O economista João Duque, presidente do ISEG, afirmou ontem que “bastaria haver um atraso de 10 dias no pagamento mensal das reformas e das pensões para que as pessoas tomassem consciência da verdadeira dimensão do problema em que vivemos”. João Duque, que a 18 de Maio co-assinou um documento de reflexão da SEDES que compara o período actual com aquele vivido no final da I República e que viria a degenerar em ditadura, recorre à linguagem bélica para descrever o momento actual: “Estamos em guerra e os soldados são todos os portugueses, mas muitos deles ainda não estão conscientes do seu papel nesta guerra”. Mas admite que esta “guerra também é uma guerra contra nós próprios, pois há muita mudança estrutural que vai ter de acontecer no país e as pessoas vão ter de a aceitar”.
Recordou ainda o momento em que o Ministério da Defesa se atrasou num dia no pagamento dos ordenados e “foi o que se viu”. Em resumo: "O povo só desperta quando houver uma ruptura de tesouraria". E o papel dos partidos políticos nesta “guerra”, segundo João Duque, é de quem também vai ter de cometer sacrifícios em nome da salvação das finanças nacionais: “salvar Portugal implica perder eleições e nenhum partido quer perder eleições”. Uma conclusão que vai na linha do enunciado por Cavaco Silva no seu discurso de encerramento da sessão solene do 100º aniversário do ISEG. A única forma, para João Duque, é que “nesta campanha não se recorra ao insulto, de forma a que haja maiores hipóteses de haver consenso entre os três maiores partidos”. João Duque acredita que “um dos líderes desses partidos vai cair após a eleições e isso permitirá um acordo mais alargado”.Taxa de juro de 6% "não é nada má"
O economista João Duque considera que os juros de cerca de 6 por cento que a Comissão Europeia deverá cobrar a Portugal pela sua fatia da ajuda ao país são aceitáveis, sobretudo levando em conta os juros exigidos no mercado. "A taxa que se fala de 6 por cento não é nada má. A alternativa era Portugal ir ao mercado buscar financiamento a 12 por cento", disse à agência Lusa o presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). Duque acrescentou que a fasquia de 6 por cento não poderia ser baixada "para que os países incumpridores não julguem que isto é uma república das bananas", sublinhando que "a Alemanha paga uma taxa de 3 por cento. Portugal quer pagar uma taxa igual à que a Alemanha paga? Não pode ser". O economista defende que a taxa aplicada aos países alvo de intervenção (Grécia, Irlanda e, agora, Portugal) "penaliza o incumprimento e impõe que estes países entrem nos eixos rapidamente".
Duque é da opinião que caso a taxa de juro cobrada no âmbito dos pacotes de resgate financeiro fosse mais baixa, qualquer país poderia incumprir, recorrendo depois à ajuda sem ter que fazer um esforço significativo. "Uma taxa de 6 por cento não é nada má. Fica, inclusive, abaixo da barreira dos 7 por cento que o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, referiu há alguns meses", salientou. Quanto aos juros que serão encaixados por Bruxelas pela sua parte do apoio financeiro a Portugal, Duque considera que "vão servir para constituitr um pé de meia". Portugal vai receber um empréstimo de 78 mil milhões de euros nos próximos três anos ao abrigo de um acordo de ajuda financeira com o Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia, ficando obrigado a aprovar um conjunto de medidas para reduzir os gastos do Estado que abrangem diversos setores.
O economista João Duque defendeu que o fórum "Mais Sociedade" não deve produzir propostas direcionadas para um partido específico, pensadas para um determinado programa eleitoral, até porque não é certo que haja uma maioria absoluta saída das próximas eleições. "Não há garantia que seja um partido a obter maioria absoluta para dirigirmos as nossas propostas para esse partido. Não, as nossas propostas são para o Governo que venha a seguir", disse o também moderador de um dos painéis de do movimento "Mais Sociedade", que decorre até sábado no Centro de Congressos de Lisboa. João Duque ressalvou, no entanto, que os colaboradores do projeto foram "espicaçados pelo PSD a fazer esta reflexão", ainda que espere que elas possam ser aproveitadas pelos diferentes partidos.
Passos e Portas serão "varridos" caso bloqueiem Governo liderado por Sócrates
O presidente do PS considerou hoje que, se Paulo Portas e Passos Coelho se recusarem a fazer parte de um Governo liderado por Sócrates a seguir às eleições, serão "varridos" pelos próprios militantes dos seus partidos. Almeida Santos assumiu esta posição em declarações à agência Lusa, depois de ter estado presente num almoço comício do PS na Guarda e de ser confrontado com o cenário de os líderes do PSD e do CDS se recusarem a fazer parte de um Governo outra vez chefiado por José Sócrates. "Penso que o que eles [Pedro Passos Coelho e Paulo Portas] dizem agora não é válido para pós eleições, porque depois das eleições quem se recusar a fazer uma coligação que seja do interesse nacional para termos um Governo maioritário é varrido no dia seguinte pelo próprio partido", respondeu Almeida Santos.
Neste ponto, o presidente dos socialistas deixou um aviso ao líder social-democrata por afirmar de forma definitiva que se recusa a fazer parte de um executivo com Sócrates. "Dos dois [Passos Coelho e Paulo Portas], se um só quiser fazer uma coligação com o PS num Governo maioritário, estou convencido que é essa coligação que vai existir. Se Pedro Passos Coelho perder as eleições, se continuar a insistir nas suas posições contra José Sócrates e se for necessário um Governo de coligação nacional entre PS e PSD, provavelmente, quem vai ser sacrificado é Passos Coelho e não a coligação, porque o interesse nacional é tão forte e tão grande que acabará por se sobrepor a todas as posições partidárias", sustentou. Em relação às diferenças nas campanhas do PSD e do CDS, Almeida Santos considerou que Paulo Portas "está a ser mais afirmativo". "Neste momento, o CDS tem um líder mais afirmativo do que o PSD. Mas não levo a bem nem a Passos Coelho nem a Paulo Portas que se tenham esquecido que existiu uma crise internacional e que essa crise não foi o Sócrates quem a criou", disse.
Coligação PSD / CDS-PP pode dar maioria absoluta
O PSD está à frente do PS nas intenções de voto, em mais de seis pontos, revela uma sondagem da Marktest, que indica também que se o partido liderado por Passos Coelho se coligasse com o CDS-PP teria maioria absoluta. O PSD alcançou, como refere o Diário Económico, 39,7% das intenções de voto enquanto que o PS ficou-se pelos 33,4%. Contrariamente ao que aconteceu em Abril, em que o Partido Socialista tinha recuperado a liderança, um mês depois o partido de Sócrates caiu 2,7 pontos percentuais e passou a ser a segunda força política nacional. A sondagem mostra ainda que, no últimos mês, os partidos de esquerda (PCP e BE) caíram nas intenções de voto enquanto que o CDS-PP recuperou 1,5%, ficando-se pelos 9%. Caso Passos Coelho vença as eleições e venha a coligar-se com Paulo Portas pode-se concluir que os dois partidos poderiam formar um Governo maioritário com 49% dos votos. A dez dias do início da campanha eleitoral também o número de indecisos caiu em três pontos.
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