa para mim, depois do que eu pensava dele. Temo-nos entendido muito bem», frisou. Centrado na necessidade de recuperação da ilha, Jardim fala em apoios, diz que entende as dificuldades existentes em Portugal, na União Europeia e no mundo inteiro, mas está na altura de reclamar apoios: «Há mecanismos financeiros até para em 20 anos se pagar esta reconstrução» disse, considerando que «o machado de guerra entre Lisboa e o Funchal está enterrado».
«Há momentos na vida em que todos temos de ir ao encontro uns dos outros e às vezes há males que vêm por bem. Se perante uma situação de emergência como esta é possível enterrar o diferendo que havia entre Funchal e Lisboa, penso que este país pode enterrar uma série de machados que não têm importância e em que andamos a gastar as nossas energias», acrescentou. Nesta entrevista, o líder madeirense, que também é o presidente do PSD-Madeira, falou do seu partido, apelando a um entendimento entre Paulo Rangel e José Pedro Aguiar-Branco. Quanto a Passos Coelho, nem vê-lo, pois considera que o traiu no passado. Recorda que há dois anos e meio o seu projecto foi recusado pelos sociais-democratas, por isso espera apenas que haja «juízo». Para já, não diz em quem vai votar, mas vai avisando que não se calará se o impasse continuar. Na semana que anteceder o congresso vai reunir com as estruturas locais e informar o seu sentido de voto. Aí, poderá fazer a diferença.