O balanço da campanha
O jogo está lançado. Os partidos tentaram convencer os eleitores no último dia. Agora, é tempo de reflexão após duas semanas muito intensas.Duas semanas de exaustão, soundbytes, acusações, momentos altos e baixos. Nesta sexta-feira terminada a campanha, foram jogados os últimos argumentos, percorridas as últimas ruas, gritadas as derradeiras palavras de órdem e vitória. No fundo, todos querem vencer. Mas haverá perdedores.
Ao longo dos últimos quinze dias, houve dezenas de repórteres na rua, acompanhando todos os partidos, mas com maior incidência nos que possuem assento parlamentar. Na televisão e na Internet, nada escapou. Equipas mostraram um outro lado da campanha, os bastidores, as visões mais populares, os trabalhos dos jornalistas, usando as melhores ferramentas. Os dados estão lançados. Agora cabe ao eleitorado reflectir e votar.
Curiosidades sobre as eleições
14 mil já votaram e para alguns o prazo terminou. Saiba ainda em que situações pode votar antes do tempo e por que só 1300 estrangeiros vão participar, todos brasileiros.As eleições legislativas estão marcadas para 27 de Setembro, mas no dia 23 mais de 14 mil eleitores residentes no estrangeiro já tinham votado. Para doentes internados e reclusos o prazo terminou a 17. Nestas eleições apenas 1300 estrangeiros poderão votar, todos brasileiros. Coincidência? Não. Ser imigrante a residir legalmente em Portugal não chega para exercer o direito de voto no domingo. A lei apenas permite que votem cidadãos brasileiros detentores do estatuto de igualdade de direitos políticos.
O estatuto é requerido pelos próprios ao abrigo do Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta entre os dois países e exige, entre outros requisitos, a residência habitual no nosso país, há pelo menos três anos. Beneficiam deste regime «apenas 1300» brasileiros, adianta fonte da Direcção Geral da Administração Interna (DGAI). Os portugueses residentes e inscritos no recenseamento no estrangeiro apenas poderão votar por correspondência. A DGAI enviou os boletins de voto a 166 mil 707 eleitores residentes em 82 países diferentes.
O Brasil foi o que mais boletins recebeu (53.347), seguido da França (46.651) e da Alemanha (10.218), dos EUA (9608) e do Canadá (7242), mas também há portugueses a votar em destinos tão diferentes como a China (4102), a Índia (1662), o Malawi (20), Irão (3), Cuba (2) ou Filipinas e Croácia, ambos apenas com um eleitor inscrito.
Todos estes eleitores devem expedir o seu boletim de voto por correio até 27 de Setembro inclusive. «O carimbo do correio tem de indicar o dia 27 de Setembro e as cartas têm de chegar até ao dia 7 de Outubro, data em que serão escrutinados os votos», explicou ao tvi24.pt a mesma fonte da DGAI.
Agora, imagine que está doente em casa (gripe A?) ou de férias ou até a trabalhar longe da residência. Poderá votar noutra data? - Não. As situações em que se pode votar antes do dia estão reservadas a certos grupos de eleitores e vêm descritas na Lei Eleitoral para a Assembleia da República.
Apenas podem votar antecipadamente: militares, agentes das forças de segurança, trabalhadores marítimos, aeronáuticos, ferroviários e rodoviários de longo curso, e os membros das selecções nacionais que estejam impedidos de se deslocar à assembleia de voto nas circunstâncias previstas na lei.. Estes eleitores votaram entre 17 e 22 de Setembro. Podem ainda votar antecipadamente os eleitores presos e os doentes internados, sendo que nestes casos os votos foram recolhidos entre 14 e 17 de Setembro.
Se estiver a trabalhar a 27 de Setembro, os responsáveis pelas empresa devem facilitar-lhe a dispensa do serviço pelo tempo suficiente para o exercício do direito de voto. E se completar 18 anos no próximo domingo também poderá votar, uma vez que foi inscrito provisoriamente no recenseamento quando fez 17 anos. Mesmo que não disponha de qualquer documento de identificação no momento em que se dirige à mesa de voto, poderá sempre exercer o seu direito, desde que a identidade seja reconhecida unanimemente pela mesa, ou por dois eleitores devidamente identificados.
Finalmente, caso se engane ao colocar a cruz ou mesmo que tenha inutilizado o boletim, poderá solicitar um novo boletim, desde que, claro, o primeiro não tenha sido colocado dentro da urna. Este será destruído à sua frente.
Sócrates: De «animal feroz» a «Mister simpatia»
Começou com uma campanha de um homem, aparentemente, só, numa aldeia de 700 habitantes.Na quinta-feira, percorreu a Rua de Santa Catarina, no Porto, quase sem espaço para respirar. O José Sócrates das reformas na educação e na administração pública, que colocou milhares de pessoas nas ruas contra o seu Governo, conseguiu mobilizar multidões nas últimas semanas, a apoiar a sua permanência. Será este um Sócrates com uma química diferente?
Quem fizer uma revisão dos registos do primeiro-ministro dos últimos quatro anos encontrará alguém de poucas cedências, inflexível, sem dar espaços, que não deixa por mãos alheias a resposta às críticas. Um Sócrates reactivo. De impulso fácil. Quase gratuito. Quem fizer uma revisão desta campanha eleitoral assiste a uma transfiguração. Verá nas imagens televisivas, ouvirá nos registos radiofónicos e lerá nos relatos da imprensa coisas diferentes. Um braço que se estende, um cumprimento fácil. Um Sócrates que não dava a outra face aos ataques políticos, agora, oferece-a, com a delicadeza, aos beijos compulsivos dos populares. O homem que não vergou com 120 mil professores na Avenida da Liberdade, dobra-se agora nas esplanadas, e, enquanto os jovens socialistas distribuem bonés, bandeiras, canetas, porta-chaves, sacolas, blocos de apontamentos, José Sócrates espalha simpatias. «Você é muito simpática, você é muito simpático». O líder socialista chega a pedir desculpa «pelo incómodo» e pelo «barulho». Mas, numa campanha de atrasos, o líder socialista nunca chegou demasiado tarde para comprometer as acções. Com uma excepção, no Seixal, onde um mini-comício virou micro, depois de dois humoristas terem interrompido a intervenção de Sócrates a megafone. O candidato não lidou bem com o momento. Abandonou o campo em dez minutos, sem que lhe fosse arrancado um sorriso, mas também sem ceder a fúrias. Uma campanha que se iniciou sob o espectro de uma entrevista em que Sócrates deixou cair, aparentemente, todo o Governo, e que nos primeiros dias andou sem ministros, acabou por descolar-se dessa imagem. O PS que aparecia, nessa altura, não era o PS «da unidade», que passou a fazer parte do discurso recente do líder. Era o PS colado ao PSD nas sondagens, colado ao PS das europeias. Com TGV e «asfixia democrática» pelo meio, Viragem A letargia da campanha do PS arrastar-se-ia até sair do Sul, primeiro, com a primeira grande arruada, em Guimarães. E, depois, no fim-de-semana de viragem. No sábado, Sócrates entrou ao lado de um crítico interno no pavilhão da Académica, em Coimbra. Manuel Alegre assegurou-lhe apoio, em nome da «esquerda possível», sem elogios e contra Ferreira Leite. A unidade acabava de entrar no alinhamento. Um dia depois, os elogios chegariam, com a entrada em cena de Mário Soares e um discurso de legado, no Porto. A praça D. João I encheu para a entrega de testemunho, com o antigo presidente a dizer que Sócrates também «é fixe». Sócrates apurou temas. Preferiu repetir discursos calibrados e deixar a troca de críticas a cargo dos cabeças-de-lista distritais e a oradores de ocasião. O líder apresentou-se acima de todas as polémicas. A gerir silêncios, sob o resguardo de multidões e um corpo de seguranças. Numa semana conturbada, com o caso das escutas, a demissão em Belém do assessor para comunicação social de Cavaco Silva caiu como um bálsamo na campanha «rosa», numa altura em que estava sob o fogo «laranja» e uma nuvem de suspeições. E se com sondagens não se ganham eleições, como disse esta quinta-feira José Sócrates, numa referência às últimas, que libertaram o PS do empate técnico, certo é que esta semana até os estudos de opinião sorriram ao líder socialista, que parece te mais com a pele de «senhor simpatia» do que com a de «animal feroz».
Manuela:Sobrevive a campanha «armadilhada»
Cavaco veio baralhar uma volta que Ferreira Leite queria que fosse diferente das campanhas a pensar no boneco. E conseguiu.Uma campanha de altos e baixos com muitas arruadas, picardias, casos, escutas, Gatos, um TGV que partiu para não voltar, substituído pelo gesto mais indecifrável de Cavaco Silva.
É o Presidente que merece honras de destaque neste balanço de campanha do PSD. Não, não participou na volta laranja, mas ao afastar Fernando Lima, responsável pela comunicação social em Belém, acabou por atingir a líder do PSD, que tinha estado, desde o início, a cavalgar a onda da asfixia democrática.
Logo a meio da campanha, o caso Preto veio desestabilizar a comitiva, mas Ferreira Leite não chegou a tropeçar, e ignorou o assunto. Já estava à espera e até vaticinou «mais casos» nos jornais. Só não contava que o caso fosse com... Cavaco Silva. Se só há teorias para a opção do Presidente, amigo de Manuela há muitos anos, para algumas opções da comitiva há apenas momentos de desconcentração, que explicam uma certa desorganização sentida dentro da campanha.
A falta de linha estratégica concertada, desarticulada com os notáveis que iam aparecendo, afinou apenas nos últimos dias, mostrando estar longe da máquina oleada dos socialistas. O modelo foi definido logo no início: uma declaração aos jornalistas, um ou duas pequenas arruadas, almoços privados, e à noite salas pequenas para sessões de esclarecimento, só arriscando encher pavilhões 3 vezes.
Fora do alinhamento, Ferreira Leite só fez o que quis, jurando não ceder à política espectáculo - a candidata a primeira-ministra não permitiu distracções do que era a mensagem que queria passar, indiferente ao que se dizia lá fora, na campanha socialista. Tinha prometido uma volta diferente e conseguiu. Fez a volta que imaginou, sem camionetas «atrás» com militantes deslocados, e nas ruas culminou com grandes arruadas, enquanto foi caindo nas sondagens.
Manuela Ferreira Leite agiganta o discurso quando a luta aquece e surpreende quando ninguém está à espera: no dia a seguir à entrevista nos Gatos Fedorentos, a boa disposição e sentido de humor era tema de conversa no café e, nas ruas, recebia «parabéns».
Já nos dias em que seria mais fácil crescer, a candidata surgiu cansada, com pouca vocação para arruadas e para o contacto pessoal, ou mesmo para voltas eleitorais que vivem da imagem. «Não precisamos de enganar a comunicação social», disse Ferreira Leite sobre as campanhas feitas a pensar no boneco. No domingo, vai testar a teoria.
Louçã:E se acordar com uma ressaca monumental?
Bloco de Esquerda perto de resultado histórico, mas muito incomodado com subida galopante do PS.Tudo começou no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, onde o Bloco de Esquerda reuniu mais de 2500 apoiantes, um recorde do partido com apenas 10 anos. Francisco Louçã, ainda atordoado com o frente-a-frente com José Sócrates, precisava de jogar ao ataque. E assim fez. «No dia seguinte a votarem PS vão acordar com uma ressaca monumental», avisou, dirigindo-se, desde logo, aos seus mais recentes ouvintes: os eleitores socialistas.
Louçã apostava tudo nos descontentes, em quem votou PS em 2005, mas agora está desempregado, tem uma reforma baixa ou é trabalhador precário. Prometia «justiça na economia» e fugia, a alta velocidade, do «baixar do debate político», que nos primeiros dias se concentrava no TGV.
Era necessário responder à pergunta: «Sou de esquerda, mas não voto PS. O que voto para o PSD não ganhar?» Era aí que estava a chave do sucesso do BE: captar os votos da esquerda, sem dar a vitória à direita. A campanha corria bem, Louçã ia «onde nunca aparece ninguém» e abria o coração a jovens, idosos, trabalhadores, desempregados, pobres, todos. O PS e José Sócrates ajudavam, com uma luta incessante contra o Bloco, que demonstrava o «nervosismo» pela força de uma «nova esquerda», sempre «grande» e «necessária».
A confiança crescia de dia para dia e até deu para virar a agulha para o PSD, à procura de outros descontentes, social-democratas, alérgicos a votar PS. Para isso, era necessário um Francisco Louçã menos radical e até o léxico foi alterado. A palavra «nacionalização» desapareceu e o Bloco foi alargando horizontes, com um aceno também para os «alegristas».
Pelo meio, uma ameaça. Uma manchete sobre PPR que azedou o dia. «Não há telhados de vidro no BE», garantiu o líder bloquista, longe do olhar das peixeiras de Alcobaça. Mas o que interessava eram «as escutas que afinal não eram escutas», pois Louçã foi, de todos os líderes partidários, o mais incisivo na pressão a Cavaco Silva.
O consequente afastamento de Fernando Lima trouxe muitos sorrisos ao BE e Francisco Louçã entusiasmou-se. Caiu em cima do Presidente da República, declarou «morte» ao PSD e reclamou uma vitória que, afinal, viria a confirmar-se ser do PS. Falou-se de uma «maioria para governar» e até de um desejo de ser primeiro-ministro.
Começou a surgir a dúvida: e se o Bloco ajudar José Sócrates na Assembleia da República? «Em três letras: não.» Muitos desmentidos, cada vez mais categóricos: Louçã não quer nada com «este PS». Um suspiro de alívio para o eleitorado mais à esquerda e - porque não? - mais fiel.
E eis que, de repente, tudo muda. Sócrates vai buscar Manuel Alegre e Mário Soares, recorre aos ministros e às caras mais conhecidas, espalha o rosa pelo país com a sua máquina partidária imbatível. O PSD já não é um adversário à altura e regressa o fantasma: e se houver nova maioria absoluta?
Mudam os rostos bloquistas, há mais do tal «nervosismo», ainda que o partido esteja muito perto de um resultado histórico. Há muito a fazer nas últimas horas de campanha e, sobretudo, há que esperar que os eleitores «se lembrem do que foi a maioria absoluta do PS nos últimos quatro anos».
Como diz a música, está na hora de fazer a luta toda, contra o PS e a maioria absoluta, num último contra-ataque que deverá decidir o futuro do país. Se José Sócrates vencer, mas sem maioria absoluta, o Bloco, com pelo menos o dobro dos deputados, pode ganhar uma nova responsabilidade no panorama político nacional. Mas, se a maioria absoluta se verificar, será Louçã a acordar com uma ressaca monumental na segunda-feira.
CDU / Verdes:«Não há aqui uma medição de forças»
A CDU não é só PCP. É uma coligação eleitoral, de que faz parte também o Partido Ecologista os Verdes. Depois das eleições, transformam-se em grupos parlamentares separados.O Partido Ecologista os Verdes (PEV) têm um grupo parlamentar distinto, com dois deputados ¿ Francisco Madeira Lopes e Heloísa Apolónia. Mas, no domingo, não há-de aparecer no boletim de voto qualquer local para pôr a «cruzinha» neste partido. O PEV não concorre sozinho às eleições, mas fá-lo em coligação eleitoral com o Partido Comunista Português e com a Aliança Intervenção Democrática.
A coligação dura apenas enquanto dura a campanha eleitoral. PEV e PCP têm propostas de programa eleitoral diferentes e, conforme prevê a própria lei, depois das eleições, seguem, na Assembleia da República, agendas diferentes. Ambos os partidos apresentam propostas de forma independente. Porque se juntam dois partidos que, após as eleições, se separam? «Uma coligação é uma associação de dois partidos. Não há aqui nenhuma medição de forças. Há aqui um projecto comum para o país», responde Francisco Madeira Lopes.
A agenda política dos dois partidos é diferente, mas asseguram os deputados do PEV, os «objectivos para o país» são comuns. «Nós sustentamos a nossa intervenção política sobre três pilares essenciais: económico, social e ambiental», revela Heloísa Apolónia. «Aquilo que verificamos é que estes pilares, com os sucessivos governos, se têm virado para servir grandes interesses, em detrimento das populações. O que os Verdes propõem é uma inversão destes valores e destas políticas, no sentido de servir as pessoas e o país», acrescenta. «São propostas que vão de encontro àquilo que tem sido o trabalho do partido na Assembleia da República e fora dela», garante a deputada.
Uma das batalhas maiores do PEV foi a co-incineração na Arrábida. O processo foi suspenso, muito por intervenção do partido que tem apenas dois deputados na Assembleia da República. «O Governo procurou uma série de batotas na altura, toda uma série de esquemas para impor aquilo que, na nossa perspectiva já estava negociado com a Secil, que era atribuir um novo negócio à Secil, para a empresa se manter ali durante mais uns longos anos, em detrimento de uma área protegida com grande valor para a região e para o país, que é o Parque Natural da Arrábida», acusa Heloísa Apolónia.
Missão Portas:Ultrapassar «extrema-esquerda» e acabar com maioria PS
Rendimento mínimo foi o tema da campanha CDS que se fez à imagem de Portas. BE e Jaime Silva foram os principais visados pelas críticas do partido.Rei morto, rei posto». O ditado popular espelha bem esta campanha do CDS para as eleições legislativas. Terminado o périplo pelo país que culminou com a eleição de dois eurodeputados, a comitiva centrista voltou à rua.
Paulo Portas fez-se à estrada a 8 de Julho e desde então percorreu mais de 49 mil quilómetros, tendo visitado os 18 distritos do país. As prioridades estavam bem definidas: ficar à frente do BE e do PCP, que foram denominados de «extrema-esquerda» durante toda a campanha, evitar uma maioria absoluta do PS e eleger os deputados que nas últimas eleições «não entraram por um punhado de votos»: Faro, Coimbra e Madeira e o segundo por Aveiro. De coligações pouco ou nada se falou.
Já sem ter que dividir palco com ninguém, como aconteceu nas europeias em que cedia o protagonismo a Nuno Melo e Diogo Feio, Portas tomou as rédeas da campanha e apostou forte nos terrenos em que se sai melhor: feiras, mercados e arruadas.Ao lado, teve os cabeças-de-lista pelos distritos visitados, que chegaram muitas vezes a passar despercebidos.
A mensagem passou... para o bem e para o mal. O líder do partido é normalmente bem recebido, quer seja no ambiente mais formal dos almoços de empresários, quer nos calorosos abraços das vendedoras dos mercados. Na rua, sabem quem ele é, o que fez e o que quer fazer.
Ex-combatentes agradecem o empenho nas reformas. Os agricultores encontram nele eco das críticas ao ministro Jaime Silva e também um líder partidário que conhece «os problemas de quem vive da terra». «Os outros não falam de agricultura», dizem-lhe. Falam-lhe da perda de autoridade dos professores e dos polícias, discurso que Portas repete vezes sem conta.Com empresários, Portas fala da elevada taxa fiscal, da falta de incentivo e até do trabalho da ASAE.
Mas o tema da campanha foi, sem dúvida, o antigo rendimento mínimo. O CDS quer a fiscalização do Rendimento Social de Inserção porque «actualmente há muita gente a ver à custa dos contribuintes porque não quer trabalhar». A proposta é a mais polémica do partido e gera reacções díspares, mas quase sempre intensas. Há quem elogie a coragem de Portas ao apresentar a medida e se queixe de andar «a pagar impostos para sustentar os preguiçosos». Mas também há os que o acusam de querer «tirar aos mais pobres a única forma de sobrevivência».
As críticas levaram mesmo a alguns episódios desagradáveis na rua e Portas chegou mesmo a envolver-se numa discussão em Guimarães. Na altura o CDS defendeu que o crítico do rendimento mínimo era militante do PS e dias depois encontraram mesmo uma imagem em que mostra o homem numa arruada do PS.
Portas garantiu que o CDS não iria deixar de sair à rua por causa destes episódios, mas que é certo é que redobraram as cautelas da comitiva quando a agenda indicava iniciativas deste género. E houve mesmo algumas que não foram divulgadas à comunicação social que acompanhava o candidato. Questionado sobre os vários «casos» que marcaram campanha, Portas recusou sempre comentar. «O CDS tem a sua agenda», afirmou, criticando que PS e PSD tenham feito uma campanha de incidentes.
Portas acabou por ter de pagar o preço de tanto tempo de campanha. Logo no início o período oficial foi necessário cancelar uma iniciativa porque o líder centrista não tinha voz e teve mesmo que recorrer a cuidados médicos. E mesmo com injecções e idas ao médico, a voz fraquejou algumas vezes durante estes 15 dias. Mas isso não afectou o bom humor. Portas dançou, tocou pandeireta, foi às vindimas e mostrou que lhe serve como uma luva o fato de «Paulinho das feiras».