Entre nós, a TVI entrevistou as duas partes do caso e transmitiu um programa com os pontos de vista de Gonçalo Amaral e dos McCann, através de uma entrevista a Rogério Alves, advogado do casal. O ex-investigador da PJ fala sobre a pressão política que existiu na investigação e o ex-bastonário da Ordem dos Advogados contesta a importância dos vestígios encontrados pelos cães ingleses, uma das principais «sombras» que paira sobre os McCann.
Dois anos depois da noite em que os olhos do mundo se concentraram na história da pequena menina inglesa desaparecida na Praia da Luz, em Lagos, de uma habitação num empreendimento turístico que está agora à beira da falência pela negativa publicidade, e depois de muita coisa se ter escrito e dito sobre o misterioso desaparecimento, o
Algarve Reporter deixa-lhe os artigos mais relevantes sobre toda a investigação desenvolvida e ainda uma cronologia para que possa perceber melhor a evolução do caso.
As pistas soltas encontradas, na altura em que o processo foi tornado público, continuam ainda hoje sem resposta. Sem resposta também continuam nos depoimentos as contradições de Kate e de Gerry dados à polícia portuguesa e dos seus amigos. Um stand by na história de Maddie que permite ainda perceber as contradições de Kate e de Gerry evidenciada pelas autoridades.
Maddie e a família Smith
Descubra as diferenças entre o relatório da PJ e o livro (parte II)
Durante a investigação ao caso Maddie surgiram milhares de informações sobre avistamentos da menor em diversos pontos do mundo. Foram também seguidas várias pistas sobre indivíduos suspeitos vistos nas imediações do empreendimento no dia do desaparecimento e antes. No entanto, sobre a noite dos factos chegaram à polícia apenas dois relatos: ambos afirmam ter visto um homem com uma criança ao colo naquela noite.
Relatório PJ: Um desses relatos é de Jane Tanner que foi já amplamente divulgado. Outro, menos mediático, é o da família Smith. No relatório da PJ é dito: «Veio à liça o testemunho de M. Smith relatando o avistamento de um indivíduo com uma criança ao colo, numa das artérias que acede à praia. Foi dito que essa criança poderia ser Madeleine McCann, ainda que nunca tenha sido afirmado peremptoriamente. Algum tempo depois, esta testemunha alegou, que pelo jeito [a forma como segurava num dos gémeos], o indivíduo com a criança ao colo poderia ser Gerald McCann, concluindo neste sentido quando o viu a descer as escadas de uma aeronave. Apurou-se, porém, que à hora mencionada, Gerald se encontraria sentado à mesa, no restaurante Tapas». No entanto, o documento não refere a fonte da informação, se o grupo dos amigos, se os funcionários do «Tapas».
Livro: Segundo Gonçalo Amaral, esta família veio a Portugal, a 26 de Maio, numa operação secreta, que trouxe o patriarca e dois filhos adultos à PJ de Portimão. Todos confirmaram ver um homem com uma criança ao colo e o local exacto em que se cruzaram, pelas 22h. O patriarca afirmou não se tratar de Murat, uma vez que o conhecia, não identificando alguém em particular. Uma situação que se altera com a chegada dos McCann a Inglaterra. «No final de Setembro, ficamos a saber daquele reconhecimento por parte da família Smith». (...) «Tomámos uma decisão, desencadear uma operação logística para trazer de novo as testemunhas da família a Portugal». (...) «Mas os Smith não vieram. A polícia portuguesa, após a minha saída, muda de ideias e opta por pedir a sua inquirição fazendo uso de um mecanismo de cooperação internacional». Note-se que Amaral não faz referência ao apurado pela PJ, isto é, de que naquela hora o pai de Maddie estava no «Tapas».
Relatórios periciais
Relatório PJ: Relativamente às análises enviadas pela Inglaterra, com vestígios detectados pelos cães, no apartamento e no veículo alugado, o relatório da PJ afirma que os «resultados finais não vieram corroborar as marcações caninas, ou seja, foi recolhido material celular, que, todavia, não foi identificado como pertencente a alguém em concreto, não tendo sequer sido possível apurar a qualidade desse material», ou seja, «se poderia ser sangue ou outro tipo de fluido corporal». Porém, o relatório reconhece, que «numa primeira abordagem científica afigurou-se a possibilidade de compatibilização do perfil de ADN da Madeleine com alguns dos vestígios recolhidos (dos quais avultavam os existentes na viatura Renault Scenic alugada pelos McCann)».
Livro: O relatório da PJ nada mais diz sobre os exames. Gonçalo Amaral questiona os resultados das análises, mas no fim reconhece que não são prova, mas apenas indícios: «A cadela assinalou a presença de sangue humano em locais onde o cão marcou odor a cadáver. (...) Esses fluidos corporais, segundo o FSS [laboratório inglês], continham componentes do perfil de ADN de Madeleine». «De momento, aqueles resultados não constituem prova material, mas meros indícios, os quais se deveriam acrescentar aos indícios já apurados». Menos claras, serão as análises sobre os cabelos encontrados na bagageira. Os exames a estes não terão chegado ao mesmo tempo que os restantes. Até à data de saída de Amaral não havia resultados. As amostras de cabelo foram solicitadas ao laboratório, mas este «não quis abrir mão» das provas.
O que não consta do relatório da PJ
Descubra as diferenças entre o relatório da PJ e o livro (parte III)
O livro de Gonçalo Amaral dá conta de vários pormenores da investigação que não estão no relatório final da Polícia Judiciária. Este facto indica que não foram considerados relevantes para a decisão do arquivamento ou não do processo. No entanto, o relatório da PJ é apenas um resumo de todo o processo, onde estarão, presumivelmente, os factos relatados pelo ex-coordenador da investigação e, provavelmente, outros.
Os factos de descritos por Gonçalo Amaral não presentes no relatório são essencialmenmte três:
1 - Registos telefónicos, chamadas efectuadas e recebidas, dos telemóveis de Kate e Gerry na noite do desaparecimento que terão sido apagadas. 2 - As informações pedidas às autoridades inglesas sobre os McCann, no dia do desaparecimento, nunca chegaram.
3 - Segundo o ex-PJ, as informações sobre os cartões de débito e crédito do casal também nunca foi fornecida.
Relatório da PJ: pontas soltas
O relatório da PJ conclui que a realização da reconstituição dos factos seria «importante», no entanto, não foi possível realizar devido à recusa de alguns elementos do grupo. Assim, fica por esclarecer:
«A proximidade física, real e efectiva entre Jane Tanner, Gerald McCann e Jeremy Wilkins, no momento em que a primeira passou por eles, e que coincidiu com o avistamento do suposto suspeito, transportando uma criança. Resulta, a nosso ver, inusitado que tanto Gerald McCann como Jeremy Wilkins, não a terem visto, nem ao alegado raptor, apesar da exiguidade do espaço».
«O estabelecimento de uma linha de tempo e de controlo efectivo dos menores deixados sozinhos nos apartamentos, uma vez que, a crer-se que tal controlo seria tão apertado como as testemunhas e os arguidos o descrevem, seria, pelo menos, muito difícil que se encontrassem reunidas condições para a introdução de um raptor na residência e posterior saída do mesmo, com a criança, mormente por uma janela com escasso espaço. Acresce que o suposto raptor só poderia passar, nessa janela, com a menor numa posição diferente (na vertical) à que a testemunha Jane Tanner o visualizou (na horizontal).
«O que aconteceu no hiato temporal que mediou entre as 17h30 (...) e a hora a que é reportado o desaparecimento (cerca das 22h00).
Recorda-se que o processo sobre o desaparecimento de Maddie foi arquivado e que Robert Murat Kate e Gerry McCann deixaram de ser arguidos a partir do dia 21 de Julho. Os pais de Maddie também já fizeram saber que vão processar o ex-PJ Gonçalo Amaral na sequência da publicação do livro «Maddie: Verdade da Mentira».
As contradições de Kate e Gerry
Casal indicou pormenores divergentes sobre a noite em que a filha desapareceu. Pais zangaram-se na noite anterior ao desaparecimento de Maddie e Kate dormiu no quarto das crianças.
Os McCann deram versões contraditórias sobre os factos da noite do desaparecimento de Madeleine, nomeadamente, em relação a alguns pormenores sobre a filha. Também uma zanga no dia 2 de Maio é descrita pelo casal de forma diferente. O comportamento dos pais foi analisado pela Polícia Judiciária, que a determinada altura, no decorrer da investigação, o classifica como estranho.
Uma das principais contradições nos depoimentos dos McCann, que decorreram no início de Setembro, prende-se com a forma como a filha ficou deitada naquela noite: Kate garante que deixou Madeleine tapada, debaixo dos cobertores. Por sua vez, Gerry dá uma informação contrária: quando foi ver as crianças, antes de sair para jantar, afirma que viu Madeleine deitada sobre o lado esquerdo, totalmente destapada: deitada por cima da colcha com a manta e com o peluche a seu lado.
Nunca mexeu na janela: impressões digitais contradizem
As impressões digitais contradizem o depoimento de Kate McCann: a mãe garante que nunca abriu janela nem sequer viu os estores do quarto de Maddie levantados, desde o dia que chegou à Praia da Luz. No entanto, as únicas impressões digitais encontradas na janela são de Kate.
Os hábitos de sono de Madeleine também não são contados pelos pais de forma igual. Gerry disse no depoimento que, à data do desaparecimento, a criança dormia bem. No entanto, em 2006, criou o hábito de, duas vezes por semana, acordar pelas 23h-24h e ir para o quarto dos pais.
Por sua vez, e apesar de assumir que a filha teve problemas de sono, Kate garante que ela se levantava entre as 2h e as 3h.
A zanga de Kate e Gerry
Kate não terá gostado da forma como Gerry a tratou no dia 2 de Maio, na véspera de Maddie desaparecer. O facto foi reconhecido e descrito pela própria no dia seis de Setembro, quando foi ouvida na Judiciária de Portimão.
No dia 2 de Maio, após o jantar no Tapas, o grupo de amigos ter-se-á dirigido para o bar do mesmo espaço de restauração. Alegadamente Gerry ignorou Kate e ela não gostou. Optou por dormir no quarto das crianças como retaliação. Apesar de admitir que ainda se deitou junto ao marido, acabou por se levantar e passar a noite no quarto dos filhos.
Recorde-se que a possibilidade de ter havido uma zanga entre o casal é colocada por Gonçalo Amaral, na primeira vez que vai ao apartamento da praia da Luz, a 4 de Maio, e se depara com a disposição e pormenores dos quartos, situação que descreve no seu livro «Maddie a verdade da mentira».
Gerry, ouvido dia 7 de Setembro, confirma o incidente e admite que na noite anterior ao desaparecimento, Kate dormiu no quarto das crianças, na cama encostada à janela. Todavia, diz ser incapaz de indicar o motivo, sugerindo apenas que a culpa seria de habitualmente ressonar.
O comportamento estranho dos McCann
O inspector designado para fazer ligação entre Polícia Judiciária e o casal McCann descreve, segundo o processo do caso «Maddie», comportamentos estranhos dos pais, principalmente após a diligência dos cães especialistas ingleses, que identificaram odor de cadáver no apartamento.
Há queixas relativas à PJ dar mais importância a outras pistas que não a possibilidade de rapto: a reacção de Kate, quando é notificada para se dirigir à Judiciária em Setembro, foi mesmo de questionar se a PJ não estava a ser pressionada pelo Governo para acabar com a investigação; e o que os seus pais e os jornalistas iriam pensar da situação.
Ou ainda a teimosia de Gerry em entregar a este inspector cartas e e-mails, que recebera de pessoas com capacidades psíquicas e médiuns, com informação relativa ao desaparecimento de Maddie, e que ele já tinha seleccionado.
Sem indícios que o casal McCann tenha cometido qualquer crime, o MP determinou o arquivamento do processo. No passado dia 21 de Julho, Kate e Gerry, juntamente com Robert Murat, viram levantado o estatuto de arguido.
Maddie: «Primeiros-ministros não são eternos»
Gonçalo Amaral considera que não há vontade política para reabrir o processo.
Com «alguma ironia» e defendendo sempre a tese de que a Madeleine McCan morreu na noite de 3 de Maio de 2007, no apartamento da praia da luz, onde passava férias com a família, Gonçalo Amaral, ex-inspector coordenador da Polícia Judiciária, assume ter dúvidas sobre se o aparecimento de um corpo «chegaria para reabrir o caso». Apesar disso, acrescenta, «os procuradores não são eternos, os primeiros-ministros também não são eternos. Vivemos numa democracia e isto vai mudar».
Dois anos depois de Maddie desaparecer, o homem que liderou a investigação durante seis meses e acabou afastado do caso, afirma que, neste momento «a vontade que existe é a de manter tudo em silêncio, sem se falar muito no assunto». Todavia, aguarda por «alguém influente» com coragem para reabrir o inquérito. «Vai chegar e dizer: "Vamos saber, de uma vez por todas, o que se passou aqui"», afirma esperançoso.
Da investigação que liderou, Gonçalo Amaral consegue retirar duas lições. «A pressão política não pode existir no âmbito das investigações criminais» é a primeira que refere ao
. Mas a segunda é bem mais pessoal: «Nós dizemos muitas vezes que sim, mas há sempre uma vez em que podemos dizer que não. Podemos abdicar das nossas carreiras e fazer algo de bom em busca da justiça e da verdade».
Estratégia de diversão: «Quiseram-nos encher de avistamentos»
Afastado do caso após afirmações polémicas sobre os seus congéneres britânicos, Gonçalo Amaral, reafirma as acusações e vai mais longe: «Houve uma gestão da informação por parte da polícia inglesa». «Muita coisa foi ocultada e quiseram-nos encher de avistamentos», acrescenta.
Em seguida, dá dois exemplos. A primeira denúncia a associar comportamentos suspeitos de um dos elementos, do grupo de amigos, que estava de férias no Algarve, David Payne, foi feita a 16 de Maio de 2007, por uma médica à polícia britânica. «A informação chegou a Portugal em Outubro, depois de eu já ter saído», recorda.
Mas se esta informação acabou por chegar com meses de atraso, outras nunca foram vistas. O ex-PJ lembra que foi feito, com o consentimento das autoridades portuguesas, um apelo aos turistas para enviarem fotografias, do dia e da noite do desaparecimento de Maddie. O objectivo «era identificar alguém suspeito que aparecesse a olhar para a família», conta. No entanto, apesar «do muito que chegou à polícia inglesa, nenhuma dessas imagens chegou até nós».
Muitas diligências por realizar
Questionado sobre se ainda está a investigar o caso, Gonçalo Amaral recusa usar o termo investigação porque «se dedica a outras coisas na vida». Todavia, admite que tem «mantido contactos com outras pessoas, entre as quais, polícias reformados, portugueses e estrangeiros» e que «estão a analisar todo o processo, para perceber o que foi feito e que diligências ainda faltam fazer».
Apesar do arquivamento não ter sido surpresa, defende que foi precipitado e que «há muito por esclarecer». Como, por exemplo, «saber se David Payne, um dos últimos a ver Maddie, esteve ou não com Kate no apartamento e se deu banho às crianças». Este nome é, aliás, uma peça do puzzle que considera «fundamental» para esclarecer «o que realmente aconteceu naquele dia».
Mesmo assim insiste: «O que aconteceu está fixado no processo. Há indícios de que, naquele espaço, aconteceu a morte daquela menina. Agora, para descobrir as circunstâncias e o eventual envolvimento de terceiros é necessário reabrir o processo, e avançar nesse sentido. Era isso que estávamos a fazer quando fui afastado».