Juventude alcoolizadaPortugal é o sexto maior consumidor de álcool da União Europeia. Todos os dias, há mais mortes causadas pelo álcool do que por outras drogas, sendo mesmo a primeira causa de morte entre os jovens, se juntarmos as doenças que lhe estão associadas e os acidentes por ele causados. O excesso de consumo de álcool pelos jovens sobe assustadoramente. A noite algarvia está a ficar “doente”.
O cocktail álcool/juventude tem cada vez mais saída. Basta dar uma saltada “às noites” de Albufeira, Praia da Rocha, Tavira, Monte Gordo ou Vilamoura. Os problemas, esses, são cada vez maiores. Em Portugal, são lendários os bacanais das Queimas das Fitas, onde a quantidade de cerveja ultrapassa a quantidade de estudantes e tudo o que é bom senso. Como se sabe, em Faro, durante aquela festa dos estudantes, é consumida mais cerveja do que todo o ano naquela cidade… Os próprios bares incentivam os estudantes ao consumo com festas temáticas como aquela famosa e tão imaginativa "Alcoolização dos Perús"!
A estupidez reinante é incomensurável, e os acidentes uns atrás dos outros. Recordo-me dos tempos de estudante, quando já nessa altura via muitos colegas, independentemente da faculdade, a embebedarem-se apenas por isso, beber. Não era para se divertirem, não era para ficarem felizes, não era para celebrar nada – era beber para ‘apanhar’ uma bebedeira como condição e orgulho estudantil. Consideravam-se (sentiam-se) “homens”. As cenas lamentáveis repetiam-se a cada minuto, algumas verdadeiramente humilhantes, o chão ficava pejado de lixo e os acidentes não eram tão poucos como isso. Para não falar nas cenas deprimentes que envolvia raparigas, e ao que elas se prestam embriagadas. Mas, no nosso país, não é preciso a primeira semana de Maio para beber em excesso.
As noites de sexta e sábado têm luz verde para o consumo desenfreado de álcool pela juventude nos bares das várias cidades algarvias. E as restantes faixas etárias continuam a abusar, não em momentos determinados, mas quase todos os dias. Almoço ou janto, quase todos os dias em restaurantes de classe média, e contam-se pelos dedos de uma mão as refeições em que não vejo alguém “deitar abaixo” uma garrafa inteira de vinho. “Hábitos velhos”, dirão alguns. “E irresponsabilidade acrescida”, diremos nós.
Ultimamente, televisão e jornais têm dado destaque à campanha “Se conduz, não beba” que decorre na noite algarvia. Tenho as minhas dúvidas sobre a bondade do projecto. Se é positiva a retirada da estrada de elementos potencialmente perigosos, também parece que se trata de um incentivo à bebida a sua venda nos postos de gasolina, recorrendo ao jargão futebolístico, “está a beneficiar-se o infractor”. Veremos quanto tempo irá durar.
Infelizmente, o problema do álcool não é só nacional e está a preocupar responsáveis de muitos países. Veja-se o exemplo relativo a Jenna, uma das filhas de George W. Bush, citado pelo New York Times: “Ela nunca estuda”, chegou a dizer uma colega, “embebeda-se metade da semana e passa a maior parte dos dias a tentar curar as ressacas”. O que Jenna aprendeu é um mistério porque as suas notas nunca foram afixadas publicamente! Os responsáveis disseram que o sigilo se deveu a “questões de segurança”, os colegas às péssimas notas. Licenciou-se em Inglês... e Barbara, a outra gémea, em Humanidades

Em Espanha, são as próprias autoridades a mostrar preocupação, não só pelo efeito que causa na juventude, mas também por todos as consequências que dali decorrem, desde a dependência até aos danos materiais e humanos. Um problema anexo é o do ‘botellon’, a verdadeira lixeira de garrafas e latas que atapetam, em cada noite de Verão, as praças das principais cidades turísticas espanholas, a começar por Sevilha bem aqui ao lado.
No Reino Unido, então, a situação é dramática. Estive em Londres no verão do ano passado, e no coração de Picadilly fiquei sinceramente chocado e... amedrontado. Na sua última edição, o Sunday Times apresenta um artigo sobre o consumo de álcool e tabaco por menores, na casa do 14-15 anos: 44% das raparigas e 42% dos rapazes bebem semanalmente; 26% das raparigas e 16% dos rapazes fumam. A imprensa local, famosa pelas suas inventivas parangonas, já achou um termo para este fenómeno feminino: “ladette” - a partir de “lad”, o termo usado pelos rapazes de média e baixa classe, clientes assíduos dos “pubs, clubs & bars”, no seu tratamento pessoal. E, como se vê dos números, a “ladette” já está a chegar a mulheres cada vez mais novas… Os pais e as autoridades estão preocupados com os excessos. Entre os primeiros já surgiu a moda de dar álcool a beber aos filhos, para que aprendam a fazê-lo dentro de um ambiente controlado. Já as segundas estão preocupadas com as consequências para a saúde do consumo de álcool em tão tenra idade: doenças do foro cardiológico, obesidade, problemas de fertilidade e concepção, além de descontrolo nas doenças sexualmente transmissíveis.
A explicação para este comportamento, segundo os especialistas, está relacionado, por um lado, com a baixa estima que as jovens têm e que procuram ultrapassar bebendo mais do que os companheiros, exibindo, assim, mostras de uma maturidade precoce. Uma segunda causa estará relacionada com os modelos que estas raparigas têm como referência. Desde cantoras com visual “trash”, como Avril Lavigne, até às raparigas da geração seguinte que vêm no locais que frequentam, passando pelos relatos que lêem nas suas revistas e na televisão. Porque, já se sabe, “o fruto proibido é o mais apetecido”.
O problema tende a agravar-se, um pouco por todo o lado, preocupando pais, professores e autoridades. Porque “as crianças de hoje são os homens e mulheres de amanhã”. Acho que a preocupação deveria ser geral. Porque aconselhar, indicar e não proibir é algo que se pode fazer – só que isso apenas funciona enquanto os adolescentes estiverem na nossa presença…
Portugal é o sexto maior consumidor de álcool da União Europeia. Todos os dias, há mais mortes causadas pelo álcool do que por outras drogas, sendo mesmo a primeira causa de morte entre os jovens, se juntarmos as doenças que lhe estão associadas e os acidentes por ele causados.
No que diz respeito à juventude algarvia, e a todos os outros jovens que nos visitam (nas férias da Páscoa, e no Verão as bebedeiras são monumentais) para além das campanhas a nível nacional, é preciso que as Autarquias e Associações de Pais sensibilizem a juventude e os visitantes para hábitos mais sadios e conscientes bebendo com moderação. Mas, e também, os “comerciantes da noite” para que estes tenham alguma consciência (?) e deitem mão nos excessos que se praticam nos seus bares e discotecas a troco do ganho de alguns euros.
A juventude de amanhã, agradece (já hoje).