Mais de 37 mil pessoas confirmaram até ontem, no Facebook, a participação no Protesto Geração à Rasca, agendado para 12 de março em Lisboa e Porto, mas que já se estendeu a Viseu, Leiria, Faro, Funchal e Ponta Delgada.
Na página do Facebook da iniciativa, o apelo é lançado aos "desempregados, ‘quinhentoseuristas’ e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal!". Paula Gil, uma das organizadoras, não esconde o seu espanto pela enorme adesão que teve a iniciativa, que começou por ser uma ideia de quatro amigos, mas explica-a de forma muito simples: "a precariedade é transversal e afeta muita gente". A ideia partiu de uma conversa entre quatro amigos, que estavam a debater a situação do país e que, sabendo que havia muita gente na sua situação, se lembraram de criar uma página na rede social Facebook a apelar para um protesto, explicou à Lusa Paula Gil. "Nunca pensámos ter um crescimento tão grande em tão pouco tempo. Ao fim de alguns dias, tínhamos 800 inscrições, de várias pessoas que nenhum de nós conhecia", afirmou. Mas as proporções que assumiu a iniciativa dos jovens foi tal que acabou por sair do seu domínio e aquilo que seria um protesto simultâneo na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e na Praça da Batalha, no Porto, já se estendeu a Viseu, Leiria, Faro, Funchal e Ponta Delgada. "Pelo menos esta é a informação que nos tem chegado. Fomos recebendo contactos destas cidades e embora não sejamos nós a organizar o protesto nas outras cidades, acredito que vai haver adesão", disse Paula Gil.
A página foi criada por João Labrincha, com a participação de Paula Gil, Alexandre de Sousa Carvalho e António Frazão. O protesto, que se afirma "apartidário, laico e pacífico", reclama o direito ao emprego e à educação, a melhoria das condições de trabalho e o fim da precariedade, pelo "reconhecimento das qualificações, competência e experiência, espelhado em contratos e salários dignos". Quanto a expetativas de participação no evento, Paula Gil reconhece que não pode elaborar previsões com base no Facebook, mas tem "esperança que a adesão seja tão grande ou maior do que o número de inscrições". Segundo a organizadora, a autorização para o protesto já foi pedida ao Governo Civil. Questionada sobre as mudanças que os organizadores esperam poder vir a operar no país com este "Protesto da Geração à Rasca", Paula Gil responde: "temos esperança de colocar, ainda mais do que já colocámos, o tema na agenda política e que se perceba que as soluções partem de uma concertação social entre todos, incluindo nós". Na página do protesto, no Facebook, é pedido aos manifestantes que levem uma folha A4 com "o motivo da presença e uma solução", para depois ser entregue na Assembleia da República.
"Se o Governo não muda, é do interesse nacional mudarmos o Governo"
O deputado social democrata José Pedro Aguiar-Branco declarou que "é de interesse nacional mudar o Governo", considerando que este está "em fim de estação" e que a única remodelação possível é a do próprio primeiro-ministro, José Sócrates. Questionado pela Agência Lusa sobre as declarações de segunda-feira do primeiro-ministro, José Sócrates, e do ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, que admitiram medidas adicionais para que seja alcançado um défice de 4,6 por cento este ano, Aguiar-Branco criticou esta forma de atuação do Governo. "Este Governo, este ministro [das Finanças] e este primeiro-ministro persistem num método que tem sido altamente negativo que é fazer anúncios, deixar cair coisas para a comunicação como se fossem fazer testes para ver como essas matérias são recebidas, mais uma vez não respeitando as pessoas e tratando-as de uma forma que é cada vez mais dramática", condenou. O ex-líder da bancada parlamentar do PSD disse ser "cauteloso" nas considerações sobre estas declarações, explicando que lhe "custa sempre perceber onde é que começa o anúncio e a efetiva realidade neste Governo, a diferença entre o país real e o país de fantasia", que se tem sido sempre o país do primeiro-ministro. "Só posso dizer o que já disse no passado: se o Governo não muda é do interesse nacional mudarmos o Governo", defendeu.
Para o deputado social democrata "o Governo mostra que não muda ele próprio, mostra que a única remodelação possível para que se saía deste estado cada vez mais gravoso em que o país se encontra é a remodelação do próprio primeiro ministro". "Todo este clima, toda esta atmosfera mostra um Governo em fim de estação", sublinha. Questionado pela Agência Lusa sobre uma eventual apresentação de uma moção de censura do PSD ao Governo de Sócrates, o ex-candidato à liderança laranja afirmou que "compete ao presidente do partido e à comissão política nacional saber escolher o melhor momento para o efeito". "Eu já exprimi a minha opinião, disse-o no momento e local próprios e é perfeitamente clara qual é a minha posição. Está esgotado esse momento, temos que estar todos solidários -- e estamos -- com o que a direção entender como o momento oportuno para mudar este Governo", defendeu. Sobre a necessidade ou não de ajuda externa para resolver a situação económica em Portugal, Aguiar-Branco disse que "tal como o primeiro ministro diz", espera que essa situação não seja necessária. "Se vier a ser necessária mostra que o Governo, mais uma vez, não foi capaz de poder resolver a situação", sustentou.
Governo admitir novas medidas é "prova de desleixo"
O secretário-geral do PSD considerou hoje ser "uma prova de desleixo" e de "falta de rigor" o Governo admitir a aplicação de novas medidas de austeridade e condenou a criação de maior incerteza sobre o controle das contas públicas. "Admitir agora a necessidade de medidas de austeridade adicionais constitui, ao mesmo tempo, uma prova do desleixo do Governo e da sua falta de rigor", afirmou o secretário-geral do PSD, Miguel Relvas, em conferência de imprensa na sede do partido, no final de uma reunião da comissão política social-democrata. Sublinhando que o PSD tem dificuldade em entender o discurso do Governo quanto à necessidade de medidas adicionais menos de 10 dias depois do primeiro-ministro ter dito publicamente que os indiciadores da execução orçamental eram "auspiciosos", Miguel Relvas criticou a atitude do Governo num momento em que é preciso criar confiança e em que o Portugal está a ser cada vez mais pressionado pelos mercados.
"O pior que o Governo pode fazer é criar, com tais afirmações, ainda maior incerteza sobre a sua capacidade para controlar a evolução, em sentido positivo, das contas públicas", sustentou, insistindo que "não se consegue compreender, não é percetível, não se encontra razões para o Governo ter alterado o seu discurso em menos de 10 dias". Questionado se o PSD equaciona a possibilidade de viabilizar novas medidas de austeridade, Miguel Relvas nunca respondeu, insistindo apenas na ideia de que o partido não consegue compreender as declarações do primeiro-ministro e do ministro das Finanças, que admitiram segunda-feira que poderão ser aplicadas medidas adicionais para cumprir os objetivos orçamentais. Sublinhando a "profunda preocupação" com que o PSD vê esse anúncio que veio "sobressaltar a população com a ameaça de um novo pacote de austeridade", Miguel Relvas considerou ainda que é "prematuro" invocar a subida do preço do petróleo e a situação internacional para justificar novas medidas, porque "o Governo tem todas as condições e instrumentos para ir ajustando a política orçamental à evolução da conjuntura". O secretário-geral do PSD criticou ainda o adiamento de reformas importantes, frisando que "como o Governo não reforma o Estado, a despesa pública não baixa e todos os sacrifícios são insuficientes".
Interrogado sobre as expetativas do PSD em relação ao encontro que o primeiro-ministro terá na quarta-feira com a chanceler alemã, Miguel Relvas escusou-se a fazer qualquer comentário, alegando que o partido desconhece a agenda da reunião e "não teve qualquer informação adicional para além daquela que é pública". Instado ainda a comentar as declarações do deputado José Pedro Aguiar Branco, que defendeu hoje que "é de interesse nacional mudar o Governo", o secretário-geral do PSD escusou-se a falar sobre "declarações de militantes" do partido, "gostando mais ou gostando menos de umas ou outras declarações". Miguel Relvas, notou, contudo, que "o PSD é o espelho do país" e existe hoje em Portugal "um grande descontentamento com a situação que se vive". Na conferência de imprensa, Miguel Relvas disse ainda que na reunião da comissão política foi saudada "vivamente" a decisão do líder do partido, Pedro Passos Coelho, de convidar Eduardo Catroga para assumir a coordenação do processo de elaboração do programa eleitoral do PSD.
"Isto é de tal forma grave que uma simples troca de Governo é insuficiente"
O presidente da Câmara do Porto defendeu hoje a necessidade de reformas profundas no atual regime político, considerando que a situação “é de tal forma grave” que uma mudança de Governo já não basta. “Se houvesse eleições antecipadas, não haveria uma mudança de regime, mas uma mudança no Governo. Isto é de tal forma grave que uma simples troca de Governo é insuficiente”, defendeu Rui Rio. O autarca respondia aos jornalistas na apresentação dos “Grandes Debates do Regime”, que o município organiza a partir de dia 31. A iniciativa pretende ser “uma reflexão sobre o estado do regime nos últimos 40 anos” e não sobre “o estado do país por causa da atuação do Governo”, pelo que terá um impacto menor “se tudo se precipitar no curto prazo” e se realizarem eleições antecipadas. “Se não se precipitarem, acredito que estes debates possam influenciar os diversos partidos para se entenderem quanto à necessidade de fazer reformas profundas”, explicou. Sem “reformas profundas, o regime irá à falência de uma forma que ninguém consegue adivinhar”, avisou. Para Rio, a queda do regime não acontecerá de forma “tradicional”, mas “de forma pior, com um poder democrático fraco e outros poderes fortes que às vezes nem o rosto se lhes conhece e não se consegue sequer combater devidamente”. As injustiças sociais “são crescentes”, o desemprego “tem crescido para taxas inimagináveis”, o país está “profundamente endividado, mais do que os portugueses sonham” e o poder político “está desacreditado” – eis alguns sinais de que o regime “está a falhar”.
A justiça é a área com reforma mais urgente: “Temos um sistema de justiça que está pior do que no tempo da ditadura. Tirando os julgamentos eminentemente políticos, que agora não há, os cidadãos têm hoje uma resposta pior”, criticou. O “objetivo mais importante” é “credibilizar o poder político” e o “maior problema é o endividamento externo”, acrescentou. Pinto Balsemão, Mário Soares e Freitas do Amaral participam no primeiro debate, sobre “Democracia no século XX: Que hierarquia de valores?” A 5 de maio, Garcia Leandro, Santana Lopes e Rui Ramos discutem “O estado do regime” e a 16 de junho Abel Mateus, Lobo Xavier e Rui Moreira debatem “O papel do Estado e os limites da sua intervenção”. A 14 de julho, Laborinho Lúcio, Marinho Pinto e Paulo Rangel falam sobre “Justiça: como fazer a rutura?”, seguindo-se, a 22 de setembro, Azeredo Lopes, Manuel Teixeira e Maria João Avillez, com “Comunicação Social: impune ou responsável”. A 13 de outubro, fala-se sobre “Educação: O futuro de Portugal”, com Artur Santos Silva, Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato. “As finanças públicas e o Estado social num mundo globalizado” é o debate de 10 de novembro, com António Barreto, Carvalho da Silva e Vítor Bento. A 19 de janeiro de 2012, “A Economia portuguesa e o caminho para a competitividade”, com Daniel Bessa, Mira Amaral e Rui Vinhas da Silva e, a 9 de fevereiro, “Que reformas para salvar o regime?”, com António Vitorino, Pacheco Pereira e Morais Sarmento.
"Justiça em Portugal está pior que nos tempos da ditadura"
Rui Rio é de opinião que o regime em que vivemos "dá sinais evidentes de decadência e se não houver reformas profundas vai à falência de uma forma que a esmagadora maioria das pessoas não consegue imaginar". Para contribuir para a discussão do estado do país, o presidente da Câmara do Porto apresentou ontem a iniciativa Grandes Debates do Regime, que vai contar com várias personalidades nacionais que, diz Rio, "darão o seu contributo à reflexão colectiva". Para o autarca é urgente fazer esta reflexão, porque "foi muita a irresponsabilidade e muitos os erros cometidos ao longo dos tempos". Rui Rio sublinha que é "notória a forte degradação que o regime nascido em 1974 tem vindo a sofrer e são penosos os sacrifícios que os portugueses estão a ter de suportar". Rui Rio está particularmente céptico quanto ao futuro do país: "Este regime está a falhar naquilo em que não é suposto falhar", e sublinha: "Há gente a sofrer, e não falo só dos pobres. A classe média tem problemas gigantescos, mas ainda vai tendo alguma vergonha de os expor publicamente, o desemprego atinge números inimagináveis e o endividamento do país atinge valores muito para além daquilo que os portugueses sonham sequer."
Aliás, Rio considera que o grande problema com que Portugal se debate é mesmo o do endividamento externo, que, se não for correctamente combatido, pode levar a uma situação de gravidade extrema. O presidente da Câmara do Porto recusou-se a especificar que situação será essa, mas percebeu-se que não prevê que seja agradável. "As gerações futuras, a continuarmos este caminho, vão sofrer", diz Rio, que defende que o poder político é que está desacreditado. "Se não fossem os políticos, era fácil resolver o problema", afirmou. Justiça Quanto ao calcanhar de Aquiles, Rui Rio afirma que "o sistema de justiça funciona pior do que no tempo da ditadura, só não há os julgamentos políticos, de resto está tudo claramente pior". Rui Rio considera que este é o sector que pede uma reforma mais urgente para que Portugal deixe de ser um país onde "as minorias impõem os seus interesses à maioria". Este ciclo de debates, que arranca no final deste mês e vai durar um ano, com um debate por mês, é um contributo da Câmara do Porto para a necessária discussão. Este será o terceiro ciclo de conferências realizado ao longo dos três mandatos de Rui Rio à frente da segunda autarquia do país. Em 2004 estiveram em debate os "30 anos do 25 de Abril" e em 2008/09 discutiu-se a "Regionalização, uma vantagem para Portugal?".
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