Dias contadosTerça-feira, 21 de Outubro
CARREGAR O CRESCENTEDepois de meses em que a campanha de Obama desmentiu toda a sorte de insinuações de que o candidato democrata seria muçulmano (ou "árabe", como acusou uma anónima apoiante de McCain e este contrariou de imediato: "Não senhora, é um homem decente e de família"), Colin Powell surgiu a apoiar Obama e, de caminho, a dizer o óbvio, ou seja, que não devia haver necessidade de se negar o que não constitui um crime.
Sucede que o óbvio nem sempre é exacto. Ouvindo Powell, por exemplo, fica-se com a ideia de que a baça imagem dos muçulmanos resulta de uma espécie de discriminação gratuita, e que a restante população dos EUA resolveu, sem argumentos plausíveis, recear uma religião em peso devido às acções e convicções de uma ínfima minoria dos seus praticantes.
Powell tem razão no que respeita à injustiça da discriminação. Mas erra na respectiva autoria, que o general, por diferentes palavras, sugere pertencer a cristãos, judeus, budistas, ateus e americanos de crenças e descrenças sortidas. Não foram estes "infiéis" que inventaram o separatismo racista da Nação do Islão, as regulares tentativas de destruição de Israel, a islamização iraniana e, sobretudo, o 11 de Setembro e o terror associado. E se é verdade que apenas uma pequena parcela dos muçulmanos no mundo esteve ou está envolvida nas brincadeiras acima, uma parcela assaz maior exibe em sondagens franca simpatia pela conversão forçada dos hereges ou pela Al-Qaeda, inclinações que não fazem maravilhas pela reputação de Alá no Kansas ou até em Nova Iorque.
Existem, mesmo assim, muçulmanos que abominam o terrorismo? Milhões, e muitos vivem nos EUA, incluindo o taxista de origem síria que, em Manhattan, me conduziu com um boneco de Bush no retrovisor e um discurso "patriótico" na garganta. Os enxovalhos que essa gente ocasionalmente sofre não têm nome. Têm, porém, culpados, mais fáceis de encontrar na mesquita do que na sinagoga ou na igreja. É deles que os muçulmanos empenhados numa vida digna, e Colin Powell, se podem queixar, embora às vezes pareça que não se queixam o suficiente, preferindo lamentar a "intolerância" de um país que se prepara para eleger um negro presidente. Não é pela intolerância que o negro em causa foge das conotações islâmicas como o diabo do crescente, perdão, da cruz. Obama é cristão, pormenor que Powell, aliás, fez questão de lembrar com firmeza.
Quinta-feira, 23 de Outubro
OS PUPILOS DO SR. REITORNas "praxes" do colégio agropecuário da Universidade de Évora, os alunos rastejam em excrementos de animais. E não, não é para se familiarizarem com a futura carreira. De acordo com o presidente da Associação de Estudantes, António Guladino, é somente para cumprir um "hábito antigo" e uma "tradição". Ao que parece, "todos os estudantes daquele curso gostam de passar pelo esterco". Mais: alguns, do segundo ano, "pedem para passar por aquilo outra vez". O sr. Gualdino, que se considera adepto de "uma praxe bem feita", leia-se de uma praxe sem "abusos", "excessos" e "que respeita as pessoas", jura que nunca houve queixas.
Com ou sem queixas, o reitor da Universidade decidiu proibir o vetusto exercício e abrir um processo aos seus organizadores. A medida, muito fácil e portuguesa, decerto merecerá os aplausos do prof. Mariano Gago e do Bloco de Esquerda. Infelizmente, viola a liberdade dos eventuais alunos que apreciam mesmo chafurdar em fezes e absolve a Universidade que aceita e finge formar semelhantes promessas do saber.
Sexta-feira, 24 de Outubro
LISBOA É PORTUGALEm época de "autárquicas", isto é, durante o longo ano que precede as eleições, a Câmara Municipal de Lisboa preenche mais espaço mediático, como agora se diz, que as restantes 307 autarquias juntas. Há vigorosos debates sobre o embaraço que seria se X tentasse regressar à CML, ou sobre se Y daria um candidato capaz, ou sobre se a liderança da CML permitirá a Z alimentar ambições superiores. Isto claro, se a nação dispuser de um posto superior em prestígio e estatuto à presidência da CML, o que, a avaliar pelo barulho alusivo, é pouco provável.
Mas se o barulho proclama a solenidade da CML, também revela o seu menos solene quotidiano, comum a todos os mandatos. Apenas nas últimas semanas, houve notícias de distribuição de património por amigos, fecho de zonas públicas para publicidade de empresas, arrogância, favores, incompetência, etc. A única promessa que os ocupantes da CML invariavelmente cumprem é a de devolver o Tejo à cidade: mal chove, Lisboa rivaliza com Veneza.
Outra demonstração recente do estilo que habitualmente governa Lisboa prende-se com a empresa municipal que gere a habitação dos pobres. "Gerir" e "pobreza" são aqui conceitos latos, já que em escassos vinte meses de 2006 e 2007 três administradores da tal Gebalis terão gasto uma fortuna em viagens, livros, filmes, discos e refeições (64 mil euros em restaurantes). Não pertencesse o dinheiro aos contribuintes, o investimento dos três funcionários no aprimoramento cultural (e gastronómico) deveria ser louvado. Assim, a coisa não passa de um trivial roubo, igualzinho no método e na provável impunidade à regra do país autárquico, do qual, aliás, a CML não se distingue.
"Caso" após "caso", há quem insista em distingui-la, conferindo ao respectivo chefe uma relevância que, com ou sem culpa do dito, os hábitos da casa não justificam. No que toca a descaramento, a autarquia da capital é tão caipira quanto a de Felgueiras. Se a capital não andasse distraída a rir da província, notaria que os rigorosos rituais de escolha do seu próprio presidente pecam por exagero: na realidade, para presidir àquela desavergonhada balbúrdia qualquer um serve, embora, dadas as dimensões da desvergonha e da balbúrdia, a CML de facto não sirva a qualquer um.
Sábado, 25 de Outubro
O CAFÉ E AS CONTASDavid Gross, comentador da revista online Slate (e da Newsweek), explica a crise financeira através da quantidade de filiais da Starbucks, a cadeia multinacional de cafés. Resumindo muito, eis a tese: quanto mais filiais da Starbucks tem um país, maior é a sua vulnerabilidade face à crise.
Resumindo menos, Gross nota que a concentração de Starbucks nas diversas capitais financeiras aumenta em função da integração dessas capitais no capitalismo moderno, logo a uma propensão para o risco, para novas formas de negócio e para dar alguns euros em troca de uma simples bica. Nova Iorque e Londres rondam as centenas de lojas. Paris e Madrid, as dezenas. Pelo contrário, a África inteira, onde a banca permanece relativamente alheia às convulsões em curso, conta com uns meros três Starbucks. Idem para a América Latina e para a Ásia pobre.
Está bem: a Starbucks não existe na Islândia, pelo que a tese talvez não se candidate ao Nobel da Economia. Porém, numa altura de desnorte e palpites, é tão válida como qualquer. Para cúmulo, adapta-se perfeitamente às pretensões do Governo português, que em momentos de optimismo garante-nos imunidade perante o caos envolvente. Dado que Portugal conta apenas com uma loja Starbucks, bate certo. O que bate errado é este presumível sintoma de atraso e isolamento constituir para o Governo motivo de festejo.
Dito de maneira diferente, o que nos poderá proteger da crise internacional é, em parte, o que também "salva" o Terceiro Mundo: a crise interna, que resistiu, serena e patriótica, a anos de prosperidade ocidental. Portugal não se arrisca a cair na indigência porque, com o desemprego, a produtividade, o endividamento, as leis do trabalho e a estatização da economia que ostenta, Portugal era indigente bem antes de Wall Street se constipar.
Misteriosamente, o Governo ignora os sinais palpáveis da crise interna e ataca os sinais hipotéticos da externa. Muito misteriosamente, fá-lo mediante o reforço dos factores que nos conduziram, sem ajudas estrangeiras, à pindérica situação actual: mais Estado, mais "investimento" público, desresponsabilização dos cidadãos incumpridores, esfolamento dos cumpridores e bazófia, imensa bazófia em volta da "modernidade", dos "desígnios" e dos "desafios".
Não é à toa que a desgraça dos outros não nos preocupa. À toa andamos nós, no meio de uma desgraça particular que promete ser comprida, escaldada e sem açúcar.
Alberto Gonçalves, Sociólogo in Diário de Notícias, 26.10.2008