Comemorar o quê?
2009: Um ano para esquecer. Agora é necessário paciência, coragem e, acima de tudo, um pouco de firmeza acreditando nos nossos ideais.Dentro de algumas horas, a turba alienada vai dar reflexos às suas emoções consumistas e comemorar mais um "Reveillon". Mas comemorar o quê?
Contráriamente ao costume nas minhas crónicas, hoje debruço-me um pouco sobre mim. Peço desculpa pelo intimismo, mas penitencio-me, pelo ano que agora finda, ao jeito de reflexão-antídoto para 2010.
O ano que agora vai terminar, foi verdadeiramente igual àquele que SAR Elizabeth II denominou em 1985, de “annus horribilis”. E tinha razão.
Tal como a grande parte dos portugueses, sinto-me apático em relação à maioria das coisas. É assim que me sinto. É assim que eu vejo os outros. Por isso, sei que estou bem de “saúde mental”. Sofremos todos os efeitos de uma metamorfose tão grande neste último ano que, sinceramente, não me reconheço mais nesse País. Ligam-me a ele apenas os laços da terra, os cheiros e as cores, o mar, as serras e um punhado de Amigos que ficaram no coração. Uma portugalidade que receio, tende a desaparecer.
Como já mencionei aqui algumas vezes, nunca fui pessoa de dar grande importância ao dinheiro. Mea-culpa de má aprendizagem. Serve para gastar, comer, viver e pagar os funerais quando a Segurança Social falir. Dessa forma de “estar na vida”, muito e bem, se aproveitou sem escrúpulos uma denominada “boa gente”... Mas não curto esse tipo de gente desonesta, hipócrita e falsa como a maioria dos empresários e classe política que conheci, e trabalhei, durante os últimos anos da minha permanência no Algarve. Os poucos bons, confirmam a regra. Por isso sempre afirmei que a Terra Sulina era um paraíso para os paraquedistas e para os vigaristas. Isso, hoje vê-se e sente-se mais do que nunca. Porque nada têm a ver os “indígenas” que aí vivem hoje, com as gentes dos anos 60 e 70 que conheci. Fiquei sempre à espera que tudo mudasse um dia, que fosse fruto da tal consagrada “crise à portuguesa”, reflexos de um PREC cuja miséria nunca mais terminará. E cansei-me. Comecei à algum tempo a dizer claramente as verdades e a sofrer as suas consequências. Isso foi uma das principais mudanças cristalizadas neste ano, que ferveu e deitou por fora. Aprendi a não ter vergonha nem medo de falar a verdade e de a divulgar.
Antes, ainda receava admitir muitas coisas. Medo de falar, de escrever, mostrar o que sentia. De mandar um conhecido à fava, ou um idiota à m... Agora não. Se tiver que falar, falo, escrevo e deixo preto no branco. Quem não gostar do preto, fique-se pelo branco, não leia. Se não quiser perdoar, não perdoo. E assim as coisas vão seguindo desde as verdades às mentiras. Enganarem-me mais, os(as) mesmos(as), isso não. Tudo o que me fez falta, aprendi a aproveitar até ao ultimo momento, mesmo quando começa a ficar tarde e a verdade urge ser reposta no meu espírito.
Engoli tanta coisa que me desceu seco pela garganta, arranhando o meu palato mole até ás goelas, que resolvi cuidar um pouco mais da minha vida. Pensar em como eu poderei ficar no fim de uma situação ou de um confronto de ideias, sem ter medo de errar e sem ter medo de agir injustamente. Hoje sei mais de mim mesmo do que dos outros. Mas uma coisa não mudarei: penso mais nos outros do que em mim próprio.
Agora não estranho o meu corpo. Dizem que estou mais forte. Mas é mentira, apenas talvez no interior, porque no aspecto até de “mais elegante” me chamam. Atribuo isso à generosidade e à enorme mudança que a minha vida sofreu desde que saí de Portugal, em Outubro passado. O corpo o sente. E ainda só lá vão três meses. Que se dane. Nunca é tarde p’ra recomeçar. No ano que vem, não mudarei nada, e continuarei igual a mim próprio. Da pureza aos vícios.
Recentemente, ao analisar o exemplo e percurso de vida de uma amiga fez-me crer um pouco mais, ter um pouco mais de fé no começo deste novo ano. O que implorei p’ra não acontecer no passado, aconteceu, mas na verdade, apenas o inevitável foi adiado. Mas ao menos, foi bem mais indolor do que teria sido antes. Adiar às vezes faz bem; ter fé, também.
Quando me falam da inexistência do amor e do desapego, essa parte não gosto. Mas tenho mais medo das falsas amizades. Daquelas que se servem de nós para gerir os seus interesses, e depois de servidas ficam mais ocupadas que antes. Não acreditar em amor também dói, estropia a alma. Viver pelo desapego faz mal. Isso eu vou querer mudar. Acreditar no amor mais uma vez, será uma boa escolha para o novo ano, mas o medo domina-me, e o meu lado Sátiro está muito mais afiado que antes, do que nunca esteve. Mas sei que isso trará consequências péssimas. Sei que o amor da minha vida pode ter passado ao meu lado e eu sem o ver… É isso, e estou consciente. Comemorar o quê? Ainda não sei como acabará o meu ano velho, mas sei muito bem como eu quero que ele termine e como desejo que o outro comece: com paz, saúde e trabalho.
Os amigos – verdadeiros – estarão sempre comigo. Na alma, no peito, na lembrança e na afeição. Seguros e guardados a sete chaves. Não serão areia que escorre entre os dedos… A gente se agacha, pega em mais um punhado, segura firme… Mas são outros grãos, serão uns iguais aos outros, iguais aos que escorreram, e ficaram pelo caminho. Hoje, descansa já um sentimento enraizado dentro de mim solidificado em tantas desilusões. Agora não dá para colocá-las em risco, de reeditálas, se não morre-se de vez. É melhor preservar o que ficou, para ficarem aqui guardadas pra sempre. No fim de contas, só Deus sabe se os grãos serão os mesmos… É necessário paciência, coragem e, acima de tudo, um pouco de firmeza, acreditando em nós e nos nossos ideais.
Uma dose de vinho semi seco também é bem vinda, mas do futuro, nada sei… Areia que voa com o vento, cega. Há ocasiões que nós precisamos mais de terra do que de areia. Eu sou apenas um grão.
Ósculos e amplexos… Um pouco de frustração e complexos também.
Bom Ano!
Carlos Ferreira