Uns sobem, outros marcam passo

Aproxima-se mais um aniversário do “25 de Abril de 1974”, e este é mesmo para comemorar, por ser um numero redondo 35º, que normalmente tem sempre mais impacto do que os que medeiam as décadas, isto é, quando se fazem 10, 20, 30, 35 anos e por ai adiante, as festividades têm mais brilho e as despesas um bocadinho maiores, devido à solenidade.
É o que vai acontecer para o ano quando a Republica Portuguesa completar 100 anos, no dia 5 de Outubro de 2010, estando em marcha há três anos a preparação de um vasto programa que envolve muitas actividades da área politica, desportiva, cultural e académica. Foi nomeado um Comissário Geral, o portuense, Dr. Santos Silva, um dos principais banqueiros, dono do Banco BPI e personalidade que sempre militou na Oposição Democrática que se opunha ao regime de Salazar e Caetano, cujo derrube aconteceu há 35 anos, marcando um novo rumo de fachada democrática, salvo no período “Gonçalvista”, embora ainda hoje, mantenha no essencial as liberdades básicas.
No entanto, os sinais são altamente preocupantes e contraditórios, visto que em vez de se promoverem a Majores Generais os militares do 25 de Abril, como Otelo, Durão Clemente, Vasco Lourenço, os do “Grupo dos 9” e os democratas “Gonçalvistas”, promove-se o Coronel Jaime Neves que pouco teve a ver com o 25 de Abril, foi até um militar contra revolucionário como o foram todos aqueles que triunfaram no “25 de Novembro de 1975”. Só neste País, onde tudo funciona ao contrário, são admissíveis casos semelhantes, normalmente privilegiando-se o infractor, o medíocre, o denunciante, o bufo, o falhado. Naturalmente, na politica isso é mais evidente - quanto pior for o desempenho de um Ministro, maior é a sua recompensa depois de deixar o Governo, como acontece agora com o ex-Ministro da Saúde Correia de Campos que vai ser premiado com um bilionário lugar no Parlamento Europeu, como deputado do Partido Socialista. Na lista do PSD, há outra ex-ministra da educação Graça Carvalho e podíamos acrescentar dezenas de casos que estão na memória de todos e que são caldo da corrupção politica, económica e social.
Mas, da displicência à provocação, ainda vai alguma distância, entendendo o Presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão, afrontar o regime democrático saído do 25 de Abril/74, inaugurando no próximo dia 25 de Abril de 2009, um Largo requalificado, onde gastou muitas dezenas de milhares de euros e não encontrou melhor patrono para dar nome a essa praça publica, do que o do Prof. Oliveira Salazar e o mais caricato, é que este autarca pretende no seu abusado discernimento, homenagear o 25 de Abril/74, daí afirmar a feliz coincidência. Ora bolas, se assim é, porque não escolheu outro patrono para colocar na lapide do melhoramento urbano que nada deve a Salazar, desaparecido há 39 anos, sem mexer uma palha por Santa Comba Dão, que nos anos setenta do século XX era uma insignificante aldeia, aliás, como o era o País rural, atrasado, analfabeto e fradesco, construído à sua imagem e semelhança, durante 48 anos do regime fascista.
Já quando escrevia este artigo, li no “Correio da Manhã”, que o tenente coronel Otelo, também foi promovido a Coronel, com efeitos retroactivos monetários desde o ano de 2000 e mais 368 militares viram as suas carreiras reconstruídas com formulação jurídica na lei 43/99, o que não altera o fundo da questão de elevar o Coronel Jaime Neves a Major General. Neste País, procura-se tapar o sol com uma peneira, cometendo-se grandes atropelos ou praticando-se tremendas injustiças, tomando-se decisões de menores efeitos que parecem compensar males maiores ao dar a ilusão que está tudo metido no mesmo saco, não havendo razão alguma para aqueles que na realidade ao longo de décadas foram sistematicamente prejudicados nas suas carreiras civis e militares possam reclamar, porque entraram nas contas menores, para dar cobertura aos privilégios dos grandes beneficiados com promoções, condecorações, bajulações e outras manifestações de ternura e apreço militante das mesmas causas de corrupção e compadrio. Os militares que detonaram o 25 de Abril, tinham somente o fito de terminar a Guerra Colonial e criar um regime de fachada democrática, arredando o povo das decisões politicas, quando tentou agarrar a oportunidade. O sistema, passados 35 anos chegou ao fim e será preciso substitui-lo por uma verdadeira democracia de valores.
Tão cedo não se vislumbra melhor momento de alterar e combater todos os males do sistema, como o actual, quando neste ano temos três actos eleitorais que têm de produzir uma sã classe politica, embora para já, pelas anunciadas candidaturas para o Parlamento Europeu, seja tudo mais do mesmo - Vital Moreira/PS, Ilda Figueiredo/PCP, Miguel Portas/BE, Paulo Rangel/PPD-PSD, Nuno Melo/CDS e os restantes escondidos a coberto destes cabeças de lista são farinha do mesmo saco, pelo que a abstenção, os votas brancos e inutilizados deverão ultrapassar os 80%. Os 20% de votos validamente expressos, pertencerão aos candidatos, suas famílias e amigos. Ora isto, nada tem a ver com a democracia que o real 25 de Abril prometia lá nos idos de 1974, e que pode ser reposto com as eleições legislativas e sobretudo com as eleições autárquicas, nas listas dos grupos de cidadãos independentes, onde poderão aparecer novos talentos políticos, mas honestos!