O que faz falta é assustar a maltaO cenário é negro, e os números falam por si: 32.500 casos de VHI diagnosticados. Em 2007 surgiram mil novos casos.
"Agora que chegou o Verão, que andam pela noite mais pessoas na rua, observo na conversa dos jovens em bares e discotecas a procura de sexo sem preservativo, com a desculpa em que há um prazer maior dessa forma, e uma nova ausência do medo da Sida. Não viram ninguém próximo morrer disso, e têm a ideia de que a doença só chega aos outros, ou que passou a crónica, já não é mortal, que a medicina está a avançar muito e que o problema, daqui a uns anos, nem se vai colocar."
Esta opinião, de um voluntário do MAPS, associação algarvia que faz distribuição de preservativos em vários locais da região algarvia, nomeadamente nas zonas de diversão nocturna, vão ao encontro da análise do relatório da OnuSida, que refere "um ressurgimento do comportamento sexual de risco" em vários países da Europa Ocidental, incluindo entre o sexo masculino.
Portugal é aliás, com a Bélgica, Dinamarca, Suíça e Alemanha, um dos países europeus em que o número de novos diagnósticos atribuídos a sexo entre homens aumentou (bastante na Alemanha, ligeiramente nos outros) entre 2002 e 2004. No resto da Europa Ocidental, onde a tendência dominante é a do aumento das novas infecções atribuídas a sexo "hetero" e a subida do número de mulheres infectadas, os diagnósticos associados a sexo entre homens continuam a diminuir, mas outros sinais de perigo, como o aumento de casos de sífilis e de outra infecções sexualmente transmissíveis entre os homossexuais evidenciam uma provável alteração nessa curva.
É, como comenta o voluntário do MAPS, "o regresso do sexo completamente desprevenido e ocasional, dos engates entre portugueses ou estrangeiras, com pessoas que não se conhecem de lado nenhum. Voltou-se ao mesmo tipo de coisas que se faziam antes do 'grande susto', há 20 anos. "Eu estava convencido de que estas coisas tinham acabado, mas depois de andar pela rua, e ver o que vejo, tive de mudar de opinião. Muita gente vive a um passo do abismo". A surpresa do voluntário do MAPS é compreensível: se os comportamentos sexuais de risco nunca deixaram de se verificar nas relações ditas heterossexuais - nomeadamente porque se criou a ideia de que a infecção por HIV era coisa de "grupos de risco", ou seja, "dos outros" - , entre os homossexuais masculinos, devido ao facto de o início da epidemia lhes ter sido associado, houve uma consciencialização do perigo muito mais aguda e um envolvimento militante na prevenção e no combate à doença.
Jogar na Roleta RussaMas essa consciência, reconhece este voluntário do Movimento de Apoio à Problemática da Sida (MAPS), não foi herdada por quem tem agora vinte anos. E fenómenos comparáveis à roleta russa, como o barebacking (a procura de parceiros para sexo especificamente sem preservativo), chegaram já a Portugal. "Há uma desvalorização grande dos malefícios da doença", conclui o voluntário, que, entre outros factores, atribui o facto à inépcia das campanhas, que "não têm sido suficientemente fortes para fazer passar a mensagem sobre o carácter mortal da doença. Somos poucos, os voluntários, particularmente no Algarve, uma zona de risco permanente dado o factor turismo, e o governo esquece que as campanhas não podem abrandar. Aqui, nem sequer cá chegam...".
Ou seja, é preciso reavivar o medo.
Se algo pode contribuir para inculcar nas mentes a ideia de que a infecção por HIV não escolhe sexo, práticas sexuais nem idades, são os dados mais recentes relativos às notificações hospitalares. Se nos últimos anos se assistiu a um aumento dos diagnósticos entre idosos e nas mulheres em geral, as mais recentes notificações dão a ver, segundo Teresa Paixão, do Centro de Vigilância Epidemiológica das Doenças Transmissíveis, a tendência para uma subida no número de casos nas jovens entre 16 e 18 anos e nas mulheres com mais de 50 anos, umas e outras, frisa a investigadora, "portadoras assintomáticas".
Na sua última visita a Portugal, o director executivo da OnuSida, Peter Piot, manifestou preocupação com a situação portuguesa, sobretudo depois de ter tomado conhecimento da prevalência da infecção entre as mulheres grávidas - mais de 1%, ou seja, um valor que a OnuSida classifica como sendo de "epidemia generalizada". Mas nas ruas algarvias, em Faro ou Portimão, Albufeira ou Tavira, onde se oferece, ou compra e vende sexo, os avisos de Piot não parecem ter qualquer eco, a crer no membro da "brigada do preservativo" do MAPS. "No último ano temos ouvido apelos sistemáticos no sentido de que se faça alguma coisa para que os clientes se convençam a usar preservativo. Mas, prostitutos e prostitutas queixam-se do mesmo: não conseguem convencê-los."
C.F.