Os vivos e os mortos
"Morrer quem amamos, não é só ser apagado do mapa dos vivos: aquele que aparentemente nos deixou ficará preservado no casulo do seu novo mistério, sem mais riscos, doenças ou tormentos."
Por mais que as notícias falem de crianças assassinadas pelos familiares com um tiro na cabeça ou de mulheres grávidas violadas; por mais que ao nosso lado, de todas as formas, se banalize a violência e a morte, com jornais sensacionalistas que na ânsia de vender papel vulgarizam a agressão, sempre que ela nos atinge sentimos um grande abalo e um fundo enorme de estranha e angustiosa sensação. Ela ronda-nos no dia-a-dia, e mesmo assim não aceitamos a Senhora Morte, cujo aceno nos vai levar também, inevitávelmente. Ninguém sabe quando virá essa surpresa que não quereríamos ter. Ela chegará, súbita ou sorrateira, dedo dobrado em convite que sinaliza: "Vem comigo, chega de brincares à vida, agora a coisa é mesmo real".
O meu primeiro encontro com ela foi através de um pombo morto de frio que, menino ainda, encontrei no pátio da casa de meus pais: pensei que ele estivesse a dormir e o aconcheguei debaixo do casaco. Quando me fizeram ver que estava morto, fiquei inconformado. Muita insónia também sofri naquele tempo, quando morreu o meu avô, e mais tarde quando uma vizinha nossa vicou viúva. Os gritos de agonia daquela mulher vararam a noite e chegaram até ao meu quarto, trazendo susto e terror só de me lembrar, por longo tempo ainda. Mais tarde, já adulto, num trágico acidente de caaro onde morreria um amigo meu, eu conheceria intimamente a Velha Dama sobre a qual tanto já escrevi: ela abriu-me as portas do mistério e, embora eu nunca passasse da soleira, fez-me valorizar mais a vida, os afectos, o que há de belo e bom na natureza, na arte e no ser humano, e fez-me acreditar nos laços de amor que ela, a morte, não desfaz.
Nos recentes desastres de avião, que levaram num golpe mais de 300 pessoas em pleno Atlântico e no Pacífico, está uma prova dramática do quanto vivemos alienados em relação à morte, e quanto ela pode ser de súbito tão cruel. Sabemos de apenas alguns dramas desse acidente: o casal em lua de mel, pais perdendo filhos, dez funcionários de uma indústria francesa premiados com quatro dias de sonho no Brasil com acompanhantes. A lista é longa e triste. Nem precisamos de um cataclismo de grandes dimensões: basta a vida quotidiana, olhar um pouco para o lado, e lá está ela, a morte, trazendo angústias sem medida.
No começo tudo é horrível: só desespero e dor. No choque inicial, palavras e gestos de conforto, embora essenciais, podem até parecer ofensivos a quem sofre tanto. Paciência com a pessoa enlutada faz parte dos cuidados em relação a ela: a dor é natural e necessária. Mas a nossa frivolidade abomina o silêncio, recolhimento e tristeza; queremos que o outro não nos perturbe nem ameace com as suas lágrimas. Então dizemos: "Reaja! Não chore! Controle-se!", embora seja até perverso exigir isso de alguém que perdeu quem amava e está de luto.
Um dia, encontrei uma jovem que reclamava que a sua mãe, viúva recente, não parava de chorar. Desconfiei daquela vagamente irritada preocupação e perguntei-lhe: "Desculpe lá, quanto tempo faz que o seu pai morreu?". A resposta veio imediata: "Quinze dias". Sugeri-lhe que ela deixasse a mãe com o seu desgosto e sofrimento, para que um dia também ela pudesse compreender e recuperar da insensatez. Porque, mesmo que não haja verdadeiro consolo, existe a possibilidade de, a seu tempo, cada um se recompor. Ainda que a gente nunca mais seja o mesmo, mudar não é tornar-se pior. Faz parte desse processo de luta pelo luto, entender que a melhor homenagem a quem se foi é viver ou fazer como ele gostaria que a gente vivesse. Esse é um dos segredos de não sobreviver como vítima que se arrasta indefinidamente, mas como quem reencontrou em si, de uma outra forma, o que parecia ter ficado perdido para sempre.
Aqui, vale a pena recordar Sócrates: Quando os seus amigos choravam porque ele fora sentenciado, por uma sociedade preconceituosa, a tomar veneno, o grego censurou-os: "Por que se lamentam assim? Se a morte for um sono sem sonhos, que bom será. Mas, se for um reencontro com pessoas queridas, que felicidade será também!".
Tal como na mitologia egípcia, Anúbis também introduz os mortos no além e protege os seus túmulos com a forma de um cão, vigilante, deitado numa capela ou sobre o túmulo. Hoje, nós temos a obrigação de guardar intacta a memória de quem parte, como os egípcios esperavam beneficiar na sua morte do mesmo tratamento e do mesmo renascimento para a eternidade. O que me faz acreditar que o tempo vai preservar e iluminar os melhores momentos havidos. Talvez passemos a valorizar menos o dinheiro, o sucesso, a beleza e o poder. Seremos mais abertos à vida, mais gentis com os outros, mais bondosos conosco mesmos. Mas que não seja tarde demais. Porque ver morrer quem amamos, não é só ser apagado do mapa dos vivos: aquele que aparentemente nos deixou ficará preservado no casulo do seu novo mistério, sem mais riscos, doenças ou tormentos. Não vai envelhecer nem sofrer nem se apartar de nós, os vivos. E não o perderemos nunca mais da memória nem do coração.
Carlos Ferreira
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