Cavaco reconhece "situação insustentável"
Num discurso dominado pela atual situação de crise, o chefe de Estado voltou a repetir um apelo que têm vindo a fazer ao longo dos últimos meses: um "contrato" de coesão nacional para a união dos portugueses. O Presidente da República reconheceu ontem que Portugal chegou a "uma situação insustentável, defendendo o estabelecimento de um "contrato de coesão nacional", no qual cabe aos agentes políticos uma "especial" responsabilidade. "Como avisei na altura devida, chegámos a uma situação insustentável. Pela frente, temos grandes trabalhos, enormes tarefas, inevitáveis sacrifícios", afirmou o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva, na sessão solene das comemorações do 10 de junho, que decorreram em Faro.
Porém, notou, "não foi com o desalento que se construiu Portugal", e por isso este é o tempo de "fazer um esforço suplementar" para concertar posições e gerar consensos. "No contrato de coesão nacional que temos de estabelecer, transversal à sociedade portuguesa, cabe especial responsabilidade aos agentes políticos, aos governantes, aos deputados, aos autarcas de todo o País", defendeu. "As horas de infortúnio são momentos de responsabilidade. Este não é o tempo para querelas partidárias ou quezílias ideológicas que nos possam distrair do essencial", acrescentou, reafirmando que "o essencial são os problemas concretos dos Portugueses".
Num discurso dominado pela atual situação de crise, o chefe de Estado voltou, contudo, a repetir um apelo que têm vindo a fazer ao longo dos últimos meses para a união dos portugueses. "Temos de encontrar em nós próprios a força para vencer. Não baixemos os braços", pediu, já depois de recordar que "a coesão nacional constitui um dos nossos bens mais preciosos".
"É necessário deixar para trás divisões estéreis e sem sentido para nos concentrarmos no essencial, para podermos olhar mais longe para o que é verdadeiramente importante, num espírito de unidade e de harmonia cívica", pois, disse mais à frente "se o horizonte que avistamos é de dificuldades e de incerteza, mais razões temos para nos unirmos. Estou certo de que juntos conseguiremos", assegurou.
Manuel Alegre diz que discurso de Cavaco foi "adequado" mas "excessivo", e corresponsabiliza Cavaco pela atual situação económica do país.
O candidato socialista à Presidência da República, Manuel Alegre, considerou que o discurso de Cavaco Silva foi "adequado" mas "tem uma palavra a mais que é 'insustentável'", uma vez que cabe ao Presidente da República dar uma palavra de "confiança". Em declarações à agência Lusa, Alegre, que disse que não ouviu o discurso do PR, tendo apenas lido o documento, considera que era preciso "incutir confiança" e "mobilizar os portugueses, por maiores que sejam as dificuldades", pelo que foi um discurso "excessivo".
Manuel Alegre afirmou que o Presidente da República é também "corresponsável" pela situação económica, frisando que nas últimas eleições se fez constar que Cavaco Silva poderia resolver problemas por ser professor de economia. Manuel Alegre falava aos jornalistas na apresentação dos seus mandatários nacional, Maria de Belém (vice-presidente da bancada do PS), da juventude, Jacinto Lucas Pires (escritor e cineasta) e de Lisboa, Daniel Sampaio (médico).
"Qualquer um destes três mandatários têm em comum a preocupação da cidadania e da participação cívica, de forma a tentar remobilizar a juventude para a vida cívica e democrática. Sem a mobilização das pessoas em geral é muito difícil renovar a vida política e democrática", declarou o candidato presidencial. Sobre as próximas eleições presidenciais, Manuel Alegre afirmou estar convencido que terá pela frente "uma campanha difícil, mas importante para a democracia, num momento especialmente complicado da vida dos povos no mundo, na Europa e em Portugal".
"Mas é nas horas difíceis que é preciso gente de caráter, gente que não fuja à luta. Em democracia pode ganhar-se ou perder-se, mas o pior de tudo é perder por falta de comparência. Isso comigo nunca acontecerá", frisou o candidato presidencial. Interrogado sobre o teor dos últimos atos oficiais do chefe de Estado, Alegre considerou que Cavaco Silva "está todos os dias no terreno", algo que, na sua perspetiva, "pode fazê-lo com total legitimidade. Mas [o Presidente da República] também se arrisca que haja interpretações sobre a natureza de alguns dos seus atos políticos", advertiu.
Na sua intervenção inicial para a apresentação dos mandatários da sua candidatura presidencial, Manuel Alegre considerou que Cavaco Silva é também corresponsável pela atual situação económica do país. "Todos somos corresponsáveis, mas o Presidente da República é eleito por sufrágio direto. O Presidente da República, ao falar na cooperação estratégica, tinha implícita a ideia de que há uma partilha na definição das linhas políticas do Governo", observou.
Neste ponto, Manuel Alegre fez ainda questão de vincar que, durante a última campanha presidencial, Cavaco Silva, "ou alguém por ele, fez passar a ideia que o facto de ser professor de economia e finanças iria contribuir para resolver os problemas financeiros do país. Não podia, porque o Presidente da República não governa. Mas é ele o Presidente da República", frisou. Em declarações aos jornalistas, o mandatário da juventude, Jacinto Lucas Pires, justificou o seu apoio a Manuel Alegre por "Portugal precisar de inspiração e de uma voz que possa trazer esperança às pessoas".
"Ter este poeta na Presidência da República vai ser importante", sustentou o escritor e cineasta, antes de a vice-presidente da bancada socialista Maria de Belém ter recusado que seja mandatária nacional de Manuel Alegre para fazer a ligação ao PS. "Através dos seus órgãos nacionais, o PS já demonstrou que apoia a candidatura de Manuel Alegre. Eu sou uma militante do PS, como muito outros, que apoia e trabalha para que a candidatura de Manuel Alegre vença", respondeu a ex-ministra da Saúde. Manuel Alegre aproveitou para frisar que a sua candidatura presidencial "é autónoma, independente e supra-partidária, que teve a honra e o gosto ser apoiada pelo seu próprio partido. Mas esta candidatura nasceu da cidadania", defendeu Alegre.