António Pina “É preciso estabelecer parcerias e promover melhor o Algarve, capitalizando o esforço desenvolvido pelas empresas”
O Turismo no Algarve, considerado a sua principal fonte de economia, a crise e as fracas previsões da conjuntura num futuro próximo com menor desenvolvimento, impunham ouvir o principal responsável por implementar medidas tendentes a inverter a tendência. Foi isso que o Algarve Reporter foi fazer, ouvindo António Pina, presidente do Turismo do Algarve. Dê-nos um breve balanço do mandato anteriorAntónio Pina - Em duas palavras: muito positivo! Positivo porque liderámos um processo de transição para uma nova entidade de turismo, com todas as implicações daí decorrentes. Foi excelente ter sido designado também para a Comissão Instaladora e ser possível ter definido os estatutos da nova entidade regional de turismo, conferindo-lhe mais competências. Positivo ainda porque durante o exercício das nossas funções ainda enquanto Comissão Executiva, conseguimos estabelecer consensos, estreitar relações com as entidades públicas e privadas, tendo ganho o voto de confiança que nos permitiu ganhar as eleições. Temos a sorte de liderarmos uma instituição dinâmica, com um excelente potencial humano, que herdou um passado de estabilidade e de cooperação. É igualmente nossa intenção continuar valorizar as relações internas e externas, num incentivo à criatividade, mas também no apoio a todos os agentes e instituições do sector, pois juntos podemos fazer ainda mais e melhor.
Que vantagens traz a nova entidade "Turismo do Algarve" (TA)? A actual autonomia é aquela que se deseja?
A. Pina - Desde logo as novas competências que conseguimos com a aprovação dos estatutos da Entidade Regional de Turismo, que mantém a autonomia administrativa e financeira, e pelouros que até agora lhe estavam vedado, como seja o caso de poder participar nos PDMs, a integração de novos membros na assembleia geral abrindo-se as portas à sociedade civil, com enorme impacto na actividade turística no Algarve, a promoção nos mercados de fronteira, que nos permite alargar do espectro da promoção nacional até à vizinha Espanha, a participação em pareceres para a atribuição de fundos e incentivos ao investimento, o que permitirá o desenvolvimento do destino a todos os níveis, e por fim, a importante questão da contratualização que dirige para o Algarve a gestão de diplomas e eventos até agora geridos apenas pelo Turismo de Portugal.
Os empresários queixam-se de ter sido 2008 e um mau ano turístico, e as previsões parecem não ser as melhores. Como pode (ou se pode) o TA fazer a inversão?
A. Pina - Temos que começar por desmistificar a observação de que o ano 2008 foi mau, pois estamos a compará-lo com 2007 que foi um ano excepcional, talvez o melhor de sempre. Os últimos dados publicados pelo INE (Boletim Mensal de Estatística – Outubro de 2008), para o período compreendido entre Janeiro e Setembro, indicam um ligeiro decréscimo no número de hóspedes nos estabelecimentos hoteleiros (-0,3%), acompanhado da consequente baixa do número de dormidas 2,7 abaixo de igual período no ano passado. No entanto no que refere à receita por aposento, houve um ligeiro acréscimo de 0,2 por cento, indicativo de estabilidade face ao ano anterior que, repito, foi incomparável. Se atendermos aos números de outros anos de crise económica, como a queda da bolsa em Nova Iorque em meados dos anos 80, vemos que na altura os impactos para o turismo foram muito piores. Hoje dispomos de ferramentas que nos permitem chegar mais facilmente ao consumidor final e minorar as consequências de uma conjuntura desfavorável. É nestes momentos de crise que devemos contrariar a tendência sendo mais agressivos, aumentar a promoção nos destinos emissores já consolidados por terem uma melhor taxa de captação, e insistir nos destinos emergentes, e sobretudo inovar as campanhas, a imagem, não esquecendo os nichos de mercado. Em matéria de campanhas, estamos a fazer acções muito mais dirigidas e a participar em campanhas conjuntas. Estamos conscientes que 2009, lança novos desafios, pelo que temos que ser mais perseverantes e trabalhar em conjunto.
A oferta do sector Imobiliário (e o betão) continuam a 'invadir' o Algarve. Acha que estamos no caminho certo? O TA tem acompanhado essa evolução?
A. Pina - O “betão” não pode assumir o carácter de um inimigo. É tudo uma questão de equilíbrio, de sustentabilidade. A Imobiliária Turística, tem um papel muito importante no desenvolvimento e progresso da região, porque gera riqueza traduzida no investimento directo pelos promotores dos empreendimentos, pelas receitas advindas da aquisição, da compra de bens e serviços complementares, da captação da atenção para o destino, pela promoção feita pelos consumidores de segunda residência. Existe uma grande margem de crescimento em matéria de Turismo Residencial de qualidade, em projectos integrados na paisagem, que contribuam para desenvolver zonas com tendência para o abandono e desertificação. Volto a dizer que é tudo uma questão de equilíbrio e de avaliação da procura, para que não persistam alguns erros cometidos no passado.
Fala-se muito na oferta limitada "Sol&Praia". Mas na realidade, além do Golfe e Imobiliária, os empresários não investem noutros sectores. Pode o TA exercer alguma influência positiva, como?
A. Pina - Uma das competências do Turismo do Algarve, é a de fomentar e promover a promoção de outros produtos turísticos igualmente atractivos. Actualmente o Algarve está dotado de excelentes infra-estruturas dedicadas à Saúde e Bem-estar, tem igualmente um enorme potencial no que respeita ao Turismo de Natureza, donde se destaca a observação de aves ou os percursos pedestres, temos ainda o Turismo Náutico suportado por 200 kms de costa e por portos de recreio e marinas optimamente equipadas, que permitem a recepção e organização de grandes eventos, e são por si factor de atracção dos aficionados dos desportos náuticos e aquáticos. Outro importante segmento é o Turismo de Negócios, dada a extensão da oferta para a realização de conferências, reuniões e incentivos. A gastronomia, associada à cultura e ao património, é outra área em que temos planeado investir. Não descuramos os produtos “âncora”, como o Sol&Mar, o Golfe e o Turismo Residencial, mas as nossas campanhas abrangem todos os produtos consignados no Plano Estratégico Nacional para o Turismo, pois a diversidade, a qualidade da oferta, o clima do Algarve são pontos fortes, com elevado grau de competitividade, que estamos a explorar com acções cada vez mais dirigidas a públicos e nichos de mercado muito específicos. Esta é a nossa forma de capitalizar e potenciar o desempenho das empresas do sector, estimulando-as a focar outros aspectos da oferta da região. Embora defendamos o lema “menos betão, mais ambiente”, não podemos deixar de reconhecer a necessidade de atrair mais investimentos, reflectido em novos empreendimentos de qualidade em termos infra-estruturas, arquitectura e paisagismo. Trata-se antes de uma questão de equilíbrio territorial, entre o Barlavento e o Sotavento, entre o interior e o litoral.
Considera o segmento do Golfe prioritário para o Turismo no Algarve? Tem o TA outros projectos de mais valia como atractivos para fomentar mais visitantes?
A. Pina - O Golfe é sem dúvida uma das nossas prioridades. Desde logo, porque esta actividade turística ocorre na época baixa, o que ajuda ao esbatimento da sazonalidade. Trata-se de um produto transversal a todo o Algarve, pelo que a promoção é feita de forma global. Ajuda a promover a região em mercados com um enorme potencial de crescimento, como seja o nórdico e escandinavo. Permite ainda a fidelização de clientes de mercados já consolidados neste segmento, como seja a Irlanda ou o Reino Unido. É também complemento do Turismo de Negócios, em matéria de incentivos e eventos empresariais. O golfe promove ainda o investimento externo na região, e a sua associação a marcas internacionais tendo por consequência o aumento da notoriedade do destino. Não é por acaso que o Algarve foi duas vezes nomeado pela IAGTO (International Association of Golf Tour Operators) como melhor destino de golfe. A região é também citada em prestigiadas revistas de golfe através da cotação de campos de golfe que se tornaram marcas de referência internacional. O golfe é também uma importante fonte de receita, resultantes de mais de 1 milhão de voltas por ano, aliadas ao alojamento, restauração, spas e outros serviços. Os golfistas, são por natureza também excelentes promotores do destino, por passar a palavra. Como nos outros produtos, o sucesso da operação de golfe passa pela qualidade da oferta, pela excelência no serviço, pela optimização dos recursos, pela gestão correcta do espaço, e pela promoção estrategicamente dirigida a profissionais, associações e entidades organizadoras de eventos de golfe, de que é um bom exemplo a parceria com a PGA e o Turismo de Portugal, no que refere à organização do Portugal Masters e de outros eventos de grande visibilidade. E lembrarmo-nos como nos idos anos 80, o golfe foi recebido e encarado no Algarve!
O facto do Algarve, como destino turístico, estár muito dependente do mercado inglês, não torna redutor a actividade na região? É difícil encontrar novros mercados?
A. Pina - Desde os anos 70 que o mercado inglês ocupa um lugar de destaque em relação aos demais mercados emissores. Encontra-se no topo da tabela dos produtos Sol&Mar e do Golfe. Não podemos negar a importância da procura do mercado britânico, e é importante manter este status quo. Se temos mercados fidelilizados, não podemos deixar de apoiar a operação, quer seja no Reino Unido ou em Portugal, facto que não significa necessariamente uma dependência. É apenas uma estratégia comercial, de não negação da procura. Em relação aos mercados com um índice inferior de procura, desenvolvemos esforços acrescidos em campanhas e acções dirigidas aos agentes no sector e ao consumidor final, com o intuito de estimular a sua atenção para o destino. Os mercados de proximidade como Espanha e França, os países da Europa do Centro e Norte, como a Alemanha, a Áustria, a Bélgica, a Dinamarca, a Finlândia, a Holanda, a Noruega, a Suécia e a Suíça, e a Europa de Leste, com um enorme potencial de crescimento, destacando-se a Polónia e a Rússia, para citar apenas os mais importantes de entre outros, parte da nossa estratégia de promoção focada em produtos e perfis de clientes muito específicos, e em campanhas de fomento de ligações aéreas sem as quais o Algarve se torna menos acessível e convidativo. A nossa visão de promoção é global, corporativa e multi-facetada.
Há quem diga que fazer turismo no Algarve sai caro, dando prioridade a outros mercados. Benefícios fiscais e incentivos governamentais não estimulariam mais 'visitas', e um maior investimento no sector?
A. Pina - Não partilho da designação de Algarve como um destino caro. Tem mais a ver com a questão do custo/benefício. Se compararmos com outros destinos concorrentes, a priori, o Algarve até pode parecer caro, mas se atendermos à qualidade do serviço e das infra-estruturas existentes, à variedade da oferta disponível para todos os padrões económicos, creio que estamos na medida certa. Talvez estejamos a comunicar mal, talvez possamos melhorar e qualificar, mas temos que nos saber posicionar num alvo acima da média, sem menosprezo do cliente padrão. A nível do investimento demos passos muito significativos no que refere aos fundos e apoios ao turismo, quer a nível do investimento, quer da promoção e animação. Existem mecanismos de apoio ao investimento no sector, desde que os projectos sejam válidos e confiram valor acrescentado à região. Mas estou de acordo em que se avalie novas possibilidades, em conjunto com as entidades reguladoras e promotoras, no sentido de um maior estimulo ao investidor. Falemos antes de preço justo, na relação de três factores determinantes: qualidade, custo e época.
Recentemente a Comissáriaa Europeia para a Política Regional, Danuta Hubner, aconselhou o Algarve, "a não depender só do Turismo" e a investir mais nos recursos humanos e na inovação. Está de acordo? Como pode isso ser feito?
A. Pina - Estou de acordo quando a Senhora Comissária refere que não deve haver um tão grande fosso entre o Algarve interior e litoral. Há muito que defendo que são indissociáveis. Tem que se promover cada vais mais o interior, o barrocal, a serra algarvia, que fica apenas a 20 minutos do litoral e cuja a oferta, genuína, autentica e única, é um importante factor de atracção de investimento, de barreira à desertificação, de valorização do património rural e preservação da natureza, de estímulo às industrias tradicionais. Existe ainda espaço para a aquacultura, para a agricultura biológica e das indústrias não poluentes associadas, para a exploração das energias renováveis e sua utilização prática. No entanto, o turismo continua a ser o principal motor do desenvolvimento e progresso no interior. Pode dar-se mais atenção à agricultura, nomeadamente, em produtos com os quais podemos competir como seja o caso da laranja, da amêndoa ou da alfarroba. Mas nunca será suficiente para gerar a mesma riqueza, para criar tantos postos de trabalho, para captar as populações, como acontece com o turismo e todas as actividades implicadas e sustentadas pela actividade turística, mesmo ao nível da produção regional.
Que prioridades e objectivos tem para o Turismo do Algarve neste seu novo mandato?
A. Pina - Um dos objectivos primeiros é o de minorar os impactos da actual conjuntura sendo mais activo e mais dinâmico em matéria de promoção e animação. Temos um orçamento não muito avultado, pelo que temos que gerir as verbas de forma assertiva, ponderada e rigorosa. Outra das prioridades é o de estabelecer parcerias e trabalhar em conjunto com os Municípios, com as entidades regionais e nacionais em programas concertados. Os objectivos são promover melhor o Algarve, capitalizando o esforço desenvolvido pelas empresas. Aumentar a visibilidade do destino e torná-lo mais atractivo, através de uma promoção mais agressiva, mais criativa e mais apelativa.
Entrevista conduzida por: Carlos Ferreira